Dino cobra regras claras sobre responsabilidade por emendas

Congresso e governo deverão identificar as atribuições de parlamentares e agentes públicos em todas as etapas de execução dos recursos.

Flávio Dino determina que Congresso e governo detalhem responsabilidades na indicação, liberação, execução e fiscalização das emendas parlamentares.

Imagem: Reprodução/ Agência Brasil

A identificação dos responsáveis pela destinação e pelo uso das emendas parlamentares entrou em uma nova etapa no Supremo Tribunal Federal. Nesta quarta-feira (29), o ministro Flávio Dino determinou que Câmara, Senado e governo federal apresentem um modelo capaz de indicar quem responde por cada fase da aplicação desses recursos.

A exigência envolve desde a escolha do beneficiário e da finalidade da verba até a análise administrativa, a liberação, a execução do projeto e o pagamento final.

O objetivo é estabelecer uma matriz de responsabilidades que permita compreender a participação de parlamentares, órgãos federais, governos estaduais, prefeituras e demais entidades envolvidas na movimentação do dinheiro público.

A Câmara dos Deputados, o Senado e a Presidência da República deverão encaminhar suas propostas ao STF. Também serão ouvidas a Advocacia-Geral da União e a Procuradoria-Geral da República.

A determinação foi tomada após a análise de relatórios elaborados pela Controladoria-Geral da União, pelo Tribunal de Contas da União e pela Polícia Federal. Os documentos apontaram problemas recorrentes na execução das emendas e dificuldades para identificar a responsabilidade de cada agente.

Parlamentares poderão ser incluídos na matriz

Um dos pontos centrais da decisão é a análise da responsabilidade dos deputados e senadores que indicam as emendas.

Atualmente, os parlamentares definem o destino de parte dos recursos, mas a execução administrativa costuma ficar sob responsabilidade de ministérios, estados, municípios ou entidades beneficiadas.

Para Dino, essa separação não pode impedir a identificação de quem participou das decisões que resultaram na transferência do dinheiro.

A matriz deverá esclarecer o papel do parlamentar que escolhe o beneficiário, determina o objeto da emenda ou direciona os recursos para uma finalidade específica.

Isso não significa que deputados e senadores serão automaticamente responsabilizados por irregularidades cometidas durante a execução. A intenção é estabelecer critérios que permitam avaliar a atuação de cada participante de acordo com as decisões tomadas.

O ministro afirmou que as emendas não podem ser tratadas apenas como escolhas políticas livres de controle. Por envolverem recursos públicos, elas devem respeitar as normas constitucionais, orçamentárias e administrativas.

Emendas Pix também entram na discussão

A decisão alcança as transferências especiais, conhecidas como emendas Pix. Nessa modalidade, o dinheiro é repassado diretamente a estados e municípios, com menor participação dos ministérios na definição da aplicação.

Dino destacou que essas transferências não podem ser comparadas a operações privadas, como o envio de dinheiro para familiares ou o pagamento de uma compra.

Segundo o ministro, a verba continua sendo pública e, por isso, precisa estar submetida a mecanismos de transparência, rastreabilidade, fiscalização e prestação de contas.

A matriz deverá indicar quem responde pela escolha do destino, pela apresentação dos projetos, pela contratação de serviços, pela execução das obras e pela comprovação dos gastos.

O modelo também poderá facilitar o trabalho dos órgãos de controle quando forem encontrados desvios de finalidade, superfaturamento, obras paralisadas ou despesas sem justificativa técnica.

Relatórios apontaram falhas recorrentes

A cobrança do STF ocorre após auditorias identificarem problemas na aplicação das emendas parlamentares.

Entre as irregularidades mencionadas estão ausência de informações completas sobre os responsáveis pelas indicações, dificuldade para acompanhar o percurso do dinheiro e utilização de recursos em projetos sem planejamento adequado.

Também foram observados casos de obras não iniciadas, contratos sem justificativa técnica e aquisição de equipamentos incompatíveis com as necessidades das comunidades beneficiadas.

Investigações da Polícia Federal ainda apontaram situações em que parlamentares afirmaram não ter responsabilidade sobre a aplicação dos recursos depois de realizarem a indicação.

Na avaliação de Dino, o aumento da influência do Congresso sobre o Orçamento precisa ser acompanhado por deveres proporcionais de transparência e controle.

A definição das atribuições poderá ajudar a evitar que diferentes participantes transfiram a responsabilidade uns para os outros quando surgirem irregularidades.

Debate sobre emendas chegou ao STF em 2022

A discussão sobre o controle das emendas ganhou força em dezembro de 2022, quando o Supremo considerou inconstitucional o modelo utilizado nas chamadas emendas de relator.

Esses recursos ficaram conhecidos como orçamento secreto devido à dificuldade de identificar os parlamentares responsáveis pelas indicações e os critérios usados na distribuição.

Após a decisão, o Congresso aprovou novas regras para ampliar a transparência. Partidos e entidades, porém, continuaram questionando o cumprimento das determinações do STF.

O processo foi inicialmente conduzido pela ministra Rosa Weber. Com sua aposentadoria, a relatoria passou para Flávio Dino.

Desde então, o ministro vem cobrando medidas para melhorar a rastreabilidade das emendas e garantir que os autores, beneficiários e responsáveis pela execução possam ser identificados.

A nova determinação amplia esse acompanhamento ao exigir uma descrição organizada das atribuições exercidas em cada etapa.

Depois de receber as manifestações, o STF deverá analisar se as propostas são suficientes para garantir transparência e responsabilização.

As informações também poderão orientar futuras decisões sobre a execução das emendas individuais, de bancada e das transferências especiais.

Com a matriz, o Supremo pretende estabelecer uma visão mais clara do caminho percorrido pelos recursos e impedir que a divisão de tarefas seja utilizada para dificultar investigações ou afastar responsabilidades.

*Da Agência Fonte Exclusiva

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