Em um país onde enchentes, enxurradas, secas e outros eventos relacionados à água atingem praticamente todo o território, Macaé, no Norte Fluminense, chama atenção por uma experiência que atravessou diferentes governos: os investimentos em macrodrenagem.
Um estudo com participação de pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) mostrou que 5.097 dos 5.570 municípios brasileiros — mais de 91% — registraram pelo menos um desastre relacionado à água entre 1991 e 2024. No período, cerca de 129,8 milhões de brasileiros foram diretamente afetados e os prejuízos econômicos superaram R$ 740 bilhões.
É nesse cenário que a experiência de Macaé ganha relevância. A cidade, que durante décadas conviveu com áreas frequentemente tomadas pela água nos períodos de chuva forte, construiu uma ampla rede de galerias, canais e sistemas de bombeamento para acelerar o escoamento das águas pluviais.
Embora as discussões sobre os problemas de drenagem da cidade sejam antigas, os registros oficiais encontrados pela reportagem indicam que os estudos que deram origem ao atual modelo começaram em 2006.
Dois anos depois, durante o governo de Riverton Mussi, foi lançado o Programa Água Limpa, que reuniu obras de macrodrenagem e saneamento básico. O investimento previsto naquela época chegava a R$ 277 milhões, com recursos do próprio município.
As primeiras grandes intervenções foram direcionadas a áreas historicamente afetadas pelos alagamentos, entre elas Sol y Mar, Riviera, Campo do Oeste e Visconde de Araújo.
O projeto envolveu o alargamento e reconstrução de canais, instalação de galerias de grande porte e ampliação da capacidade de bombeamento. Na Avenida Evaldo Costa, por exemplo, foram implantados cerca de 1,5 mil metros de galerias com seis metros de largura e dois metros de altura.
Obras atravessaram diferentes administrações
Nos anos seguintes, as ações de drenagem continuaram fazendo parte da agenda municipal, embora em ritmos e formatos diferentes.
Durante o governo de Aluízio dos Santos Júnior, por exemplo, a prefeitura realizou operações de limpeza e microdrenagem da rede de águas pluviais, especialmente em pontos do Centro. Em outubro de 2013, uma força-tarefa foi montada para limpar galerias e melhorar o escoamento antes dos períodos de chuva mais intensa.
Já na gestão de Welberth Rezende, o programa voltou a receber grandes intervenções de macrodrenagem. Em 2023, o próprio prefeito informou que o projeto havia passado por um período de paralisação e estava sendo retomado em diferentes bacias hidrográficas.
Por isso, tecnicamente, é mais correto dizer que a política de drenagem atravessou diferentes administrações, com períodos de construção, manutenção, paralisação e retomada, do que afirmar que as obras permaneceram ininterruptas durante todos esses anos.
Bombas gigantes chegaram do México
Uma das principais mudanças recentes ocorreu na Elevatória Dr. Télio Barreto, estrutura estratégica para retirar a água acumulada em regiões mais baixas e direcioná-la para o Rio Macaé.
Duas grandes bombas adquiridas no México começaram a chegar à cidade no fim de 2022. A instalação exigiu novas linhas de recalque e modificações na estrutura existente.
Em julho de 2024, a prefeitura entregou mais duas unidades, completando um sistema com quatro novas bombas. A capacidade da elevatória passou a alcançar 22 mil litros de água por segundo.
O sistema atende uma ampla área da cidade, incluindo Riviera Fluminense, Novo Horizonte, Jardim Mariana, Campo do Oeste, Praia Campista, Sol y Mar, Visconde de Araújo, Centro e Imbetiba.
No fim de 2025, a prefeitura anunciou a conclusão de uma etapa estratégica das obras na Bacia da Linha Vermelha. Segundo os dados municipais, foram construídos aproximadamente cinco quilômetros de galerias e canais, quatro novas linhas de recalque, sistema de automação e um centro de controle de operações. A bacia atendida pelo projeto possui cerca de 5,17 milhões de metros quadrados e capacidade de acumulação superior a 45 milhões de litros de água da chuva.
Chuva forte colocou sistema à prova
Um episódio ocorrido em junho de 2026 ajudou a mostrar, na prática, a diferença entre impedir completamente um alagamento e reduzir seu tempo de duração.
No dia 16 daquele mês, Macaé registrou aproximadamente 85 milímetros de chuva em poucas horas, volume superior aos 50 milímetros que eram esperados para um período de 24 horas.
Algumas ruas do Centro chegaram a ficar alagadas. Segundo a prefeitura, porém, as bombas da Télio Barreto aceleraram a retirada da água e permitiram a liberação das vias. Na ocasião, não havia registro de moradores desabrigados ou desalojados.
O episódio também mostra que nenhuma obra de drenagem torna uma cidade imune a eventos extremos. Chuvas excepcionais, maré elevada, ressaca, ocupação de áreas vulneráveis, assoreamento e descarte irregular de lixo podem ultrapassar a capacidade projetada de qualquer sistema.
Ainda assim, a velocidade com que a água consegue deixar uma área urbana é decisiva para reduzir prejuízos.
Macrodrenagem não resolve todos os riscos
Macaé também enfrenta problemas que não podem ser resolvidos apenas com bombas e galerias.
Bairros próximos ao mar, como a Fronteira, estão sujeitos a ressacas e avanço das ondas. Regiões de encosta exigem políticas específicas de contenção, fiscalização da ocupação e monitoramento geológico.
A própria Defesa Civil continua alertando para possibilidade de alagamentos, enchentes e elevação dos rios durante períodos de chuva persistente. Em fevereiro deste ano, o órgão manteve equipes em monitoramento por causa da atuação da Zona de Convergência do Atlântico Sul.
O caso de Macaé coloca no centro do debate uma questão que ganhou urgência em todo o Brasil: cidades não podem começar a pensar em drenagem quando a água já entrou nas casas e no comércio.
O levantamento do Cemaden aponta justamente para um quadro de subinvestimento histórico em prevenção, sistemas de alerta e capacidade de resposta local.
Macaé ainda tem pontos vulneráveis e continua sujeita a eventos capazes de causar transtornos. Mas a estrutura construída ao longo dos anos mostra como uma política pública de infraestrutura pode produzir resultados quando projetos sobrevivem à troca de prefeitos, são atualizados e recebem novos investimentos.
Em tempos de extremos climáticos cada vez mais frequentes, talvez essa seja uma das principais lições deixadas pela cidade: drenagem urbana não deveria ser uma obra de um governo. Precisa ser uma política permanente.
*Da Agência Fonte Exclusiva