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Escritores gaúchos repudiam falas racistas em premiação da Academia Rio-Grandense de Letras

A escritora gaúcha Eliane Marques na Flip, em 2022 — Foto: Divulgação

Escritores gaúchos repudiam falas racistas em premiação da Academia Rio-Grandense de Letras

Presidente disse que pioneirismo literário do estado se deve à imigração europeia, ao contrário do restante do país, que teria sido 'colonizado' por escravizados negros

Redação Por Redação
13/12/2024 - 19:01
em Saúde
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Escritores gaúchos têm vindo a público para repudiar o discurso racista do presidente da Academia Rio-Grandense de Letras (ARL), Airton Ortiz, proferido nesta quinta-feira (12), durante a entrega do prêmio da entidade.

Em sua fala, Ortiz disse que com frequência é perguntado por que o Parthenon Literário, fundado em Porto Alegre em 1868, foi criado décadas antes da Academia Brasileira de Letras, que é de 1901. Ele afirma que isso se deve à influência da imigração alemã e italiana, enquanto o resto do país teria sido “colonizado” por escravizados negros.

A afirmação causou revolta. A escritora Eliane Marques, uma mulher negra, que momentos antes havia sido premiada por seu romance “Louças de família” (Autêntica Contemporânea), pediu a palavra. Ela subiu ao palco acompanhada de outros vencedores da premiação e repudiou o discurso de Ortiz. “Eu peço a essa academia de letras uma retratação pública por escrito em razão de uma fala não apenas inadequada, mas racista, do senhor presidente”, afirmou.

Marques, cujo romance investiga a opressão racial sofrida por gerações de uma família negra, lembrou que o fundador da Academia Brasileira de Letras foi um escritor negro, Machado de Assis, e citou outros autores negros, inclusive gaúchos e contemporâneos, como Ronald Augusto, Luiz Maurício Azevedo e Fernanda Bastos.

“Como é que a branquitude não se levanta?”, questionou Marques, que no mês passado venceu o Prêmio São Paulo de Literatura também por “Louças de família”. “Por que é preciso uma pessoa negra pedir retratação em razão e uma fala racista? Eu não entendo isso. Os senhores premiaram uma mulher negra, um livro que fala de todo um trabalho da população negra na construção da sociedade e ao mesmo tempo ficam em silêncio diante de uma fala racista. Não era para os senhores se levantarem? Não era para a branquitude se levantar? Eu estou tremendo aqui. Me pediram para ter calma, mas não tem como ter calma. Como é que a branquitude ouve isso calada?”

Escritores e entidades literárias gaúchas manifestaram solidariedade a Marques e repúdio às falas de Ortiz. “De fato o Rio Grande do Sul não decepciona quando declaram seu racismo”, disse Jeferson Tenório, autor de “O avesso da pele”, nas redes sociais. Tenório lembrou que a tradicional Feira do Livro de Porto Alegre, semanas atrás, aventou a possibilidade de criar uma programação separada para a “temática negra”. “Uma programação guetizada”, disse o escritor.

“A Academia Rio-Grandense de Letras e a Feira do Livro de Porto Alegre só reproduziram aquilo que o Estado pensa sobre os negros. E como bem disse o poeta Ronald Augusto: ‘Brancos, vocês não sabem de nada’.”

Augusto também se manifestou nas redes sociais. “A Academia Rio-Grandense de Letras revelou sua total mediocridade moral, intelectual e política”, escreveu. “Vocês não imaginam o esforço que uma pessoa negra tem de fazer para unir revolta e razoabilidade numa resposta ao racista de plantão que, por sua vez, conta com o silêncio cúmplice de uma audiência branca beneficiária do racismo. Vocês não sabem o que é essa solidão, essa parede de preconceitos de que fala o poema em prosa de Cruz e Sousa, enfrentada mais uma vez agora por Eliane Marques”, continuou o poeta.

“Vocês não têm ideia de como isso é triste e cruel. Admoestar a branquesia é muito desgastante, seu supremacismo é sempre entendido como culposo, jamais doloso. Por esta razão nossa réplica soa, o mais das vezes, fora da medida, não era para tanto etc. Brancos, vocês não sabem nada. Vocês só empatam a vida da gente.”

A escritora Natalia Borges Polesso, presente na cerimônia, afirmou que “violências contra pessoas negras não podem servir para a nossa educação”. “Colegas e amigues branques, por que tivemos que esperar a pessoa que estava sofrendo com o racismo AVISAR que estava sofrendo violência para nos levantarmos? Que a gente se levante antes disso. Todo o meu apoio à escritora Eliane Marques. Todo o meu apoio e a minha admiração por seu reconhecido trabalho como escritora”, escreveu a autora nas redes sociais.

A Associação Gaúcha de Escritores (AGES) também repudiou “com veemência” o discurso de Ortiz. “É intolerável que uma academia de letras aceite uma fala que dissemina a narrativa daqueles que escravizaram, violentaram e mataram pessoas negras ao longo dos séculos. Toda e qualquer forma de racismo deve ser combatida por todas e todos de forma imediata e enérgica. Silenciar e se abster é compactuar com este ato criminoso e avesso aos princípios do Estado Democrático de Direito que a custo construímos juntos e temos o dever de defender diariamente”, diz o texto publicado nas redes sociais.

No final da cerimônia de premiação, todos os vencedores foram chamados ao palco para posar para uma foto oficial. Em razão de seus problemas de mobilidade (ambos estavam em cadeiras de rodas), Ruy Carlos Ostermann e Maria Carpi já estavam no palco. Em protesto, os demais vencedores se retiraram do auditório sem participar da foto coletiva.

Da Agência Fonte Exclusiva, com informações do Jornal O Globo.
Tags: #Racismo
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