O câncer continua sendo uma doença muito mais comum com o avanço da idade. Ainda assim, uma mudança vem chamando a atenção de oncologistas em diferentes países: alguns tipos de tumor estão sendo diagnosticados com maior frequência antes dos 50 anos.
O movimento não ocorre da mesma forma para todos os cânceres. Uma ampla análise do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos (NCI) identificou aumento da incidência de 14 dos 33 tipos avaliados em pelo menos uma faixa etária abaixo dos 50 anos, entre 2010 e 2019. Entre eles aparecem cânceres de mama, cólon e reto, rim, útero e pâncreas. Outros 19 apresentaram queda no mesmo período, o que mostra que não se trata de um crescimento generalizado da doença entre adultos mais jovens.
Há, porém, sinais suficientes para que o fenômeno tenha se tornado uma questão importante para a oncologia. No câncer colorretal, por exemplo, o aumento entre pessoas mais jovens já foi observado em diferentes países. Nos Estados Unidos, mulheres com menos de 50 anos também passaram a apresentar incidência de câncer significativamente maior que a dos homens da mesma faixa etária, diferença impulsionada sobretudo pelos tumores de mama e tireoide.
Por que alguns tumores estão aparecendo mais cedo?
Ainda não existe uma resposta única. A hipótese mais provável é que diferentes fatores estejam atuando ao mesmo tempo — e que a combinação não seja igual para todos os tipos de câncer.
Obesidade, alterações metabólicas, sedentarismo, consumo de álcool, alimentação e exposição a determinados agentes ambientais estão entre os fatores investigados. No câncer colorretal de início precoce, estudos recentes encontraram associações com excesso de peso, diabetes tipo 2, tabagismo, álcool e inatividade física. Os mecanismos envolvidos, no entanto, ainda estão sendo esclarecidos.
Outro caminho de investigação passa pelo intestino. Pesquisadores têm encontrado diferenças no microbioma de pacientes que desenvolvem câncer colorretal antes dos 50 anos, e dieta, obesidade e uso de antibióticos podem interferir nessa comunidade de microrganismos. A dúvida ainda é saber até que ponto essas alterações participam da origem da doença ou aparecem como consequência dela.
A genética também ajuda a explicar parte dos diagnósticos precoces. Síndromes hereditárias, como Lynch e Li-Fraumeni, além de alterações em genes como BRCA1 e BRCA2, aumentam a predisposição a determinados tumores. Mas essas condições representam apenas uma parcela dos casos e, sozinhas, não explicam a tendência observada nas últimas décadas.
Mais exames explicam o aumento?
Em parte, sim. O acesso a métodos de imagem mais sensíveis e a realização mais frequente de exames permitem descobrir tumores que antes poderiam passar despercebidos, algo especialmente discutido em cânceres como o de tireoide. Mas essa explicação também tem limites.
Há aumento de tumores para os quais sequer existe rastreamento rotineiro em adultos jovens, como o câncer de pâncreas, além de diagnósticos feitos quando a doença já está avançada. No caso do câncer colorretal e do endométrio, pesquisadores também observaram mudanças que não podem ser atribuídas apenas à ampliação dos exames. Por isso, a hipótese de uma transformação epidemiológica real permanece em investigação.
A mudança já começa a produzir efeitos na prevenção. Para pessoas com risco habitual, por exemplo, as recomendações americanas passaram a indicar o início do rastreamento do câncer colorretal aos 45 anos. Isso não significa que todos os exames devam ser antecipados indiscriminadamente para adultos mais jovens. O desafio é descobrir quem realmente apresenta risco aumentado e poderia se beneficiar de uma investigação precoce.
Enquanto a ciência tenta entender por que determinados tumores estão aparecendo mais cedo, um ponto ganha importância na prática: idade baixa não deve ser motivo para descartar sintomas persistentes. Ao mesmo tempo, os dados precisam ser interpretados sem alarmismo. O câncer não está aumentando de maneira uniforme entre todos os jovens; o que existe é uma mudança em tipos específicos da doença, suficientemente consistente para mobilizar novas pesquisas sobre prevenção, diagnóstico e fatores de risco.
*Da Agência Fonte Exclusiva
