Uso de inteligência artificial para desabafar cresce, mas especialistas alertam para riscos à saúde mental

Chatbots podem ajudar a organizar pensamentos e buscar informações, mas não substituem psicólogos e psiquiatras, principalmente em situações que exigem avaliação clínica.

Uso de IA para desabafar cresce no Brasil, mas especialistas alertam que chatbots não substituem psicólogos e psiquiatras nem oferecem avaliação clínica.

Imagem: Reprodução/ PublicDomainPictures/Pixabay/ Agência Brasil

Conversar com uma inteligência artificial sobre problemas pessoais já faz parte da rotina de muitas pessoas. Disponíveis a qualquer hora e capazes de responder em poucos segundos, os chatbots podem ser usados para organizar pensamentos, buscar informações ou simplesmente colocar um desabafo para fora.

O problema começa quando essa conversa passa a ocupar o lugar de um acompanhamento profissional. Especialistas em saúde mental alertam que, apesar de conseguirem produzir respostas que parecem acolhedoras, sistemas de inteligência artificial não têm experiência humana, responsabilidade clínica nem vínculo terapêutico.

A neuropsicóloga Juliana Gebrim destaca que a relação entre paciente e profissional continua sendo uma parte importante do tratamento.

“Não existe, hoje em dia, nenhum tipo de manejo que substitua a relação terapêutica, dentro de um set terapêutico, junto a um psicólogo, a um psiquiatra”, afirmou.

Brasil está entre os países que mais recorrem à IA

O uso da inteligência artificial para lidar com questões relacionadas à saúde mental vem chamando atenção também no Brasil.

Dados do Mind Health Report apontam que 70% dos brasileiros afirmam utilizar ferramentas de IA para administrar questões psicossociais. O levantamento também mostra que cerca de 27% recorrem regularmente a algum recurso de inteligência artificial para necessidades relacionadas à saúde mental.

A facilidade de acesso ajuda a explicar parte desse comportamento. Diferentemente de uma consulta tradicional, a conversa com um chatbot pode começar imediatamente, sem agendamento e em praticamente qualquer horário.

Para quem está passando por um momento difícil, essa disponibilidade pode ser bastante atraente. Mas a praticidade também pode fazer com que algumas pessoas passem a confiar na tecnologia mais do que deveriam.

Respostas podem reforçar a percepção do usuário

Um dos principais pontos de preocupação levantados por especialistas é a maneira como a inteligência artificial adapta suas respostas ao que recebe durante a conversa.

O neurocientista e especialista em inteligência artificial Eduardo Rocha explica que os sistemas conseguem identificar padrões na interação e ajustar o conteúdo apresentado ao usuário.

Isso pode criar uma sensação de proximidade e confiança, especialmente quando a pessoa está procurando conselhos, acolhimento ou uma solução para um problema.

“Você começa a ter uma aderência muito grande entre essa pessoa, que talvez esteja colocando esse conteúdo porque ela está precisando de um acolhimento, de um conselho, de uma solução, de uma diretividade, mas ela está influenciando direta e indiretamente pelo seu próprio conteúdo quem ela é e como ela gostaria que fosse. Isso é um perigo”, explicou.

Na prática, existe o risco de uma resposta acabar confirmando a interpretação que a própria pessoa já tinha sobre determinada situação, sem necessariamente questionar outras possibilidades.

Um profissional de saúde mental, por outro lado, pode avaliar o contexto, observar mudanças de comportamento, fazer perguntas específicas e identificar sinais que não aparecem apenas no conteúdo de uma conversa.

Confiança na tecnologia também preocupa

O grau de confiança depositado nessas ferramentas é outro ponto que chama atenção.

Segundo o levantamento citado, 40% dos brasileiros que utilizam inteligência artificial afirmam confiar mais nas plataformas tecnológicas do que em profissionais quando procuram aconselhamento.

Esse comportamento pode se tornar especialmente preocupante quando a pessoa está enfrentando sofrimento psicológico intenso, pensamentos recorrentes ou situações que exigem diagnóstico e acompanhamento.

Uma conversa com um chatbot pode parecer suficiente naquele momento, mas não oferece uma avaliação clínica completa e também não substitui a responsabilidade de um profissional pelo acompanhamento do paciente.

IA pode ser uma ferramenta, mas não um tratamento

Isso não significa que toda utilização de inteligência artificial relacionada à saúde mental seja negativa. A tecnologia pode ser útil para encontrar informações, organizar pensamentos, preparar perguntas para uma consulta ou até ajudar alguém a perceber que precisa procurar ajuda.

O limite está em transformar essa ferramenta em substituta de um psicólogo ou psiquiatra.

Em situações de sofrimento significativo, o acompanhamento profissional permite avaliar individualmente o que está acontecendo e definir a melhor estratégia de cuidado. Também possibilita encaminhamentos para outros serviços quando necessário.

Por isso, especialistas recomendam que a inteligência artificial seja encarada como um recurso complementar, e não como uma forma de tratamento.

A tecnologia pode conversar, responder e até parecer acolhedora. Mas isso não significa que ela consiga compreender uma pessoa da mesma maneira que um profissional treinado, nem assumir a responsabilidade clínica pelo cuidado.

*Da Agência Fonte Exclusiva

Sair da versão mobile