Uma pessoa pode ter um coração aparentemente normal e, ainda assim, sofrer uma arritmia capaz de provocar uma parada cardíaca fatal. O assunto voltou a chamar atenção após a morte de Alex Hughes, filho do ex-jogador do Manchester United e da seleção do País de Gales Mark Hughes.
Alex, de 38 anos, morreu em 19 de junho de 2026, depois de ser encontrado inconsciente em casa, em Macclesfield, na Inglaterra. Ele trabalhava como responsável pelo recrutamento de jogadores do Grimsby Town. Uma investigação posterior classificou a morte como decorrente da síndrome da morte arrítmica súbita, conhecida pela sigla SADS, ou como síndrome da morte súbita adulta.
O termo é utilizado quando uma pessoa sofre uma morte cardíaca súbita e, após a investigação, não é encontrada uma causa estrutural ou toxicológica capaz de explicar o óbito. Nesses casos, uma alteração elétrica do coração é uma das principais possibilidades.
O coração também depende de um sistema elétrico
Para funcionar corretamente, o coração não depende apenas do músculo e das estruturas que formam suas quatro câmaras. Cada batimento é coordenado por impulsos elétricos que determinam quando o órgão deve se contrair e bombear o sangue.
Quando esse sistema apresenta alguma alteração, podem surgir arritmias. Algumas são relativamente inofensivas, enquanto outras podem comprometer rapidamente a capacidade do coração de manter a circulação.
Uma das situações mais graves é a fibrilação ventricular. Nesse quadro, os ventrículos passam a apresentar uma atividade elétrica desorganizada, fazendo com que o coração deixe de bombear sangue de maneira eficaz.
Sem circulação adequada, órgãos como o cérebro ficam rapidamente sem oxigênio. A pessoa pode perder a consciência em poucos segundos e, sem atendimento imediato, a parada cardíaca pode levar à morte.
A ressuscitação cardiopulmonar e o uso rápido de um desfibrilador, quando indicado, são fundamentais para aumentar as chances de sobrevivência.
Parada cardíaca não é sinônimo de infarto
Apesar de muitas vezes serem tratados como se fossem a mesma coisa, infarto e parada cardíaca são eventos diferentes.
O infarto ocorre quando o fluxo de sangue para uma parte do músculo cardíaco é reduzido ou interrompido, geralmente devido à obstrução de uma artéria coronária. Já a parada cardíaca acontece quando o coração deixa de bombear sangue de forma eficaz.
Um infarto pode provocar uma arritmia grave e levar a uma parada cardíaca, mas uma parada cardíaca também pode ocorrer por outras causas.
Na síndrome da morte arrítmica súbita, a hipótese pode envolver justamente uma alteração elétrica capaz de desencadear uma arritmia fatal sem produzir uma lesão estrutural evidente no coração.
Por que a autópsia pode não encontrar a causa?
Esse é um dos aspectos mais difíceis desses casos. Uma autópsia pode identificar alterações como doença arterial coronariana, aumento do coração, cicatrizes, inflamações ou outras lesões no músculo cardíaco.
Porém, algumas doenças que afetam os canais iônicos e o funcionamento elétrico das células cardíacas podem não causar alterações visíveis na estrutura do órgão. Síndromes como QT longo, Brugada e taquicardia ventricular polimórfica catecolaminérgica estão entre as condições que podem estar relacionadas a mortes arrítmicas súbitas.
Por isso, quando uma morte súbita permanece sem explicação depois da investigação convencional, especialistas podem recomendar uma avaliação adicional, incluindo investigação genética.
O que é a autópsia molecular?
A chamada autópsia molecular consiste na análise genética de material coletado após a morte para procurar alterações associadas a doenças cardíacas hereditárias.
A estratégia pode ajudar a identificar uma possível causa que não aparece no exame estrutural do coração. Estudos mostram, porém, que o teste não consegue explicar todos os casos.
Em uma pesquisa com 302 casos de morte arrítmica súbita, variantes genéticas consideradas patogênicas ou provavelmente patogênicas foram encontradas em 13% dos casos. Quando a análise genética foi combinada com a avaliação clínica dos familiares sobreviventes, o rendimento diagnóstico aumentou.
Histórico familiar pode ser um sinal importante
A investigação não precisa terminar com a pessoa que morreu. Quando existe suspeita de uma doença cardíaca hereditária, parentes de primeiro grau também podem ser avaliados.
Diretrizes internacionais recomendam que, diante de uma morte súbita inexplicada em que o coração não apresenta uma causa evidente, a família seja encaminhada para avaliação clínica e genética especializada. Dependendo do caso, podem ser utilizados eletrocardiograma, monitorização do ritmo cardíaco, ecocardiograma, teste de esforço e exames genéticos.
Isso é importante porque algumas doenças hereditárias podem permanecer silenciosas durante anos. Uma pessoa pode não apresentar sintomas significativos até que uma arritmia grave aconteça.
Desmaios sem explicação, palpitações, episódios de tontura e mal-estar durante exercícios são alguns dos sinais que podem justificar uma avaliação médica, embora a ausência de sintomas não descarte completamente a possibilidade de uma alteração cardíaca.
Uma condição que pode permanecer silenciosa
A síndrome da morte arrítmica súbita mostra por que nem sempre um coração aparentemente saudável significa ausência de risco. Algumas alterações responsáveis por arritmias graves estão relacionadas ao funcionamento elétrico do órgão e podem não provocar mudanças visíveis em exames estruturais.
Isso não significa que toda morte súbita tenha origem genética ou que pessoas sem alterações estruturais apresentem necessariamente uma doença cardíaca. A investigação precisa considerar o histórico médico, as circunstâncias da morte, a autópsia, exames toxicológicos e, quando indicado, testes genéticos.
No caso de mortes súbitas e inexplicadas, especialmente entre pessoas jovens, a avaliação dos familiares pode ser importante para identificar precocemente doenças hereditárias e permitir acompanhamento médico de quem eventualmente esteja sob risco.
*Da Agência Fonte Exclusiva
