O que acontece com o litoral de São João da Barra será investigado de forma mais detalhada ao longo dos próximos 18 meses. O município iniciou um estudo técnico para entender os fatores que contribuem para a erosão costeira e avaliar possíveis soluções para áreas afetadas pelo avanço do mar, principalmente em Atafona e Açu.
O trabalho começou nesta terça-feira (6) e terá investimento de R$ 5,6 milhões. A contratação foi feita pela Prefeitura de São João da Barra, por meio de licitação, junto à SEACaruso, subsidiária do Grupo Caruso.
A equipe responsável reúne especialistas de 29 áreas diferentes. A proposta é cruzar informações sobre ondas, correntes marítimas, marés e movimentação de sedimentos para construir um diagnóstico detalhado das condições do litoral.
Levantamentos começam pela costa
As primeiras atividades de campo já estão sendo realizadas na região. Os profissionais começaram a coletar dados sobre o nível da água e as correntes do rio Paraíba do Sul, além de informações relacionadas às ondas, às correntes do oceano e aos sedimentos encontrados na faixa costeira.
De acordo com Francisco Caruso Jr., geocientista e CEO do Grupo Caruso, o trabalho será desenvolvido em diferentes etapas. Entre os próximos procedimentos estão os perfis de praia, que precisam ser realizados em condições específicas de maré para garantir a qualidade das medições.
Também estão previstos levantamentos oceanográficos para registrar dados de marés, ondas e correntes. Essas informações serão utilizadas posteriormente na criação de modelos que permitam reproduzir o comportamento dos principais elementos que interferem na dinâmica da costa.
Atafona concentra impactos históricos
Atafona é uma das áreas que mais convivem com os efeitos da erosão no município. O fenômeno ocorre há décadas, especialmente nas proximidades da foz do rio Paraíba do Sul.
Monitoramentos realizados pela Universidade Federal Fluminense (UFF) indicam que mais de 500 casas e um prédio foram atingidos ou destruídos pela ação do mar desde a década de 1950.
Os impactos, porém, não são iguais em todos os pontos do litoral de São João da Barra. Enquanto algumas áreas apresentam perda de faixa de areia, outras registram deposição de sedimentos e avanço da praia.
Até 2019, estudos anteriores apontavam perdas e danos equivalentes a cerca de sete quarteirões na região costeira de Atafona.
Moradores convivem com perdas
A transformação da costa também afetou diretamente famílias que vivem e trabalham próximas ao mar.
Uma das pessoas que acompanhou essas mudanças é Lúcia Helena, de 58 anos, marisqueira e moradora de Atafona há mais de 40 anos. Em 2021, ela perdeu a própria casa por causa do avanço do mar.
Além da residência, Lúcia também deixou de utilizar o espaço onde realizava atividades relacionadas à limpeza de peixes e camarões. Com a perda do imóvel, objetos pessoais e parte da estrutura usada para garantir sua renda também foram destruídos.
Depois de deixar a casa, a moradora passou a receber aluguel social. Outros moradores da região também tiveram que lidar com perdas provocadas pela erosão.
População será entrevistada
O estudo não ficará restrito aos levantamentos feitos pelos especialistas. A população de Atafona e Açu também será ouvida durante o processo.
A partir da próxima terça-feira (13), módulos de atendimento serão instalados nos dois distritos. Os espaços servirão para orientar os moradores, esclarecer dúvidas e reunir relatos sobre as mudanças percebidas ao longo dos anos.
A previsão é entrevistar pelo menos 211 pessoas. Os questionários deverão abordar a percepção dos moradores sobre a transformação da costa e os efeitos da erosão sobre atividades como pesca, navegação, turismo e lazer.
As informações fornecidas pela comunidade serão incorporadas ao diagnóstico final, permitindo que o estudo reúna tanto dados científicos quanto a experiência de quem acompanha diariamente as mudanças no litoral.
Modelos vão avaliar possíveis soluções
Após a conclusão dos trabalhos de campo, os dados serão reunidos e utilizados na elaboração de modelos matemáticos.
Com essas ferramentas, os pesquisadores poderão simular diferentes comportamentos de ondas, correntes e sedimentos e avaliar como determinados cenários poderiam interferir na costa de São João da Barra.
Entre as alternativas que poderão ser analisadas estão a reposição artificial de areia, recuperação de praias e dunas e instalação de estruturas destinadas à proteção costeira.
Nenhuma dessas intervenções está definida neste momento. A escolha de possíveis medidas dependerá dos resultados obtidos ao longo do estudo e das características de cada trecho analisado.
Pesquisa terá duração de 18 meses
O EVTEA, sigla para Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental, deverá reunir informações ambientais, técnicas, econômicas e sociais sobre a erosão costeira.
A previsão é que o trabalho seja concluído após 18 meses. Ao final, o município deverá contar com um diagnóstico mais detalhado sobre o comportamento do litoral e os fatores relacionados ao avanço do mar.
O material também poderá servir de base para futuros projetos de intervenção e para a busca de recursos destinados a obras de proteção costeira.
A expectativa é que o levantamento ajude a identificar medidas adequadas para cada área, levando em consideração as diferenças existentes entre Atafona, Açu e outros pontos do litoral de São João da Barra.
*Da Agência Fonte Exclusiva.
