A proteína deixou de ocupar apenas as embalagens de suplementos esportivos e passou a aparecer em praticamente todos os corredores dos supermercados. Hoje, é possível encontrar pães, iogurtes, barrinhas, bebidas e até águas enriquecidas com o nutriente, quase sempre apresentados como escolhas mais saudáveis.
A expansão desse mercado criou a impressão de que todos precisam aumentar o consumo de proteína, independentemente da alimentação, da rotina de exercícios ou das condições de saúde. Para especialistas, porém, a necessidade varia de pessoa para pessoa e, na maioria dos casos, pode ser atendida com refeições comuns e equilibradas.
A proteína é indispensável para a formação e a manutenção dos músculos, da pele, dos tecidos, das enzimas e de diversas substâncias produzidas pelo organismo. Isso não significa que quanto maior o consumo, melhores serão os resultados. Para adultos saudáveis, uma alimentação com cerca de 10% a 15% das calorias provenientes de proteínas costuma ser suficiente, embora a quantidade adequada dependa do peso, da idade e do nível de atividade física.
Pessoas idosas, atletas, gestantes, crianças em crescimento e pacientes em recuperação de cirurgias ou doenças podem apresentar necessidades diferentes. Nesses casos, a quantidade deve ser ajustada com acompanhamento profissional, levando em consideração não apenas a proteína, mas também o consumo total de calorias e outros nutrientes.
O problema surge quando uma recomendação específica é transformada em regra para toda a população. A palavra “proteico” passou a funcionar como um selo de qualidade, mesmo em produtos com grandes quantidades de açúcar, gordura, sódio, adoçantes e aditivos.
Adicionar proteína a um alimento ultraprocessado não elimina essas características. Por isso, a leitura da lista de ingredientes e da tabela nutricional continua sendo necessária. O Guia Alimentar para a População Brasileira recomenda que a base da alimentação seja formada por alimentos in natura ou minimamente processados e que os ultraprocessados sejam evitados.
Alimentos tradicionais oferecem quantidades relevantes do nutriente sem a necessidade de enriquecimento industrial. Ovos, carnes, peixes, leite, queijos, feijões, lentilhas, grão-de-bico e outras leguminosas são fontes conhecidas. A combinação de arroz e feijão também se complementa nutricionalmente e fornece aminoácidos importantes para o organismo.
Isso não significa que suplementos como o whey protein sejam inúteis. Eles podem ser práticos para pessoas que têm dificuldade de atingir a quantidade indicada pela alimentação, apresentam pouco apetite, praticam atividades físicas intensas ou estão sob orientação clínica. O suplemento, entretanto, não é obrigatório para ganhar músculos e não substitui uma alimentação variada.
A discussão ganhou ainda mais espaço com o aumento do uso de medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1, empregados no tratamento do diabetes e da obesidade. Como essas medicações reduzem o apetite e podem levar a uma ingestão menor de alimentos, existe preocupação com a perda de massa magra durante o emagrecimento.
Estudos mostram que parte do peso eliminado pode corresponder a tecidos magros, embora a proporção varie bastante conforme o medicamento, a velocidade da perda de peso, a idade, a alimentação e a prática de exercícios. Por isso, especialistas recomendam atenção ao consumo de proteínas e a realização de exercícios de força durante o tratamento.
Não há, contudo, uma quantidade de quilos perdidos por mês a partir da qual a redução muscular inevitavelmente começa. Também não há base suficiente para afirmar que o whey protein provoque sensibilidade alimentar em usuários dessas medicações. O suplemento pode ser utilizado em algumas situações, desde que haja tolerância digestiva e orientação adequada.
O principal cuidado é não transformar um único nutriente no centro de toda a alimentação. Ganho e preservação de massa muscular dependem de um conjunto de fatores, como ingestão energética suficiente, exercícios de resistência, sono, estado de saúde e distribuição das proteínas ao longo do dia.
A proteína continua sendo essencial. O excesso de marketing em torno dela, porém, pode levar o consumidor a gastar mais, abandonar alimentos tradicionais e enxergar como saudável qualquer produto que traga a palavra “protein” na embalagem. Na maior parte das vezes, uma alimentação variada ainda é capaz de fornecer o que o organismo precisa.
*Da Agência Fonte Exclusiva
