O comércio entre Brasil e Estados Unidos poderá enfrentar um novo período de turbulência a partir desta quarta-feira (15). O governo de Donald Trump deve anunciar se aplicará uma tarifa adicional de 25% sobre milhares de produtos brasileiros, após meses de negociações sem acordo entre os dois países.
A medida é resultado de uma investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR.
O procedimento foi aberto em julho de 2025 com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana, utilizada para examinar práticas consideradas discriminatórias ou prejudiciais às empresas dos Estados Unidos.
A proposta poderá atingir mais de 4 mil produtos e afetar aproximadamente US$ 15 bilhões em vendas anuais do Brasil ao mercado norte-americano. Entre os segmentos expostos estão açúcar, ferro-gusa, etanol, tabaco, madeira e diferentes insumos industriais.
Alguns dos principais itens da pauta exportadora brasileira, como carne bovina, café, terras raras e componentes aeronáuticos, deverão permanecer fora da nova cobrança. A relação definitiva, entretanto, dependerá da decisão formal de Washington e ainda poderá sofrer alterações.
O governo norte-americano poderá confirmar a tarifa integralmente, reduzir o número de produtos atingidos, criar novas exceções ou adiar a entrada em vigor. Até a véspera da decisão, autoridades brasileiras afirmavam não ter recebido informações antecipadas sobre o conteúdo do anúncio.
Pix e etanol estão entre os pontos questionados
A investigação do USTR reúne críticas a diferentes políticas brasileiras. Entre os temas analisados estão o funcionamento do Pix, as tarifas aplicadas ao etanol norte-americano, as regras para plataformas digitais, a proteção da propriedade intelectual e as políticas relacionadas ao desmatamento ilegal.
Washington argumenta que determinadas práticas brasileiras dificultam a atuação de empresas dos Estados Unidos ou criam condições comerciais consideradas desfavoráveis.
No caso do Pix, autoridades norte-americanas sustentam que a expansão do sistema público de pagamentos instantâneos teria prejudicado empresas privadas ligadas a cartões e outros serviços financeiros.
O governo brasileiro rejeita essa interpretação. Brasília afirma que o Pix não discrimina empresas estrangeiras e que instituições de outros países podem participar do sistema desde que estejam autorizadas a operar no Brasil e cumpram as regras do Banco Central.
A discussão sobre o etanol envolve as condições de entrada do produto norte-americano no mercado brasileiro. Os Estados Unidos defendem uma redução tarifária exclusiva, enquanto o governo brasileiro argumenta que não pode conceder unilateralmente um tratamento diferenciado sem observar as normas do Mercosul.
Representantes brasileiros afirmam que foram realizadas dezenas de reuniões para tentar construir uma solução. Segundo fontes ouvidas pela Reuters, algumas exigências norte-americanas não poderiam ser atendidas por dependerem de alterações legais ou de decisões conjuntas dos países do bloco sul-americano.
O Brasil também contesta o uso de questões ambientais e regulatórias para justificar uma taxação ampla sobre setores que não possuem relação direta com os assuntos investigados.
Brasília considera o procedimento unilateral e sustenta que eventuais divergências comerciais deveriam ser discutidas por meio de negociações bilaterais ou das regras da Organização Mundial do Comércio.
Sobretaxa pode reduzir competitividade
Caso seja aplicada, a tarifa será cobrada dos importadores norte-americanos no momento da entrada das mercadorias. O custo, porém, poderá ser compartilhado com os exportadores brasileiros por meio da renegociação de contratos, da redução dos preços pagos pelos produtos ou da diminuição das encomendas.
Empresas que dependem fortemente dos Estados Unidos poderão enfrentar maior dificuldade para manter sua participação naquele mercado. Produtos brasileiros se tornarão mais caros em comparação com mercadorias fabricadas por concorrentes de países não atingidos pela mesma cobrança.
A Confederação Nacional da Indústria avalia que a medida prejudicará companhias dos dois países. Diversas empresas norte-americanas utilizam matérias-primas brasileiras, como ferro-gusa, madeira, açúcar e insumos industriais, em suas próprias cadeias produtivas.
O aumento dos custos poderá alcançar fábricas e consumidores nos Estados Unidos, especialmente quando não existirem fornecedores internos capazes de substituir rapidamente os produtos brasileiros.
O impacto para o Brasil dependerá da abrangência da lista, do prazo de entrada em vigor e da capacidade dos setores atingidos de redirecionar as mercadorias para outros mercados.
Nos últimos meses, empresas brasileiras intensificaram a procura por compradores na Ásia, na Europa, na América Latina e no Oriente Médio. A participação dos Estados Unidos no comércio exterior brasileiro caiu de 12,1% no primeiro semestre de 2025 para 9,7% no mesmo período de 2026, o menor nível da série iniciada em 1997.
Outra investigação poderá acrescentar 12,5%
Além da possível tarifa de 25%, o Brasil está incluído em uma investigação separada do USTR sobre o combate ao trabalho forçado nas cadeias internacionais de produção.
Nesse procedimento, os Estados Unidos avaliam aplicar uma cobrança adicional de até 12,5% sobre produtos originários de dezenas de economias acusadas de não adotar controles suficientes contra mercadorias fabricadas em condições ilegais.
A conclusão dessa segunda investigação está prevista para 24 de julho, e não para esta quarta-feira. Caso as duas medidas sejam aplicadas sobre os mesmos produtos, a carga tarifária adicional poderá alcançar 37,5%.
O governo brasileiro também rejeita as acusações relacionadas ao trabalho forçado. Brasília argumenta que o país possui legislação, órgãos de fiscalização e mecanismos destinados a identificar e combater condições degradantes de trabalho.
As duas investigações possuem fundamentos distintos. Por isso, a confirmação da tarifa de 25% não determina automaticamente a aplicação dos outros 12,5%.
A sobreposição dependerá das decisões finais do USTR, da relação de produtos incluídos e das condições estabelecidas para cada cobrança.
Governo avalia crédito e reciprocidade
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo poderá editar uma nova medida provisória para apoiar empresas atingidas, caso as tarifas sejam confirmadas.
A resposta deverá ser definida depois da análise dos setores afetados e do tamanho dos prejuízos. Entre as alternativas avaliadas estão linhas especiais de crédito, garantias para exportadores, medidas tributárias e incentivos à abertura de novos mercados.
O governo também considera retomar o processo de aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica. A legislação permite ao Brasil responder a barreiras unilaterais que prejudiquem produtos e interesses nacionais.
As possíveis contramedidas incluem a suspensão de concessões comerciais, a elevação de tarifas sobre mercadorias norte-americanas e alterações em obrigações relacionadas a investimentos e direitos de propriedade intelectual.
A reação não seria automática. A legislação exige avaliação técnica, proporcionalidade e análise dos efeitos sobre empresas, cadeias produtivas e consumidores brasileiros.
Apesar da preparação de mecanismos de defesa, Brasília afirma que a negociação continuará sendo a opção prioritária. Brasil e Estados Unidos mantêm uma relação econômica relevante, com comércio de produtos agrícolas, combustíveis, máquinas, medicamentos, aeronaves e equipamentos tecnológicos.
Uma sequência de tarifas e retaliações poderá prejudicar companhias dos dois lados, elevar o custo de matérias-primas e comprometer cadeias de produção integradas.
A decisão norte-americana mostrará se Washington pretende manter espaço para novas negociações ou aprofundar a pressão comercial sobre o Brasil. Caso a tarifa seja confirmada, o governo brasileiro terá de conciliar a proteção aos exportadores com a tentativa de evitar uma disputa prolongada entre as duas maiores economias das Américas.
*Da Agência Fonte Exclusiva
