Pesquisadores da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto, desenvolveram um sistema de inteligência artificial capaz de analisar radiografias panorâmicas, identificar a posição dos dentes e apontar aqueles que apresentam sinais de cárie. A proposta é utilizar a tecnologia como ferramenta de apoio ao cirurgião-dentista durante a interpretação dos exames.
O projeto reúne pesquisadores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto e da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto. O trabalho faz parte do Interdisciplinary Research Group in Digital Dentistry, grupo interdisciplinar que reúne cerca de 30 pesquisadores dedicados ao desenvolvimento de soluções digitais para a odontologia.
Para ensinar o sistema a reconhecer as alterações nas imagens, os pesquisadores utilizaram redes neurais convolucionais, modelos de inteligência artificial especialmente desenvolvidos para identificar padrões visuais.
Durante o treinamento, a ferramenta recebeu radiografias previamente analisadas e classificadas por dentistas. A partir desses exemplos, passou a reconhecer características associadas à posição de cada dente e à presença ou ausência de cavidades.
O estudo utilizou 935 radiografias panorâmicas provenientes de atendimentos odontológicos de rotina. Para a tarefa de identificação de cáries, foram analisadas 7.304 imagens de dentes, divididas igualmente entre casos com e sem cavitação.
Entre os modelos testados, o InceptionResNet-v2 apresentou o melhor desempenho. Na identificação e numeração dos dentes, a precisão ficou próxima de 98%. Já na classificação entre dentes com e sem cárie, o sistema alcançou aproximadamente 96% de precisão, 91% de sensibilidade e 94% de acurácia geral.
Na prática, a ferramenta pode destacar uma região suspeita em uma radiografia e auxiliar o profissional a direcionar sua atenção durante a avaliação. A decisão sobre o diagnóstico e o tratamento, entretanto, continua sendo responsabilidade do dentista.
Esse cuidado é importante porque, apesar dos resultados elevados, nenhum modelo de inteligência artificial está livre de erros. No próprio estudo, os pesquisadores observaram que algumas lesões poderiam não ser identificadas corretamente, o que impede o uso da tecnologia de forma independente.
A expectativa é que sistemas desse tipo possam reduzir o tempo gasto na interpretação das imagens e servir como uma espécie de apoio adicional na rotina clínica, principalmente em situações nas quais diferentes estruturas anatômicas se sobrepõem nas radiografias panorâmicas.
A tecnologia também pode ter aplicações em pesquisas. Como é capaz de analisar grandes quantidades de exames de forma automatizada, poderá facilitar estudos epidemiológicos sobre saúde bucal e ajudar pesquisadores a identificar padrões em grandes populações.
Isso não significa, porém, que a inteligência artificial substituirá a avaliação clínica. A radiografia é apenas uma das informações utilizadas pelo dentista para identificar uma cárie. Sintomas, exame da boca, histórico do paciente e outros testes também podem ser necessários antes da definição do diagnóstico.
O artigo científico que descreve o sistema foi publicado na revista PLOS Digital Health em novembro de 2025. A USP divulgou os resultados nesta sexta-feira (14), enquanto os pesquisadores continuam trabalhando no aperfeiçoamento da tecnologia antes de uma possível aplicação mais ampla nos serviços odontológicos.
O projeto recebeu financiamento da Capes e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), além de envolver estudantes de graduação, pós-graduação e professores das duas unidades da USP.
*Da Agência Fonte Exclusiva
