Quando uma pessoa toma um remédio para dor, o princípio ativo não percorre o organismo tentando identificar onde está o problema. Na maioria dos casos, ele é absorvido, entra na corrente sanguínea e se distribui por diferentes tecidos.
O efeito aparece quando a substância alcança, em concentração suficiente, estruturas biológicas com as quais consegue interagir. Entre elas estão receptores, enzimas, canais celulares e outras moléculas envolvidas no funcionamento do organismo.
Uma forma comum de explicar esse processo é comparar o medicamento a uma chave e o receptor a uma fechadura. A analogia ajuda a entender a compatibilidade molecular, mas não significa que a ligação seja completamente exclusiva.
Alguns medicamentos interagem com diferentes tipos de receptores ou chegam a vários tecidos. Isso explica tanto os efeitos desejados quanto parte das reações adversas.
Como o medicamento chega ao organismo
A ação depende inicialmente da via de administração. Um medicamento pode ser aplicado diretamente sobre a pele, inalado, injetado ou ingerido.
Quando tomado em comprimido, ele geralmente percorre o sistema digestivo, dissolve-se e libera o princípio ativo. A maior parte da absorção costuma ocorrer no intestino, de onde a substância segue para a circulação.
Antes de alcançar o restante do corpo, alguns fármacos passam pelo fígado e podem sofrer o chamado metabolismo de primeira passagem. Esse processo reduz a quantidade do princípio ativo que efetivamente chega à circulação. O propranolol, por exemplo, é bem absorvido pelo trato gastrointestinal, mas apresenta menor disponibilidade no organismo devido ao metabolismo hepático intenso.
Depois da absorção, o medicamento é distribuído pelos tecidos. A quantidade que chega a cada região depende de fatores como fluxo sanguíneo, capacidade de atravessar membranas, ligação a proteínas e afinidade por água ou gordura.
Medicamentos com maior capacidade de se dissolver em gordura, por exemplo, podem atravessar mais facilmente determinadas barreiras e alcançar o sistema nervoso central.
Onde acontece o alívio da dor
Nem todo analgésico age diretamente no local dolorido. Alguns reduzem a produção de substâncias inflamatórias nos tecidos, enquanto outros atuam no cérebro ou na medula, diminuindo a transmissão ou a percepção da dor.
Portanto, o medicamento não precisa necessariamente se concentrar na região que dói. Ele pode interferir em uma etapa do processo que produz ou comunica o sinal doloroso.
O efeito também depende da dose. Para provocar uma resposta, o princípio ativo precisa alcançar uma concentração adequada no local onde estão seus alvos. Quantidades insuficientes podem não produzir o resultado esperado, enquanto doses excessivas aumentam o risco de toxicidade.
Por que surgem efeitos colaterais
A seletividade dos medicamentos não é absoluta. Um princípio ativo pode se ligar a receptores semelhantes presentes em outros órgãos e provocar efeitos que não fazem parte do objetivo principal do tratamento.
O propranolol é um exemplo. O medicamento bloqueia receptores beta-adrenérgicos e pode ser usado em diferentes condições cardiovasculares e neurológicas. Como não é seletivo, também bloqueia receptores beta-2 relacionados à dilatação dos brônquios, o que exige cautela em pessoas com asma.
Além disso, idade, funcionamento do fígado e dos rins, alimentação, genética e interação com outros medicamentos podem modificar a absorção, a eliminação e o efeito de uma substância.

O caminho de um comprimido
Após ser ingerido, o medicamento normalmente passa pelas seguintes etapas:
- O comprimido se desintegra e libera o princípio ativo.
- A substância é absorvida, principalmente no intestino.
- Parte pode ser metabolizada pelo fígado antes de chegar à circulação geral.
- O princípio ativo é distribuído pelo sangue para diferentes tecidos.
- Ao encontrar alvos compatíveis e atingir concentração suficiente, começa a produzir seus efeitos.
- Depois, o medicamento é transformado e eliminado, principalmente pelo fígado e pelos rins.
Automedicação exige cuidado
Mesmo medicamentos vendidos sem receita podem provocar reações adversas, intoxicações e interações com outras substâncias. O uso inadequado também pode mascarar sintomas e retardar o diagnóstico de uma doença.
Uma dor de cabeça, por exemplo, pode estar relacionada a diferentes condições. Repetir o uso de analgésicos sem investigar episódios frequentes, intensos ou acompanhados de outros sinais pode apenas aliviar temporariamente o sintoma.
O Ministério da Saúde considera racional o uso de medicamentos adequados à condição clínica, em doses compatíveis com as necessidades individuais e pelo período correto. Mesmo nos produtos isentos de prescrição, a orientação de um médico ou farmacêutico ajuda a reduzir riscos.
*Da Agência Fonte Exclusiva
