ONU usa força do futebol para promover saúde mental entre jovens

Iniciativa internacional destaca os benefícios do esporte coletivo, alerta para os riscos das apostas on-line e propõe uma agenda contra a violência de gênero na Copa Feminina de 2027.

ONU promove debate sobre futebol e saúde mental da juventude, com alertas sobre apostas on-line e proposta de combate à violência de gênero na Copa Feminina de 2027.

Imagem: Divulgação/ ONU

A capacidade do futebol de criar vínculos, aproximar comunidades e fortalecer o sentimento de pertencimento será utilizada pelas Nações Unidas em uma agenda internacional voltada ao bem-estar emocional de crianças, adolescentes e jovens.

Aproveitando a visibilidade dos grandes torneios, a organização pretende incentivar governos, entidades esportivas, escolas, famílias e empresas a adotarem políticas que ampliem o acesso seguro e inclusivo à prática esportiva.

O tema será debatido nesta sexta-feira (17), durante um encontro promovido pelo Escritório da Juventude da ONU, na sede das Nações Unidas, em Nova York. A programação reunirá representantes de organizações juvenis, governos, empresas e entidades da sociedade civil.

Com o título “Um Mundo, Um Jogo, Um Objetivo: O Futebol como um Catalisador para a Saúde Mental e o Bem-Estar da Juventude”, o evento faz parte da iniciativa ONU Amigos do Futebol.

A proposta é discutir de que maneira o esporte mais popular do planeta pode ajudar na prevenção de problemas emocionais, na formação de redes de apoio e na criação de ambientes mais acolhedores para a juventude.

Saúde mental preocupa autoridades internacionais

A mobilização ocorre em meio ao aumento da preocupação com os transtornos mentais entre pessoas mais jovens.

Dados apresentados pelas Nações Unidas apontam que uma em cada sete pessoas com idades entre 10 e 19 anos enfrenta algum problema relacionado à saúde mental.

A organização também chama a atenção para o crescimento dos casos de depressão entre adolescentes e jovens adultos. O cenário, segundo especialistas, exige respostas integradas envolvendo o poder público, instituições educacionais, famílias, comunidades e organizações esportivas.

Para a ONU, o futebol pode fazer parte dessas estratégias por estimular a convivência, a disciplina, a cooperação e a construção de objetivos coletivos.

Esportes coletivos podem ajudar a reduzir ansiedade

Informações divulgadas pela ONU News indicam que a participação em modalidades coletivas está associada a índices menores de ansiedade e depressão em diferentes países.

O convívio em equipe, o apoio entre os participantes, o desenvolvimento da autoestima e a criação de amizades podem funcionar como fatores de proteção emocional.

A prática esportiva também pode ajudar jovens a desenvolver habilidades para lidar com derrotas, frustrações, responsabilidades e desafios cotidianos.

Apesar dos benefícios, milhões de pessoas ainda encontram dificuldades para participar regularmente de atividades esportivas. Falta de espaços públicos, custos com equipamentos, desigualdade social, discriminação e ausência de programas adaptados estão entre os principais obstáculos.

O encontro internacional pretende incentivar políticas que reduzam essas barreiras e transformem o futebol em uma ferramenta permanente de inclusão social, em vez de restringi-lo à competição e ao entretenimento.

Copa Feminina no Brasil deve deixar legado social

A utilização dos grandes eventos esportivos como instrumento de transformação também deverá entrar na agenda da Copa do Mundo Feminina de 2027, que será realizada no Brasil.

Pedro Trengrouse, representante da Fifa Master Alumni e coordenador do encontro em Nova York, defendeu que o torneio seja acompanhado por ações de enfrentamento à violência contra as mulheres.

Para ele, o Brasil precisa aproveitar a visibilidade internacional da competição para ampliar o debate sobre desigualdade, feminicídio, discriminação e violência de gênero.

“Hoje é a saúde mental. Amanhã, na Copa do Mundo Feminina no Brasil, por exemplo, precisa ser a questão de gênero. Um país como o nosso, que tem o índice de feminicídio que nós temos, não pode receber a Copa do Mundo Feminina sem tratar dessa questão”, afirmou.

A proposta é que o evento deixe um legado que ultrapasse os estádios, com campanhas educativas, fortalecimento do futebol feminino e políticas de prevenção à violência.

O debate também envolve a necessidade de proteger atletas, torcedoras e profissionais que enfrentam preconceito, assédio e desigualdade dentro do ambiente esportivo.

Apostas on-line preocupam durante grandes torneios

Embora o futebol possa contribuir para o bem-estar, o forte envolvimento emocional provocado pelas competições também pode ampliar a exposição dos torcedores às plataformas de apostas on-line.

No Brasil, o avanço das chamadas bets tem sido relacionado a casos de endividamento, perda de renda familiar e agravamento de problemas psicológicos.

O acesso facilitado aos aplicativos, a publicidade constante e a promessa de ganhos rápidos podem estimular comportamentos compulsivos, especialmente durante partidas com grande apelo popular.

O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, o Idec, alerta que a paixão pelo esporte pode ser explorada comercialmente pelas empresas de apostas.

Segundo a entidade, competições de grande repercussão aumentam a exposição da população à publicidade das plataformas, alcançando apostadores frequentes, consumidores ocasionais e pessoas em situação de vulnerabilidade financeira ou emocional.

“Eventos esportivos de grande mobilização emocional tendem a ampliar significativamente a exposição da população à publicidade de bets, atingindo não apenas apostadores habituais, mas também consumidores ocasionais e pessoas em situação de vulnerabilidade”, informou o instituto.

Transferências para bets chegam a R$ 944 milhões

Um levantamento da fintech Klavi, elaborado a partir de uma amostra de 1,2 milhão de brasileiros, apontou que R$ 944 milhões foram enviados a empresas de apostas durante a atual Copa do Mundo.

As informações foram obtidas por meio do sistema Open Finance, do Banco Central. Somente na quinta-feira (16), as transferências para as plataformas teriam alcançado R$ 17,9 milhões.

Os números reforçam a preocupação com o uso de recursos destinados a despesas essenciais e com o endividamento provocado pela tentativa de recuperar perdas anteriores.

Especialistas explicam que o apostador pode desenvolver uma falsa sensação de controle por conhecer os times, os atletas e o histórico das competições.

Esse conhecimento, no entanto, não elimina os riscos. Após uma perda, algumas pessoas aumentam o valor das apostas para tentar recuperar o dinheiro, alimentando um ciclo de prejuízos e compulsão.

SUS amplia apoio a apostadores compulsivos

O aumento dos problemas relacionados às apostas levou o Sistema Único de Saúde a ampliar o atendimento remoto destinado a jogadores compulsivos e familiares afetados.

O acompanhamento busca oferecer orientação psicológica e identificar situações em que a prática deixou de ser uma atividade recreativa e passou a causar prejuízos emocionais, sociais e financeiros.

O Ministério da Saúde destaca que as apostas podem comprometer a saúde física e mental, os relacionamentos familiares, a vida profissional e a estabilidade econômica.

Entre os principais sinais de alerta estão a perda de controle sobre o tempo e o dinheiro gastos, a tentativa repetida de recuperar valores, o abandono de compromissos e a ocultação do comportamento de familiares e amigos.

O endividamento pode provocar ansiedade, depressão, conflitos domésticos, queda no rendimento profissional e isolamento social.

Diante desse cenário, especialistas defendem campanhas preventivas, regras mais rigorosas para a publicidade e ampliação do acesso aos serviços especializados.

Futebol pode deixar legado além dos resultados

A iniciativa das Nações Unidas busca demonstrar que a influência mundial do futebol pode ser direcionada para objetivos sociais que vão além das partidas e dos títulos.

Ao relacionar o esporte à saúde mental, a organização pretende estimular compromissos concretos com a juventude, como a criação de espaços seguros, o combate à discriminação e a ampliação dos programas esportivos comunitários.

Ao mesmo tempo, o debate alerta para atividades comerciais capazes de transformar a paixão dos torcedores em endividamento e sofrimento psicológico.

A expectativa é que os grandes torneios deixem como legado não apenas estádios e resultados esportivos, mas também políticas permanentes de inclusão, prevenção, igualdade e cuidado com a saúde mental.

*Da Agência Fonte Exclusiva.

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