Unicef cobra mais prevenção à violência contra crianças e adolescentes nos planos de governo

Análise de cinco candidaturas à Presidência aponta que propostas ainda priorizam a resposta aos crimes, enquanto ações preventivas aparecem de forma limitada.

Unicef analisa planos de governo de cinco candidatos à Presidência e defende mais políticas de prevenção à violência contra crianças e adolescentes.

Imagem: Reprodução/ Agência Brasil

O combate à violência contra crianças e adolescentes precisa ir além da punição dos responsáveis. Essa é uma das principais conclusões apresentadas pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) após analisar os programas de governo de cinco candidatos à Presidência da República.

A entidade identificou que boa parte das propostas está concentrada na resposta aos crimes já cometidos, enquanto medidas para evitar que a violência aconteça ainda aparecem de forma limitada.

Na avaliação do Unicef, uma política eficiente precisa agir antes que a agressão aconteça, levando em conta as diferentes situações de vulnerabilidade enfrentadas por crianças e adolescentes em todo o país.

Para o representante do Unicef no Brasil, Joaquin Gonzalez-Aleman, a prevenção precisa envolver áreas como educação, saúde, assistência social, geração de oportunidades para jovens, fortalecimento das famílias e identificação precoce de situações de risco.

Unicef defende apoio às famílias

Uma das sugestões apresentadas pela entidade é ampliar o que chama de “parentalidade protetiva” dentro de políticas públicas voltadas à primeira infância, assistência social, cuidados e prevenção da violência.

A ideia é capacitar profissionais que já atuam diretamente nas casas das famílias para que possam orientar pais, mães e responsáveis sobre maneiras de prevenir agressões e estabelecer práticas educativas sem violência.

Para o Unicef, esse tipo de acompanhamento pode ajudar a identificar dificuldades e situações de risco antes que elas evoluam para episódios mais graves.

A entidade também defende a criação de uma Política Nacional de Prevenção de Violências contra Adolescentes. A proposta teria participação de diferentes áreas do governo, como educação, assistência social e trabalho, evitando que o enfrentamento da violência fique concentrado apenas nas políticas de segurança pública.

Mais de 2 mil crianças e adolescentes morreram de forma violenta em 2025

Os números apresentados pelo Unicef ajudam a dimensionar o problema. Em 2025, 2.079 crianças e adolescentes foram vítimas de mortes violentas no Brasil, uma média de aproximadamente seis vítimas por dia.

A maior parte dessas mortes atingiu adolescentes do sexo masculino e negros.

Outro dado que chama atenção é o número de casos de maus-tratos dentro de casa. Segundo o levantamento citado pela entidade, foram registrados mais de 38 mil casos envolvendo crianças e adolescentes em 2025, mais que o dobro do número registrado no ano anterior.

O país também contabilizou cerca de 61 mil casos de estupro e estupro de vulnerável cometidos por pessoas conhecidas das vítimas.

Desigualdade também precisa entrar nas políticas públicas

Para o Unicef, não existe uma única realidade de violência contra crianças e adolescentes. As políticas precisam considerar as diferenças sociais e territoriais que podem aumentar ou reduzir a exposição aos riscos.

A entidade defende que fatores como raça, etnia, gênero, deficiência e local de residência sejam levados em conta na elaboração das ações governamentais.

O fundo também identificou uma presença ainda pequena de propostas específicas para crianças negras e indígenas, grupos que estão mais expostos a determinadas formas de violência.

As questões relacionadas às meninas e às crianças com deficiência aparecem nos programas analisados, mas ainda de maneira considerada insuficiente pela organização.

O que os planos dos candidatos propõem

A análise do Unicef considerou os planos de governo de Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão).

Ao todo, os documentos analisados tiveram 178 menções a crianças e adolescentes.

Segundo a entidade, Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Romeu Zema apresentam propostas relacionadas diretamente ao tema. No programa de Renan Santos, o Unicef não encontrou uma abordagem específica sobre violência contra crianças e adolescentes.

As prioridades, porém, variam entre as candidaturas.

Os programas de Flávio Bolsonaro e Romeu Zema dão maior destaque à punição e à resposta aos crimes cometidos contra crianças e adolescentes.

O plano de Ronaldo Caiado também prioriza investigação e responsabilização dos autores, mas inclui medidas que envolvem diferentes áreas do poder público na prevenção.

Já o programa de Lula, segundo a análise do Unicef, apresenta uma concentração maior de propostas voltadas à prevenção da violência.

Para o Unicef, o próximo governo terá o desafio de equilibrar as ações de responsabilização dos agressores com políticas capazes de reduzir os fatores que colocam crianças e adolescentes em situações de risco.

A avaliação da entidade é que combater a violência não significa apenas agir depois que o crime acontece. Investir em educação, saúde, assistência social, apoio às famílias e oportunidades para os jovens também pode ser uma forma de interromper situações de vulnerabilidade antes que elas se transformem em violência.

*Da Agência Fonte Exclusiva

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