A busca por tomates mais resistentes, produtivos e capazes de permanecer por mais tempo nas prateleiras pode ter provocado uma consequência inesperada: a perda de parte do sabor característico encontrado em variedades antigas.
Um estudo internacional publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) indica que décadas de melhoramento genético, voltadas principalmente para aumentar a produtividade e a resistência a doenças, alteraram a composição química dos frutos e contribuíram para reduzir algumas características relacionadas ao sabor.
A pesquisa analisou 558 variedades de tomate, além de espécies selvagens geneticamente próximas. O objetivo foi entender como a composição dos frutos mudou ao longo do processo de domesticação da planta, desde seus ancestrais na América do Sul até as variedades comerciais cultivadas atualmente.
Os pesquisadores avaliaram diferentes componentes envolvidos na percepção do sabor, incluindo açúcares, ácidos e dezenas de compostos aromáticos. A comparação revelou diferenças significativas entre variedades tradicionais e tomates modernos.
Segundo os resultados, os tomates atuais apresentam, em geral, uma combinação menos equilibrada entre açúcares e ácidos, além de concentrações menores de determinados compostos aromáticos considerados desejáveis. A análise também encontrou níveis mais elevados de alguns compostos voláteis associados a características sensoriais menos agradáveis.
Gene pode ajudar a recuperar características do sabor
Para entender quais alterações no DNA poderiam estar relacionadas às diferenças de sabor, os cientistas realizaram uma análise de associação genômica. A técnica permite identificar regiões do material genético relacionadas a características específicas observadas nas plantas.
Ao todo, foram encontradas 337 associações significativas envolvendo açúcares, ácidos e compostos aromáticos.
Um dos resultados que mais chamou a atenção foi a identificação do gene Sl-LIP100, que ainda não havia sido caracterizado dessa forma. O estudo associou o gene à produção de compostos ligados a notas frescas, verdes e frutadas, características consideradas positivas nas avaliações realizadas com consumidores.
Os pesquisadores também conseguiram acompanhar a trajetória de uma variante considerada favorável desse gene. De acordo com o estudo, ela surgiu originalmente no Equador e se tornou mais frequente durante as primeiras etapas da domesticação do tomate. Com o desenvolvimento de determinados programas modernos de melhoramento, entretanto, essa variante acabou sendo parcialmente perdida.
Para Esther van der Knaap, geneticista vegetal da Universidade da Geórgia e uma das pesquisadoras do trabalho, o sabor do tomate depende da combinação de diversos fatores. Dessa forma, o Sl-LIP100 representa apenas uma pequena parte de um sistema genético muito mais complexo.
Ainda assim, a descoberta pode ter aplicação prática na agricultura. Identificar variantes genéticas associadas a características sensoriais desejáveis pode ajudar os pesquisadores a selecionar plantas com maior potencial de sabor em futuros programas de melhoramento.
A expectativa é que esse conhecimento contribua para o desenvolvimento de variedades capazes de recuperar parte das características sensoriais dos tomates tradicionais sem perder atributos importantes para a produção comercial, como resistência a doenças, produtividade e maior tempo de conservação.
*Da Agência Fonte Exclusiva.
