O avanço do El Niño em 2026 pode provocar impactos que vão muito além das mudanças no regime de chuvas e das temperaturas. Um novo estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) alerta que o fenômeno climático tem potencial para reduzir a renda, afetar empregos e piorar as condições de trabalho em diferentes países da América Latina e do Caribe, incluindo o Brasil.
A preocupação é maior com trabalhadores informais, rurais e profissionais que exercem atividades ao ar livre. Agricultura, construção civil, pesca, transportes, logística, geração de energia e serviços ligados ao combate a incêndios estão entre os segmentos sujeitos aos efeitos mais intensos.
Publicado no fim de julho, o estudo “El Niño 2026–2027 e o mundo do trabalho na América Latina e no Caribe” avalia como alterações nas chuvas, secas, enchentes e ondas de calor podem desencadear uma sequência de consequências econômicas e sociais, atingindo produção, preços, empregos, salários e segurança dos trabalhadores.
El Niño deve ganhar força
As projeções climáticas reforçam o alerta. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) informou que a probabilidade de manutenção das condições de El Niño até pelo menos novembro de 2026 está próxima ou acima de 90%. Os modelos apontam que o episódio pode atingir intensidade moderada a forte.
O levantamento da OIT, com base também em projeções do Centro Internacional para a Investigação do Fenômeno El Niño e do International Research Institute for Climate and Society, indica possibilidade de manutenção das condições quentes do Pacífico até o início de 2027. Segundo os modelos citados no documento, há probabilidade de 81% de um pico de intensidade classificado como muito forte entre outubro e dezembro de 2026.
No Brasil, efeitos devem variar entre as regiões
O impacto do El Niño não deverá ocorrer da mesma maneira em todo o território brasileiro.
Para o Sul do Brasil, o cenário destacado pela OIT é de chuvas acima da média, com aumento do risco de enchentes, tempestades e prejuízos associados à infraestrutura. Agricultura, transporte, logística e obras públicas aparecem entre os setores mais vulneráveis.
Inundações podem interromper rodovias, dificultar o transporte de mercadorias, danificar plantações e comprometer cadeias produtivas. Trabalhadores rurais, caminhoneiros, profissionais de logística e empregados envolvidos em obras e reparos de infraestrutura podem ser diretamente atingidos.
A situação prevista para o Nordeste brasileiro é diferente. O estudo aponta maior risco de seca, calor extremo, escassez de água e incêndios florestais. Pecuária, atividade florestal, agronegócio e geração hidrelétrica estão entre os segmentos expostos.
A eventual redução da produção agropecuária pode provocar perda de renda e aumento do desemprego rural. Ao mesmo tempo, temperaturas elevadas ampliam os riscos para quem trabalha diretamente sob o sol ou em atividades fisicamente exigentes.
Trabalho ao ar livre preocupa
Um dos principais pontos destacados pela OIT é o efeito do calor excessivo sobre a saúde e a produtividade.
Trabalhadores da agricultura, construção, pesca, coleta de resíduos e outras atividades realizadas ao ar livre estão entre os grupos mais vulneráveis. A exposição prolongada às altas temperaturas aumenta o risco de fadiga, acidentes, doenças relacionadas ao calor e queda de produtividade.
A vulnerabilidade é ainda maior na informalidade. Trabalhadores sem vínculo formal podem ter menor acesso a pausas regulamentadas, água, locais de descanso, sistemas de refrigeração, equipamentos adequados e mecanismos de proteção social.
No Brasil, as normas de segurança e saúde do trabalho estabelecem medidas para prevenir efeitos adversos decorrentes da exposição ocupacional ao calor. A NR-09 determina que as organizações avaliem o risco e adotem medidas de prevenção, enquanto a legislação prevê ações como disponibilização de água potável e programação das atividades mais pesadas para períodos com condições térmicas mais amenas.
Apesar da existência das normas, a alta informalidade representa um desafio adicional para que as medidas de proteção alcancem todos os trabalhadores expostos.
Produção de alimentos e renda sob pressão
Os efeitos do El Niño podem formar uma cadeia que começa no clima e chega diretamente ao orçamento das famílias.
Secas podem reduzir a disponibilidade de água para irrigação, consumo e geração de energia. Chuvas extremas, por outro lado, têm capacidade de destruir plantações, contaminar fontes de água e danificar estradas, pontes e outras estruturas essenciais à atividade econômica.
Quando a produção agrícola cai, os reflexos podem aparecer no preço dos alimentos. A inflação reduz o poder de compra dos salários e afeta de maneira mais intensa famílias de baixa renda.
A OIT alerta ainda que perdas de renda em comunidades vulneráveis podem ampliar outros problemas sociais, incluindo insegurança alimentar, migração em busca de trabalho e até o risco de aumento do trabalho infantil em áreas mais afetadas.
Canal do Panamá também está no radar
O alerta não se limita ao Brasil. Um dos pontos estratégicos mencionados no estudo é o Canal do Panamá, uma das principais rotas do comércio marítimo internacional.
Períodos prolongados de seca podem reduzir o nível dos lagos utilizados na operação do canal. Isso pode limitar a circulação de embarcações e provocar efeitos sobre transporte, logística, cadeias de abastecimento e empregos relacionados à atividade.
O problema mostra como os impactos do El Niño podem alcançar setores que, em um primeiro momento, não são considerados diretamente dependentes do clima.
Pesca pode sofrer no Peru e no Equador
Na costa do Pacífico, Peru e Equador aparecem entre os países que exigem atenção especial.
Além do risco de chuvas extremas, enchentes, deslizamentos e enxurradas, o aquecimento das águas costeiras altera os ecossistemas marinhos e pode comprometer a atividade pesqueira.
A pesca representa uma importante fonte de renda e emprego nessas regiões. Uma queda acentuada da atividade pode atingir pescadores, trabalhadores da indústria de processamento, transporte e comércio ligados ao setor.
Hidrelétricas também podem ser afetadas
Colômbia, Equador, Venezuela e Bolívia aparecem no estudo entre os países vulneráveis devido à dependência da geração hidrelétrica.
A redução das chuvas e dos níveis dos rios pode limitar a capacidade de produção de eletricidade. Em situações mais críticas, restrições no fornecimento de energia podem atingir fábricas, mineração, agronegócio e serviços urbanos.
O problema vai além da redução da produção industrial. Cortes de energia também podem comprometer sistemas de ventilação e refrigeração em fábricas e minas justamente durante períodos de temperaturas elevadas, aumentando o risco de estresse térmico entre os trabalhadores.
Informalidade aumenta vulnerabilidade
O cenário preocupa especialmente em uma região onde a informalidade continua elevada. Dados recentes da OIT mostram que quase metade dos trabalhadores da América Latina e do Caribe permanece no emprego informal, situação que limita o acesso a mecanismos de proteção social e trabalhista.
É justamente esse grupo que tende a apresentar menor capacidade de absorver perdas temporárias de renda provocadas por secas, enchentes, interrupções das atividades ou eventos extremos.
A OIT ressalta, entretanto, que os impactos sobre o mercado de trabalho não são inevitáveis. A dimensão das perdas dependerá da capacidade dos países de antecipar os riscos e adotar políticas de proteção.
Medidas para reduzir os impactos
Entre as medidas defendidas pela organização estão o fortalecimento dos sistemas de alerta, ampliação da proteção social, adaptação dos locais e jornadas de trabalho ao calor e reforço da fiscalização das condições ocupacionais.
Para trabalhadores expostos a altas temperaturas, medidas como acesso permanente à hidratação, períodos adequados de descanso, áreas protegidas do calor e organização dos trabalhos mais pesados nos horários mais amenos podem diminuir o risco de adoecimento.
A entidade também defende investimentos em infraestrutura mais resistente a eventos extremos e políticas específicas para setores altamente dependentes do clima.
Para a OIT, o El Niño 2026-2027 não deve ser tratado apenas como uma emergência meteorológica. O fenômeno expõe fragilidades já existentes no mercado de trabalho e reforça a necessidade de preparar trabalhadores, empresas e governos para um cenário em que eventos extremos podem se tornar cada vez mais frequentes.
*Da Agência Fonte Exclusiva.