Plataformas digitais mantiveram anúncios político-eleitorais e recomendaram conteúdos de candidatos durante o período de restrição estabelecido para o primeiro turno das Eleições 2026, segundo levantamento do Observatório das Big Techs, do NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
O estudo identificou ocorrências nas plataformas da Meta, no Kwai e na infraestrutura de publicidade do Google. O monitoramento também encontrou vídeos de candidatos sendo recomendados pelo TikTok e pelo YouTube nos dias 3 e 4 de outubro.
As empresas citadas apresentaram posicionamentos sobre o levantamento. Meta, Kwai e TikTok afirmaram atuar para cumprir a legislação eleitoral, enquanto o Google declarou que proíbe anúncios políticos no Brasil desde 2024 e que apenas um anúncio foi identificado pelo estudo.
Propaganda paga tem restrições no período eleitoral
As regras eleitorais estabelecem restrições específicas à circulação paga ou impulsionada de propaganda eleitoral na internet no período que envolve o dia da votação.
Também existem normas para os sistemas de recomendação das plataformas. Perfis e canais oficiais de candidatos informados à Justiça Eleitoral devem ser excluídos desses mecanismos, observadas as exceções previstas na legislação.
Foi justamente o cumprimento dessas regras que o NetLab buscou avaliar.
O monitoramento combinou buscas manuais e computacionais, consultas às bibliotecas de anúncios disponibilizadas pelas empresas e acesso aos dados fornecidos por suas ferramentas de programação.
Meta teve 568 anúncios identificados
O maior volume apontado pelo levantamento apareceu nas plataformas da Meta.
Segundo o NetLab, foram encontrados 568 anúncios que teriam circulado irregularmente durante o período analisado. A Meta reúne serviços como Facebook, Instagram, Messenger e Audience Network.
O estudo encontrou ainda seis anúncios que imitavam comunicações da Justiça Eleitoral e anunciavam uma falsa possibilidade de votar pelo celular ou de casa.
Algumas dessas peças mencionavam dificuldades de locomoção, problemas de saúde ou chuvas fortes para tentar convencer usuários a utilizar o suposto serviço. Em determinados casos, as pessoas eram direcionadas a páginas que solicitavam o CPF para iniciar a falsa votação.
Não existe modalidade de votação remota pela internet ou pelo celular nas eleições brasileiras.
Kwai teve anúncios ativos no domingo
No Kwai, os pesquisadores identificaram 18 anúncios eleitorais ativos no próprio dia da votação.
Outros quatro apareciam como “em pausa” no repositório da plataforma. Segundo o levantamento, três deles teriam circulado durante o período de restrição.
O NetLab também encontrou 45 anúncios cuja data final de circulação aparecia estendida até domingo (4), vinculados a dez páginas de candidaturas. O próprio laboratório, porém, fez uma ressalva: divergências entre os dados exportados e aqueles apresentados na biblioteca de anúncios do Kwai impediram uma confirmação integral dessa parte do levantamento.
Google teve um anúncio identificado
No caso do Google, o levantamento encontrou um anúncio que já havia sido identificado em 3 de outubro e que permanecia ativo na infraestrutura publicitária da empresa.
O Google informou que sua política proíbe anúncios políticos no Brasil desde 2024 e afirmou que atua imediatamente quando identifica violações. A empresa interpretou o fato de apenas um anúncio ter sido localizado como evidência da eficácia de seus mecanismos de prevenção.
TikTok e YouTube recomendaram vídeos de candidatos
A pesquisa também analisou o funcionamento dos sistemas de recomendação.
Entre os dias 3 e 4 de outubro, o NetLab registrou 18 vídeos de sete candidatos sendo recomendados pelo TikTok. No YouTube, foram encontrados 17 vídeos de seis candidatos apresentados pelo sistema de recomendação.
No Instagram, o monitoramento não encontrou recomendações de vídeos publicados por candidatos durante o período analisado.
O NetLab já havia apontado problemas semelhantes no TikTok durante a campanha. Em um estudo anterior, pesquisadores registraram 24 recomendações de conteúdos publicados por 11 contas de candidatos entre 14 e 16 de setembro. O próprio laboratório ressaltou que aquela amostra representava as condições específicas dos testes e não permitia descrever de forma exaustiva o funcionamento do algoritmo da plataforma.
Estudo aponta dificuldades de fiscalização
Além dos conteúdos encontrados, os pesquisadores chamaram atenção para problemas de transparência nas ferramentas oferecidas pelas plataformas.
Na Meta, o NetLab identificou diferenças entre informações apresentadas na interface pública da Biblioteca de Anúncios e os dados obtidos por meio da API da empresa. Algumas peças apareciam como inativas em uma ferramenta e como ativas em outra.
Divergências também foram observadas no Kwai. Segundo o levantamento, as limitações dificultam a verificação independente da circulação da publicidade eleitoral.
O que dizem as plataformas
A Meta afirmou à Agência Brasil que está comprometida com a proteção do processo eleitoral e que atua em conformidade com a legislação. A empresa também declarou que a amostragem analisada não representa a dimensão de seu trabalho de integridade.
O Kwai informou que aguardava acesso aos conteúdos apontados para avaliá-los e disse ter mantido uma operação especial durante o período eleitoral, com equipes dedicadas à moderação.
O TikTok declarou trabalhar em parceria com o TSE e informou ter removido 348.963 vídeos no Brasil, entre junho e setembro, por violações relacionadas às suas políticas de integridade cívica e eleitoral, desinformação e conteúdos enganosos produzidos por inteligência artificial.
Já o Google ressaltou sua proibição de publicidade política no país e afirmou que adota medidas quando identifica violações.
Os dados apresentados são resultados de um levantamento independente do NetLab/UFRJ. A eventual caracterização jurídica de cada ocorrência e a aplicação de sanções cabem às autoridades competentes, não ao estudo.
Da Agência Fonte Exclusiva.
