O governo dos Estados Unidos determinou o encerramento das atividades da Network for Hope, organização sem fins lucrativos responsável pela coordenação da captação de órgãos para transplantes no estado de Kentucky.
A decisão ocorreu após uma investigação federal identificar falhas em procedimentos de doação, incluindo situações nas quais pacientes apresentaram sinais de atividade cerebral antes do início de tentativas de retirada de órgãos.
Um dos casos analisados pelas autoridades envolve Anthony Thomas “TJ” Hoover II, morador do Kentucky que sofreu uma overdose em outubro de 2021. Na ocasião, ele foi declarado em morte encefálica por um hospital e, posteriormente, sua família autorizou a doação dos órgãos.
Entretanto, quando Hoover foi encaminhado ao centro cirúrgico, familiares e profissionais envolvidos no procedimento perceberam comportamentos que levantaram dúvidas sobre sua condição clínica. Segundo relatos, o paciente abriu os olhos e aparentemente acompanhou pessoas e movimentos ao redor com o olhar.
Inicialmente, os sinais teriam sido interpretados como reflexos involuntários. Uma ex-funcionária da organização que antecedeu a Network for Hope relatou que Hoover também apresentou outros movimentos durante o episódio. Conforme o depoimento, dois médicos teriam se recusado a continuar com a retirada dos órgãos diante dos sinais observados.
Ainda segundo o relato, integrantes responsáveis pela supervisão teriam procurado outro profissional disposto a realizar o procedimento. A retirada dos órgãos, contudo, acabou não sendo concluída.
Investigação analisou centenas de procedimentos
As dúvidas provocadas pelo caso levaram as autoridades americanas a ampliar a investigação para outros procedimentos realizados entre 2021 e 2024.
Ao todo, foram analisadas 351 tentativas de captação de órgãos que não chegaram a ser concluídas. De acordo com os resultados divulgados pelas autoridades, mais de um terço dos casos apresentava algum fator considerado preocupante.
O levantamento apontou que 73 pacientes apresentavam sinais de função cerebral. Em pelo menos 28 situações, os investigadores identificaram a possibilidade de que os pacientes ainda não estivessem mortos no momento em que os procedimentos de captação foram iniciados.
As conclusões da investigação provocaram medidas contra a organização responsável pela coordenação dos transplantes em Kentucky e levantaram novos questionamentos sobre os protocolos utilizados para confirmar a morte encefálica antes da autorização para retirada de órgãos.
Caso reacende debate sobre segurança dos transplantes
A situação envolvendo Hoover ganhou grande repercussão nos Estados Unidos porque o paciente sobreviveu ao episódio, apesar de ter sido declarado morto para fins de doação de órgãos.
O caso passou a ser citado nas discussões sobre a necessidade de protocolos rigorosos para a confirmação da morte encefálica e de avaliações clínicas cuidadosas antes de qualquer procedimento de captação.
A investigação também chama atenção para a importância da comunicação entre equipes médicas, familiares e organizações responsáveis pela doação de órgãos. A identificação de sinais clínicos incompatíveis com a morte encefálica pode exigir a interrupção imediata dos procedimentos e uma nova avaliação médica.
O episódio envolvendo Hoover e os demais casos analisados pelas autoridades americanas colocaram em evidência a necessidade de mecanismos de fiscalização capazes de garantir que os critérios médicos e legais para a declaração de morte sejam rigorosamente cumpridos antes da retirada de órgãos para transplante.
*Da Agência Fonte Exclusiva.
