Dedicar alguns minutos do dia a um livro, revista, história em quadrinhos ou outro conteúdo de interesse pode estar relacionado a benefícios que vão muito além do entretenimento. Uma revisão publicada em 15 de setembro na revista Psychological Medicine reuniu evidências sobre a relação entre a leitura por prazer e aspectos como saúde cerebral, desempenho cognitivo, bem-estar e saúde mental.
O trabalho foi elaborado por pesquisadores ligados à Universidade de Cambridge e analisou resultados de diferentes estudos sobre o hábito de ler ao longo da vida. Os dados apontam associações entre a leitura e menor estresse, maior bem-estar, empatia e melhor desempenho em determinadas funções cognitivas. Também foram encontradas relações entre atividades de leitura e menor risco de declínio cognitivo e demência na velhice.
Os autores, porém, fazem uma ressalva importante: boa parte das pesquisas disponíveis é observacional. Isso significa que os resultados mostram uma associação entre leitura e determinados benefícios, mas não permitem afirmar que o hábito de ler, sozinho, seja responsável por causar essas mudanças.
A revisão considera diferentes formas de leitura, incluindo livros, revistas, quadrinhos, graphic novels e conteúdos digitais. Segundo os pesquisadores, o mais importante é encontrar formatos e temas que despertem o interesse de cada pessoa.
Leitura pode fazer diferença desde a infância
Os benefícios associados à leitura aparecem também nos estudos que acompanharam crianças e adolescentes. Uma pesquisa anterior, envolvendo mais de 10 mil jovens, encontrou relação entre começar a ler por prazer ainda na infância e apresentar melhores resultados cognitivos e de saúde mental durante a adolescência.
Entre os aspectos observados estavam atenção, memória, funções executivas e desempenho escolar. Os jovens que tinham o hábito de ler também apresentaram, em média, menos problemas relacionados à saúde mental, além de maior tempo de sono e menor exposição a telas.
Os pesquisadores destacam que a leitura não precisa estar limitada aos romances tradicionais. Quadrinhos e graphic novels também podem fazer parte desse hábito, especialmente entre crianças e adolescentes que não se identificam com livros convencionais.
Leitura também pode ajudar a relaxar
Na fase adulta, os estudos reunidos na revisão encontraram associações entre a leitura por prazer e menor estresse, maior sensação de bem-estar e empatia. Algumas pesquisas também relacionaram o hábito a uma menor sensação de solidão.
A leitura compartilhada aparece como outro possível benefício. Clubes do livro e atividades em que pessoas leem e conversam sobre as histórias podem favorecer a interação social e criar oportunidades de conexão com outras pessoas.
De acordo com os pesquisadores, esse aspecto pode ser especialmente relevante para pessoas que enfrentam maior isolamento social. Ainda assim, os estudos sobre esses efeitos sociais também apresentam limitações e precisam ser interpretados com cautela.
Hábito está relacionado ao envelhecimento saudável
Na terceira idade, a leitura aparece entre as atividades cognitivamente estimulantes associadas a um menor risco de declínio cognitivo e demência.
Os pesquisadores analisaram estudos longitudinais que acompanharam pessoas durante anos e encontraram uma relação entre a realização frequente de atividades cognitivamente estimulantes, incluindo a leitura, e uma menor probabilidade de apresentar comprometimento cognitivo.
A revisão destaca que esse tipo de atividade pode contribuir para a chamada reserva cognitiva, conceito usado para explicar a capacidade do cérebro de lidar com alterações relacionadas ao envelhecimento ou a doenças neurológicas.
O que acontece no cérebro durante a leitura?
Pesquisas de neuroimagem também foram incluídas na análise. Os resultados indicam que a leitura está relacionada à atividade e a características estruturais de áreas cerebrais envolvidas em funções como linguagem, atenção, controle executivo, regulação emocional e cognição social.
Estudos sobre ficção também encontraram relações entre o hábito de ler e habilidades ligadas à compreensão dos pensamentos, emoções e comportamentos de outras pessoas. Isso pode ajudar a explicar por que a leitura aparece associada à empatia em diferentes pesquisas.
Apesar dos resultados, os pesquisadores reforçam que ainda não existe uma explicação definitiva sobre quais mecanismos cerebrais estão por trás dessas associações. Novos estudos, principalmente pesquisas experimentais, ainda são necessários para determinar melhor a relação de causa e efeito.
Leitura pode ser um hábito simples no dia a dia
De forma geral, a revisão publicada na Psychological Medicine reúne evidências que apontam uma relação entre a leitura por prazer e diferentes aspectos da saúde cerebral e do bem-estar ao longo da vida.
Os resultados sugerem que o hábito pode estar associado a benefícios que vão desde melhor desempenho cognitivo durante a infância e adolescência até menor risco de declínio cognitivo na velhice.
Para os pesquisadores, uma das características mais interessantes da leitura é justamente a facilidade de incorporá-la à rotina. Não é necessário seguir um gênero específico ou escolher apenas livros tradicionais: histórias, revistas, quadrinhos e outros formatos também podem fazer parte desse hábito.
*Da Agência Fonte Exclusiva
