O jeito de escrever e falar de algumas pessoas está mudando com a popularização das ferramentas de inteligência artificial. Estruturas muito organizadas, frases excessivamente formais e construções que lembram respostas de chatbots passaram a ser identificadas com mais frequência em conversas profissionais e até em situações cotidianas.
Entre profissionais de tecnologia, o fenômeno já recebeu alguns apelidos, como “LLM-ismos” e “linguagem de Claude”. A ideia é descrever expressões e padrões que aparecem com frequência em textos produzidos por modelos de linguagem e que, aos poucos, acabam sendo incorporados pelos próprios usuários.
Expressões usadas por chatbots chegam às reuniões
A mudança também começou a ser percebida em ambientes corporativos. Sara Wimmercranz, fundadora de uma empresa de capital de risco em Estocolmo, identificou o padrão durante uma reunião ao ouvir uma frase que chamou sua atenção: “Isto não é uma reunião matinal, é um reinício”.
A construção utiliza o chamado “enquadramento contrastivo”, em que uma ideia é apresentada por meio da oposição entre aquilo que algo não é e aquilo que pretende representar.
Esse recurso não foi criado pela inteligência artificial e já fazia parte da linguagem humana muito antes da chegada dos modelos generativos. A diferença está na frequência com que determinadas estruturas aparecem nas respostas produzidas por ferramentas de IA.
Usuários começam a reconhecer o próprio estilo
A influência não fica restrita aos textos escritos diretamente por chatbots. Pessoas que utilizam inteligência artificial diariamente também relatam perceber mudanças na própria maneira de se comunicar.
Will Barnett, responsável pelo recrutamento de uma startup do Vale do Silício, afirma que sua escrita ficou mais formal e genérica depois do contato frequente com essas ferramentas. Por isso, ele passou a revisar alguns textos próprios para retirar características que poderiam fazer o conteúdo parecer produzido por uma IA.
A consultora de inteligência artificial Allie K. Miller também identificou uma transformação entre profissionais. Ela cita a expressão “linguagem de homem das cavernas”, utilizada para descrever uma comunicação extremamente direta, formada por frases curtas e poucas palavras.
A percepção é de que, ao conviver constantemente com determinados padrões utilizados pelos modelos de linguagem, os usuários acabam reproduzindo parte dessas características sem necessariamente perceber.
Escritórios já transformaram o fenômeno em brincadeira
A identificação do chamado “jeito IA” chegou até mesmo ao ambiente de descontração entre colegas de trabalho.
Deepan Mehta, responsável por uma startup, instalou um quadro branco no escritório para registrar as vezes em que funcionários utilizam expressões consideradas típicas de textos produzidos por inteligência artificial.
Cada ocorrência vale pontos. No fim da semana, a pessoa com a maior pontuação fica responsável pelas bebidas do happy hour.
A brincadeira funciona como uma espécie de jogo interno, mas também mostra como determinadas construções passaram a ser facilmente reconhecidas por quem utiliza ferramentas de IA com frequência.
ChatGPT ajudou a popularizar esse padrão
A expansão desse estilo de comunicação ganhou força com a popularização dos grandes modelos de linguagem. O lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022, colocou ferramentas capazes de produzir textos em linguagem natural ao alcance de milhões de usuários.
Desde então, padrões que anteriormente eram mais comuns em determinados ambientes profissionais passaram a aparecer em uma quantidade maior de conteúdos escritos com auxílio de inteligência artificial.
David Bohegan, CEO de uma organização sem fins lucrativos em Washington, observa que parte dessas características não surgiu com os chatbots. Executivos, advogados e outros profissionais já utilizavam uma comunicação mais formal e estruturada muito antes da popularização da IA generativa.
O que mudou foi a escala. Ao reproduzir determinados padrões em uma quantidade enorme de textos, os modelos de linguagem ajudaram a tornar essas estruturas mais presentes na comunicação de pessoas que passaram a utilizá-los regularmente.
O resultado é uma situação curiosa: ao mesmo tempo em que muitos recorrem à inteligência artificial para deixar seus textos mais claros e profissionais, outros passaram a revisar o que escrevem justamente para evitar que o conteúdo tenha aparência de texto produzido por uma máquina.
*Da Agência Fonte Exclusiva
