Projeto ligado a Flávio Bolsonaro oferece criptomoedas por divulgação nas redes

Iniciativa B22 combina distribuição de tokens, promoção eleitoral e ações humanitárias em Uganda; especialistas questionam a legalidade do modelo.

Projeto B22 oferece tokens a usuários que divulgam conteúdos políticos nas redes sociais e levanta questionamentos sobre criptomoedas, ações humanitárias e regras eleitorais.

Imagem: Reprodução/Redes sociais

A distribuição de criptomoedas como incentivo para divulgar conteúdos políticos nas redes sociais colocou o projeto B22 sob questionamento durante a disputa presidencial de 2026. A iniciativa, lançada na terça-feira (6), oferece tokens a usuários que publicarem materiais relacionados à mobilização em favor do voto no candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL).

As informações foram divulgadas pela Folha de S.Paulo. Segundo a reportagem, o modelo combina divulgação digital, possibilidade de ganhos financeiros com a valorização dos ativos e ações humanitárias voltadas a crianças em Uganda.

A proposta levantou dúvidas sobre os limites entre a participação espontânea de apoiadores e o uso de incentivos financeiros para ampliar a circulação de propaganda eleitoral.

Divulgação de conteúdos pode render tokens

Para participar da iniciativa, os usuários são orientados a publicar conteúdos nas redes sociais que demonstrem sua participação na comunidade B22. Em troca, recebem tokens que podem adquirir valor financeiro, dependendo da evolução do mercado da criptomoeda.

O formato foi comparado pelo advogado eleitoral Hélio Silveira aos concursos promovidos pelo influenciador Pablo Marçal durante sua campanha política, nos quais participantes recebiam recompensas pela publicação de vídeos relacionados à candidatura.

“Trata-se da mesma lógica e estrutura do que Marçal fazia”, afirmou Silveira, conforme a Folha. Na avaliação do advogado, o oferecimento de benefícios financeiros para estimular a divulgação de conteúdos eleitorais exige análise à luz da legislação.

O caso de Marçal é citado como precedente no debate. Em dezembro de 2025, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) manteve sua inelegibilidade por oito anos, em processo relacionado a abuso de poder econômico.

Vídeo com crianças em Uganda amplia repercussão

O projeto também ganhou visibilidade por meio do perfil HypersKids Africa, que reúne 12,9 milhões de seguidores no Instagram e divulga iniciativas de arrecadação destinadas a crianças em Uganda.

Uma publicação do perfil mostra crianças cantando uma música que incentiva o voto no número 22, associado a Flávio Bolsonaro. Segundo a reportagem, o vídeo alcançou 1,2 milhão de visualizações.

A presença de conteúdo político em um perfil conhecido por divulgar ações humanitárias ampliou o debate sobre a combinação entre campanhas de arrecadação, mobilização nas redes e promoção de candidaturas.

A divulgação do vídeo, por si só, não esclarece quem coordenou a publicação nem se houve vínculo formal com a campanha eleitoral do candidato.

Especialistas questionam possível irregularidade eleitoral

A iniciativa também foi criticada pela pesquisadora Nina Santos, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital. Conforme a Folha, ela classificou a operação como um “esquema extremamente complexo e ilegal”, apontando a combinação de criptomoedas, ações humanitárias, redes sociais e promoção política.

As avaliações de especialistas levantam questões sobre a possibilidade de incentivos econômicos serem utilizados para ampliar artificialmente o alcance de mensagens eleitorais.

A análise jurídica, contudo, depende das características concretas da operação, incluindo a forma de distribuição dos tokens, a finalidade dos conteúdos, a existência de coordenação com a campanha e a eventual participação de candidatos ou partidos.

B22 afirma destinar parte da receita a projetos sociais

Em sua apresentação pública, o B22 informa que pretende destinar parte da receita obtida com a venda da criptomoeda a projetos de assistência infantil em Uganda. Entre os objetivos divulgados está a conclusão de uma casa em Kampala, capital do país.

O projeto se apresenta como uma mobilização que reúne apoio eleitoral e ações humanitárias. Ao mesmo tempo, afirma que a distribuição dos tokens ocorre de maneira independente do voto, da preferência política ou da divulgação de propaganda eleitoral.

A plataforma também declara não manter vínculo oficial com políticos, partidos ou campanhas. Essas afirmações são posicionamentos divulgados pelo próprio projeto e não esclarecem, isoladamente, como a iniciativa funciona na prática.

Campanha de Flávio Bolsonaro foi procurada

De acordo com a Folha de S.Paulo, a campanha de Flávio Bolsonaro foi procurada para comentar a iniciativa e informou que responderia aos questionamentos. O jornal também enviou mensagens ao contato eletrônico indicado no site do projeto e aos perfis de Kevim Flores, que divulga o B22 nas redes sociais.

Até a publicação das informações citadas, não havia esclarecimento público conclusivo sobre uma eventual relação oficial entre a plataforma e a campanha do candidato.

O caso coloca em discussão a aplicação das regras eleitorais a iniciativas que utilizam ativos digitais para estimular a produção e a circulação de conteúdos políticos. A eventual existência de infrações dependerá da apuração dos fatos e da análise das autoridades competentes.

*Da Agência Fonte Exclusiva.

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