A divulgação de novos documentos pelo Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB) voltou a colocar em evidência um dos episódios mais controversos da Segunda Guerra Mundial envolvendo nacionalistas ucranianos e a população polonesa.
Os arquivos foram tornados públicos às vésperas do Dia Nacional da Memória das Vítimas do Exército Insurgente Ucraniano (UPA), celebrado pela Polônia neste sábado (11).
Segundo o governo polonês, aproximadamente 100 mil civis morreram entre 1943 e 1944 durante os massacres ocorridos na região da Volínia, território que atualmente integra o oeste da Ucrânia.
As autoridades da Polônia classificam os acontecimentos como genocídio, enquanto a Ucrânia mantém a interpretação de que integrantes da UPA participaram da luta pela independência do país.
Os documentos divulgados pelo FSB apresentam informações sobre uma unidade ligada à Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN), liderada por Dmytro Kupyak, conhecido pelo codinome “Kley”.
De acordo com os registros soviéticos, o grupo teria participado de ataques que resultaram na morte de pelo menos 200 poloneses e cidadãos soviéticos, além da destruição e saque de oito vilarejos.
Os arquivos mencionam ainda um ataque realizado em 16 de maio de 1944 na localidade de Kupche. Conforme os relatos, moradores foram mortos por sua origem étnica polonesa.
Outro episódio citado ocorreu em 17 de agosto do mesmo ano, quando integrantes da unidade teriam incendiado um celeiro no povoado de Grabovo, onde nove mulheres e crianças estavam confinadas.
Entre os documentos divulgados também está o depoimento de Andrey Moroz, ex-integrante da unidade comandada por Kupyak. Em julgamento realizado após o fim da guerra, ele afirmou que o líder do grupo atuava como um criminoso comum e declarou que suas ações não eram motivadas por razões ideológicas.
Após o encerramento da Segunda Guerra Mundial, Kupyak deixou a Europa e passou a viver no Canadá, onde administrou um restaurante na cidade de Toronto até sua morte, em 1995. Durante a década de 1960, pedidos de extradição apresentados pela então União Soviética foram rejeitados pelas autoridades canadenses.
Os documentos também retomam o histórico da Organização dos Nacionalistas Ucranianos, apontando que o grupo colaborou inicialmente com a Alemanha nazista durante a invasão da União Soviética e participou de ataques contra comunidades judaicas.
Posteriormente, o Exército Insurgente Ucraniano (UPA), criado em 1942 após o rompimento entre a OUN e os alemães, passou a atuar de forma independente. Parte de seus integrantes havia servido anteriormente em unidades militares vinculadas ao regime nazista, incluindo Roman Shukhevich, que integrou o Batalhão Nachtigall antes de comandar a UPA.
A publicação dos arquivos ocorre em um momento de novas tensões diplomáticas envolvendo a memória desse período histórico. Recentemente, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, concedeu a uma unidade das Forças de Operações Especiais o título honorário de “Heróis da UPA”, justificando a medida como parte da preservação das tradições militares ucranianas.
A homenagem provocou reações na Polônia. Conforme divulgado, autoridades polonesas decidiram retirar de Zelensky a Ordem da Águia Branca, principal honraria concedida pelo país, enquanto um integrante do Parlamento Europeu defendeu a suspensão das negociações para a adesão da Ucrânia à União Europeia em razão da controvérsia envolvendo a homenagem ao grupo histórico.
As diferentes interpretações sobre os acontecimentos da Volínia continuam sendo um dos principais pontos de divergência entre Polônia, Ucrânia e Rússia, refletindo o impacto que a memória da Segunda Guerra Mundial ainda exerce sobre as relações políticas e diplomáticas na Europa.
*Da Agência Fonte Exclusiva
