A venda de produtos anunciados como tirzepatida em pó nas redes sociais levou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a reforçar o alerta sobre os riscos do uso de medicamentos injetáveis sem procedência e controle sanitário. A preocupação aumentou após a circulação de vídeos que ensinam como diluir o pó e aplicar a substância por conta própria.
A tirzepatida é o princípio ativo do Mounjaro, medicamento registrado no Brasil e produzido pela farmacêutica Eli Lilly. O produto possui indicação aprovada pela Anvisa para o tratamento de diabetes tipo 2 e, desde 2025, também para controle crônico do peso em situações específicas.
O alerta, no entanto, não se refere ao medicamento regularizado, mas aos produtos vendidos de forma irregular pela internet. Nesses casos, não há garantia de procedência, composição, concentração, qualidade ou conservação do material. A própria Anvisa já determinou, em diferentes ações de fiscalização realizadas em 2026, a apreensão e a proibição de produtos à base de tirzepatida sem registro ou fabricados fora das normas sanitárias.
Vídeos mostram preparo caseiro
Segundo as informações divulgadas pela Anvisa, conteúdos publicados nas redes sociais apresentam instruções para transformar o produto em pó em uma preparação destinada à aplicação por injeção.
A prática envolve a mistura do material com algum líquido e posterior aplicação com uma seringa. O problema é que esse tipo de preparo, principalmente quando realizado em casa, não oferece as condições necessárias para garantir a esterilidade do produto.
Uma preparação injetável contaminada pode levar microrganismos diretamente para o organismo e provocar infecções e outras complicações. Além disso, a aparência do produto não permite identificar se existem bactérias, fungos, partículas ou outras substâncias potencialmente prejudiciais.
A Anvisa reforça que um produto vendido pela internet não se torna seguro apenas porque está lacrado, tem aparência semelhante a um medicamento conhecido ou vem acompanhado de instruções de uso.
Fiscalizações já encontraram irregularidades
A preocupação com a comercialização clandestina de tirzepatida não é recente. Em março deste ano, a Anvisa determinou a apreensão de tirzepatida manipulada de forma irregular e proibiu sua comercialização, distribuição, importação, manipulação e propaganda. A empresa responsável não possuía autorização para fabricar esse tipo de medicamento.
Em junho, a agência voltou a adotar medidas contra produtos à base de tirzepatida sem registro, notificação ou cadastro no Brasil. Entre eles estavam medicamentos comercializados com diferentes nomes e fabricados por empresas não identificadas.
As ações de fiscalização também revelaram problemas relacionados à produção e à manipulação de medicamentos injetáveis. Segundo uma nota técnica conjunta da Anvisa e da Polícia Federal, mais de 1,3 milhão de unidades de medicamentos injetáveis irregulares foram apreendidas entre janeiro e abril de 2026. No mesmo período, oito dos 26 estabelecimentos avaliados foram interditados por falhas técnicas graves ou ausência de controle de qualidade.
Em uma operação realizada em abril, Anvisa e Polícia Federal também identificaram a movimentação irregular de tirzepatida em quantidade suficiente para a produção de mais de 1 milhão de dispositivos injetáveis. Mais de 17 mil frascos de tirzepatida manipulados irregularmente foram apreendidos.
CBL-514 também aparece nas redes sociais
Outro produto que entrou no radar da Anvisa é o CBL-514, um peptídeo sintético que vem sendo divulgado na internet com promessas relacionadas à redução de gordura localizada.
A substância ainda está em fase de estudos clínicos. Portanto, não possui registro sanitário para comercialização no Brasil. Enquanto as pesquisas continuam, sua segurança, eficácia e qualidade ainda precisam ser avaliadas pelas autoridades regulatórias.
A divulgação de substâncias experimentais como se fossem produtos prontos para uso pode criar uma falsa impressão de segurança, principalmente quando as informações são acompanhadas de orientações para aplicação por conta própria.
Produtos injetáveis exigem controle rigoroso
O principal alerta da Anvisa está relacionado à segurança dos produtos utilizados por via injetável. Esse tipo de medicamento precisa passar por controles específicos para garantir, entre outros aspectos, a qualidade, a pureza e a esterilidade.
A agência já identificou situações em que produtos manipulados apresentavam falhas justamente nesses controles. Em maio, por exemplo, uma empresa que produzia tirzepatida sem autorização teve a atividade interditada. Durante a fiscalização, não foi apresentada documentação que comprovasse a realização de todos os testes necessários para garantir a qualidade das preparações.
Por isso, a orientação é não comprar ou utilizar tirzepatida em pó ou outros produtos injetáveis de origem desconhecida, principalmente aqueles vendidos por perfis de redes sociais ou sites que não sejam canais oficiais de estabelecimentos autorizados.
A Anvisa também vem adotando medidas contra diferentes tipos de canetas emagrecedoras comercializadas irregularmente. Em setembro, por exemplo, a agência proibiu a importação, venda, propaganda e uso da caneta T36, que não possui registro sanitário no Brasil.
*Da Agência Fonte Exclusiva
