O aquecimento global já não é apenas um fenômeno ambiental distante. Com ondas de calor cada vez mais intensas e frequentes, os efeitos começam a atingir diretamente o funcionamento do cérebro humano, agravando doenças neurológicas, alterando o comportamento e ampliando riscos à saúde mental.
Casos como o de Jake, hoje com 13 anos, ilustram esse impacto. Diagnosticado ainda bebê com a síndrome de Dravet — uma condição neurológica rara que envolve epilepsia grave — ele passou a apresentar convulsões desencadeadas pelo calor desde os primeiros meses de vida. Sempre que as temperaturas sobem ou há mudanças bruscas no clima, as crises se intensificam.
“Os verões estão mais quentes e mais difíceis. A cada onda de calor, o desafio de controlar a condição dele aumenta”, relata a mãe, Stephanie Smith. A síndrome, que afeta milhares de crianças no mundo, costuma vir acompanhada de atraso cognitivo, dificuldades motoras, distúrbios do sono e transtornos do neurodesenvolvimento. O calor extremo funciona como um gatilho adicional.
Para especialistas, esse não é um caso isolado. Sanjay Sisodiya, neurologista da University College London e um dos pesquisadores que investigam os efeitos das mudanças climáticas sobre o cérebro, afirma que diversas doenças neurológicas se agravam com o aumento da temperatura e da umidade.
Entre elas estão epilepsia, acidente vascular cerebral (AVC), esclerose múltipla, encefalite, enxaqueca e demências. Estudos recentes mostram que, durante ondas de calor severas na Europa, cerca de 7% das mortes em excesso estavam associadas a causas neurológicas — proporção semelhante à registrada no Reino Unido em 2022.
Por que o calor afeta tanto o cérebro?
O cérebro é um dos órgãos mais sensíveis à temperatura. Apesar de raramente ultrapassar 1°C acima da temperatura corporal média, ele consome muita energia e gera calor constantemente. Para manter o equilíbrio, o organismo depende de um sistema delicado de circulação sanguínea que dissipa esse excesso térmico.
Quando esse mecanismo falha, as células cerebrais podem sofrer. A comunicação entre neurônios depende de reações químicas e elétricas altamente sensíveis à temperatura. Em ambientes muito quentes, essas interações perdem eficiência.
“É como um relógio em que as engrenagens deixam de funcionar em sincronia”, explica Sisodiya. O resultado pode ser dificuldade de concentração, piora na tomada de decisões, aumento da impulsividade e maior irritabilidade.
Pessoas com doenças neurológicas são ainda mais vulneráveis. Em alguns casos, o próprio cérebro tem dificuldade em regular a temperatura corporal. Em outros, medicamentos utilizados no tratamento de transtornos psiquiátricos e neurológicos interferem na sudorese e na termorregulação, elevando o risco de hipertermia e insolação.
Além disso, noites quentes prejudicam o sono, fator crítico para quem convive com epilepsia, por exemplo. A privação de descanso pode aumentar significativamente a frequência de crises convulsivas.
Calor e aumento de AVCs
O impacto do calor extremo também se reflete nos casos de AVC. Uma análise que avaliou dados de mortalidade em 25 países revelou que, a cada mil mortes por AVC, os dias mais quentes contribuíram para pelo menos duas mortes adicionais.
Pode parecer pouco, mas considerando que o AVC causa cerca de sete milhões de mortes por ano no mundo, o calor pode estar relacionado a mais de 10 mil óbitos anuais, segundo a geriatra Bethan Davies, do University Hospitals Sussex.
Países de baixa e média renda tendem a ser os mais afetados, tanto pela maior exposição às mudanças climáticas quanto pela menor capacidade de adaptação e resposta dos sistemas de saúde.
Impactos desde a gestação
O cérebro também é afetado antes mesmo do nascimento. Ondas de calor estão associadas a um aumento significativo de partos prematuros — condição ligada a maior risco de atraso no desenvolvimento neurológico e dificuldades cognitivas ao longo da vida.
Uma revisão científica recente apontou que períodos de calor extremo elevam em até 26% a chance de nascimento prematuro. Embora nem todas as gestantes sejam igualmente afetadas, os pesquisadores alertam que o risco tende a crescer à medida que o planeta esquenta.
Doenças infecciosas e calor
Outro fator preocupante é o enfraquecimento da barreira hematoencefálica — estrutura que protege o cérebro contra toxinas e microrganismos. O calor excessivo pode torná-la mais permeável, facilitando a entrada de vírus e bactérias no sistema nervoso.
Isso se soma à expansão de mosquitos transmissores de doenças como dengue, chikungunya e Zika, impulsionada por temperaturas mais altas e invernos mais amenos. O vírus Zika, por exemplo, pode causar microcefalia quando a infecção ocorre durante a gestação.
Comportamento, saúde mental e violência
Além das doenças neurológicas, o calor extremo tem sido associado a alterações de humor, aumento da agressividade, quadros depressivos e elevação das taxas de suicídio. Especialistas também apontam impactos na eficácia e estabilidade de medicamentos usados para tratar distúrbios neurológicos.
Nem todos reagem da mesma forma ao calor. Fatores genéticos podem influenciar essa sensibilidade, tornando algumas pessoas mais vulneráveis a danos neurológicos em ambientes extremos.
“Essas diferenças genéticas podem permanecer silenciosas até que a pressão ambiental seja suficiente para revelá-las”, afirma Sisodiya.
O que hoje é observado principalmente em pessoas com doenças neurológicas pode, no futuro, afetar populações mais amplas.
Com ondas de calor cada vez mais intensas, cientistas defendem a criação de estratégias para proteger os grupos mais vulneráveis — como sistemas de alerta precoce, adaptações no ambiente de trabalho e políticas de saúde pública focadas na prevenção.
Quando o secretário-geral da ONU, António Guterres, declarou em 2023 que o mundo havia entrado na “era da ebulição global”, o alerta era claro. As mudanças climáticas já estão entre nós — e seus efeitos sobre o cérebro humano apenas começaram a se manifestar.
*Da Agência Fonte Exclusiva
