O aumento do preço do trigo começa a pressionar moinhos e padarias e pode chegar ao bolso do consumidor nos próximos meses. Apesar da elevação dos custos, os dois setores vêm absorvendo parte do impacto para evitar reajustes mais fortes, especialmente no pão francês, um dos produtos mais sensíveis a aumentos de preço.
Segundo representantes da indústria, o trigo acumula alta estimada entre 12% e 15% neste ano. Nos moinhos, parte dessa diferença já foi incorporada ao preço da farinha, mas o repasse não foi suficiente para recompor totalmente as margens. Algumas empresas têm inclusive reduzido o volume de moagem para evitar vendas com rentabilidade muito baixa.
A dificuldade ocorre justamente em um período de transição entre safras. A área destinada ao trigo no Brasil vem diminuindo, enquanto as condições climáticas aumentam as dúvidas sobre o volume e, principalmente, sobre a qualidade do cereal que será colhido.
Para os moinhos, esse último ponto é decisivo. Diferentes produtos exigem tipos específicos de trigo, com características próprias de proteína e força da farinha. Assim, ter cereal disponível no mercado não significa necessariamente encontrar matéria-prima adequada para todos os usos da indústria.
O cenário também deixa as empresas mais cautelosas na formação de estoques. Parte dos moinhos trabalha atualmente com volumes suficientes apenas para as próximas semanas e prefere esperar uma definição mais clara da nova safra antes de fechar contratos de prazo mais longo. A preocupação com custos elevados e menor disponibilidade já vinha sendo discutida pela cadeia produtiva ao longo de 2026.
Na outra ponta, as padarias enfrentam o mesmo dilema: absorver parte da alta ou repassá-la integralmente para o consumidor. A farinha representa uma parcela importante dos custos do setor, mas elevar demais o preço do pão francês pode reduzir as vendas.
De acordo com Alex Martins, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria, a tendência é que o reajuste do pão francês fique limitado a aproximadamente 4%. A estratégia é evitar uma reação mais forte do consumidor, já que o produto tem grande peso no movimento diário das padarias.
Isso não significa, porém, que todo o impacto ficará contido. Produtos como croissants, pizzas, sanduíches e outros itens de maior valor agregado podem receber uma parcela maior dos aumentos. Como possuem outros ingredientes e costumam ter preços mais elevados, as empresas encontram maior espaço para recompor custos nesses produtos.
O pão francês tende a ser mais protegido porque funciona como um produto de entrada. Além de ser consumido diariamente por muitas famílias, ele leva clientes às padarias e ajuda a impulsionar a venda de outros itens. Por isso, um reajuste muito elevado pode afetar não apenas a venda do pão, mas todo o faturamento do estabelecimento.
A dificuldade em repassar custos, entretanto, vem reduzindo as margens do setor. Para os empresários da panificação, o desafio é encontrar um equilíbrio entre manter o preço competitivo e preservar a rentabilidade em um período de matérias-primas mais caras.
O comportamento dos preços nos próximos meses dependerá principalmente da nova safra brasileira, da qualidade do trigo disponível e das condições das importações. O Brasil também depende do cereal vindo da Argentina para complementar a oferta interna, o que torna o mercado doméstico sensível a mudanças na produção e nos preços externos.
Por enquanto, a expectativa é de reajustes moderados no pão francês e aumentos mais perceptíveis em outros produtos que utilizam farinha. Se os custos do trigo continuarem elevados, porém, moinhos e padarias terão menos espaço para absorver novas altas sem repassá-las ao consumidor.
*Da Agência Fonte Exclusiva.
