A facilidade de encontrar soluções com poucos comandos pode transformar a inteligência artificial em uma aliada nos estudos, mas também levanta dúvidas sobre seus efeitos na aprendizagem. Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade Carnegie Mellon, nos Estados Unidos, identificou que pessoas que utilizam chatbots para resolver exercícios de matemática e interpretar textos podem apresentar mais dificuldades quando precisam realizar tarefas semelhantes sem auxílio tecnológico.
O estudo reuniu 1.222 participantes em três experimentos controlados. Os resultados indicaram que, embora a inteligência artificial facilite a conclusão das atividades enquanto está disponível, a retirada da ferramenta pode estar associada a uma redução no desempenho e na disposição para continuar tentando.
Esforço intelectual é importante para aprender
A autora principal da pesquisa, Grace Liu, destacou a importância das chamadas “dificuldades desejáveis”, conceito da ciência cognitiva relacionado ao esforço que contribui para desenvolver e consolidar habilidades.
Quando a tecnologia elimina continuamente a necessidade de pensar, testar possibilidades e buscar soluções, o usuário pode conseguir acertar uma questão sem desenvolver plenamente a capacidade de resolver problemas semelhantes de forma independente.
A preocupação dos pesquisadores não está necessariamente no uso da inteligência artificial, mas na maneira como ela é utilizada. A dependência de respostas imediatas pode diminuir as oportunidades de praticar o raciocínio, experimentar estratégias e aprender com os próprios erros.
Testes de matemática mostraram mudanças no desempenho
No primeiro experimento, 354 pessoas foram divididas aleatoriamente em dois grupos. Enquanto uma parte recebeu acesso a um chatbot de inteligência artificial, os demais resolveram os exercícios sem a ferramenta.
Os participantes responderam a 12 problemas envolvendo frações. Quem utilizava o chatbot podia solicitar respostas diretas ou pedir dicas para avançar na resolução.
Após essa etapa, os pesquisadores retiraram o acesso à inteligência artificial sem avisar previamente os participantes. Todos receberam mais três questões de matemática para resolver por conta própria e puderam deixar perguntas sem resposta. A equipe também informou que erros e desistências não seriam punidos e apresentou as soluções corretas após tentativas malsucedidas.
Durante a fase de assistência, os participantes com acesso ao chatbot demonstraram maior facilidade para concluir os exercícios e menor tendência a abandoná-los. Entretanto, depois que a ferramenta foi desativada, o grupo apresentou queda no desempenho e maior propensão a errar ou deixar questões em branco.
O segundo experimento contou com 667 participantes e seguiu uma metodologia semelhante, com ajustes no procedimento e uma avaliação inicial para identificar pessoas que não conseguiam resolver nem os exercícios mais básicos.
Os resultados apontaram uma tendência semelhante: o uso da inteligência artificial, especialmente para obter soluções prontas, estava associado a uma menor disposição para persistir nas atividades após a retirada do auxílio.
Dificuldade também apareceu na interpretação de textos
O terceiro experimento avaliou se o mesmo padrão poderia ser observado em tarefas de compreensão de leitura. Participaram 201 pessoas, divididas entre um grupo com acesso à inteligência artificial e outro sem a ferramenta.
Inicialmente, os voluntários responderam a cinco perguntas relacionadas à interpretação de textos. Depois, o chatbot foi desativado, e os participantes receberam outras três questões para resolver sem assistência.
Os resultados seguiram uma tendência semelhante à identificada nos exercícios de matemática, sugerindo que a redução da persistência também pode ocorrer em atividades que exigem interpretação e construção de significado.
Para os pesquisadores, os achados apontam para um possível efeito da chamada terceirização cognitiva, processo no qual uma pessoa transfere parte do esforço mental necessário para executar uma tarefa a uma ferramenta externa.
Segundo Liu, os participantes que mais delegaram suas atividades à inteligência artificial apresentaram uma queda mais acentuada na persistência. Essa habilidade é relevante não apenas no ambiente educacional, mas também em situações cotidianas e profissionais que exigem concentração e resolução de problemas.
Respostas instantâneas podem mudar a percepção sobre o esforço
Uma das hipóteses levantadas pela equipe é que o contato frequente com respostas imediatas altere a percepção sobre o tempo e a dedicação necessários para aprender. Depois de se acostumar com a rapidez da IA, o usuário pode passar a considerar pouco eficiente qualquer método que exija reflexão, tentativas ou mais tempo para chegar a uma solução.
Esse comportamento pode representar uma dificuldade quando a tecnologia não estiver disponível ou quando a tarefa exigir conhecimentos que não foram efetivamente desenvolvidos durante o uso da ferramenta.
Os pesquisadores, contudo, não afirmam que toda utilização da inteligência artificial prejudique a aprendizagem. Os experimentos se concentraram em tarefas específicas e em situações nas quais o acesso ao chatbot era retirado depois de um período de assistência. Por isso, os resultados não podem ser generalizados automaticamente para todos os usos da tecnologia ou para qualquer contexto educacional.
Inteligência artificial pode atuar como tutora
Como alternativa, os autores defendem que os sistemas de inteligência artificial sejam projetados para estimular o raciocínio, em vez de simplesmente apresentar respostas completas.
Nesse modelo, os chatbots poderiam oferecer pistas graduais, explicar conceitos, fazer perguntas que incentivem a reflexão e orientar a resolução de exercícios sem eliminar todas as etapas do processo de aprendizagem.
A proposta é aproveitar os benefícios da tecnologia sem substituir a participação ativa de quem está estudando. Dessa forma, a inteligência artificial poderia funcionar como uma tutora, auxiliando na compreensão dos conteúdos e no desenvolvimento da autonomia.
O estudo chama a atenção para uma diferença importante: conseguir uma resposta correta com a ajuda de uma ferramenta não significa, necessariamente, dominar o assunto. A prática independente, o envolvimento intelectual e a disposição para enfrentar dificuldades continuam sendo elementos importantes para consolidar conhecimentos.
*Da Agência Fonte Exclusiva
