Por que algumas pessoas escrevem com a mão direita, outras com a esquerda e uma minoria consegue usar as duas com a mesma habilidade? A resposta está longe de ser mero hábito: trata-se de um processo biológico complexo que começa ainda na gestação e envolve genética, ambiente e o próprio desenvolvimento do cérebro.
A maior parte da população é destra, enquanto os canhotos representam uma parcela bem menor — e os ambidestros, uma raridade. Segundo especialistas, a definição da dominância manual surge nas primeiras semanas de vida fetal. Entre a 8ª e a 10ª semana de gestação, já é possível observar, por ultrassom, que o feto tende a chupar mais um polegar que o outro. Esse sinal inicial revela que um dos lados ligados ao controle motor está amadurecendo mais rápido.
“É um fenômeno biológico previsível e geralmente estável. Quando um dos hemisférios cerebrais se desenvolve antes, marca essa preferência inicial”, explica o neurocientista Leandro Freitas de Oliveira, professor da Universidade Católica de Brasília (UCB).
A genética também influencia, mas não determina tudo. Dados apontam que pais destros têm apenas 10% de chance de gerar uma criança canhota. Quando um dos pais é canhoto, a probabilidade sobe para 25%. Mesmo assim, a maioria dos filhos de canhotos nasce destra. Para Michel Naslavsky, pesquisador da USP, esse padrão revela o peso do ambiente — afinal, vivemos em um mundo majoritariamente adaptado a destros.
A preferência manual só se consolida entre os 2 e 3 anos de idade. Antes disso, é natural que a criança alterne o lado dominante, especialmente entre os 5 e 6 meses, quando ainda explora funções motoras.
Cérebro, criatividade e mitos
O controle dos movimentos é cruzado: a mão direita é comandada pelo hemisfério esquerdo, mais ligado à linguagem e ao raciocínio lógico; já a mão esquerda é coordenada pelo hemisfério direito, associado à criatividade e ao pensamento espacial. Essa característica levou ao mito de que pessoas canhotas seriam mais criativas ou mais inteligentes, mas as evidências científicas não sustentam essa ideia.
“Não há vantagem cognitiva consistente para canhotos ou destros. São apenas formas diferentes e igualmente eficientes de o cérebro organizar suas assimetrias”, destaca Oliveira.
Em contrapartida, viver em um mundo projetado para destros pode estimular canhotos a desenvolverem mais soluções improvisadas — algo que, em contextos como esportes, acaba favorecendo o desempenho de quem usa predominantemente a mão esquerda.
É possível mudar de lado?
Embora a dominância seja natural, ela pode ser modificada com treino ao longo da vida. O processo, porém, não muda a preferência original do cérebro. Além disso, forçar alguém a abandonar sua mão dominante pode gerar prejuízos, como desgaste maior, caligrafia mais lenta e dificuldade de automatizar movimentos.
Durante séculos, crianças canhotas foram desencorajadas a usar a mão esquerda — prática comprovadamente prejudicial. “O cérebro é versátil, mas a preferência natural deve ser respeitada”, afirma Naslavsky.
*Da Agência Fonte Exclusiva
