Aos 52 anos, Pedro Alliana chega à Presidência do Paraguai em meio a uma das maiores crises políticas e financeiras recentes do país. Até então vice-presidente, ele assumiu o comando do Executivo depois que o Senado aprovou o impeachment de Santiago Peña, em 6 de novembro, após acusações relacionadas à crise do Ueno Bank. A instituição financeira deixou milhões de clientes sem acesso ao próprio dinheiro e colocou o governo no centro de uma onda de cobranças.
A destituição de Peña foi aprovada por 44 dos 45 senadores. Um parlamentar não participou da votação. Com a decisão, Alliana passou a ocupar a Presidência e deverá concluir o mandato até 15 de agosto de 2028. A sucessão segue o artigo 234 da Constituição paraguaia, que prevê a substituição do presidente pelo vice em caso de destituição, renúncia ou morte.
A mudança também deixou aberta a vice-presidência. Conforme o texto constitucional, quando faltam menos de dois anos para o fim do mandato, cabe ao Congresso escolher quem ocupará a vaga.
A saída de Peña ainda teve outra consequência: como foi destituído por impeachment, ele não terá direito à cadeira de senador vitalício reservada aos ex-presidentes eleitos. Essa condição também poderia garantir imunidade parlamentar, uma proteção que não estará disponível a ele após a decisão do Senado.
Quem é Pedro Alliana
Nascido em Pilar, no departamento de Ñeembucú, região do sudoeste paraguaio próxima à Argentina, Alliana construiu sua carreira política dentro da Associação Nacional Republicana, conhecida como Partido Colorado. A legenda é uma das principais forças políticas do país e está no poder há décadas, com poucas interrupções.
Antes de entrar na vida pública, Alliana trabalhou como comerciante em sua cidade natal. Sua primeira tentativa de chegar à prefeitura de Pilar não teve sucesso. Depois, disputou o governo de Ñeembucú e venceu a eleição para comandar o departamento entre 2008 e 2013.
Mais tarde, foi eleito deputado e ganhou espaço dentro do Partido Colorado. Também chegou à presidência da legenda e presidiu a Câmara dos Deputados, consolidando sua influência na política nacional.
Ao longo da trajetória, Alliana manteve uma relação política próxima com o ex-presidente Horacio Cartes, uma das figuras mais influentes do partido. A parceria, porém, passou por momentos de desgaste. Os dois voltaram a se aproximar durante a crise do Ueno Bank, que também provocou uma reorganização das forças políticas dentro da legenda.
Alliana é formado em Relações Internacionais pela Universidade Autônoma San Sebastián. Em abril de 2026, tornou público seu diploma para responder a questionamentos sobre a formação acadêmica.
Problemas de saúde e vida familiar
A vida pessoal do novo presidente também foi marcada por desafios. Em 2018, Alliana recebeu o diagnóstico de leucemia e iniciou tratamento no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. No ano seguinte, afirmou que havia superado a doença. Em 2021, entretanto, precisou passar por uma nova etapa de quimioterapia.
Ele é casado com a deputada Fabiana María Souto e tem quatro filhos. A família já apareceu em discussões políticas no Paraguai por causa de denúncias de possível favorecimento na ocupação de cargos públicos, incluindo questionamentos envolvendo sua filha mais velha.
As denúncias foram encaminhadas ao Ministério Público, mas os procedimentos acabaram arquivados. Segundo as informações apresentadas no texto original, a avaliação foi de que os fatos relatados não configuravam infração penal de acordo com a legislação paraguaia.
Assassinato do irmão marcou sua trajetória
Um dos episódios mais dolorosos da história familiar de Alliana aconteceu em 2003, quando seu irmão mais velho, Rodolfo, foi sequestrado e assassinado. O caso teve grande repercussão no Paraguai e terminou de forma trágica, mesmo depois de a família pagar o resgate exigido pelos criminosos.
O corpo foi encontrado no rio Paraguai, nas proximidades da cidade de Pilar. A vítima apresentava ferimentos provocados por tiros e estava presa a um objeto usado para dificultar que o corpo voltasse à superfície.
Três pessoas foram detidas durante as investigações, e parte do dinheiro entregue como resgate foi recuperada. O episódio é apontado pela imprensa paraguaia como uma das tragédias que marcaram a vida do político.
Novo presidente terá de lidar com os efeitos da crise bancária
Agora, depois de mais de duas décadas de atuação política, Alliana assume o comando do Paraguai em meio à pressão de milhões de correntistas afetados pela intervenção no Ueno Bank. A crise também levantou questionamentos sobre a fiscalização do sistema financeiro e sobre a relação entre autoridades públicas e a instituição.
O novo presidente terá de conduzir a resposta do governo aos clientes prejudicados, acompanhar as investigações e administrar as consequências políticas da queda de seu antecessor.
A crise também atingiu o próprio Partido Colorado, que precisará lidar com disputas internas e com a pressão por respostas à população. Alliana terá até agosto de 2028 para concluir o mandato e enfrentar os desdobramentos de um escândalo que mudou o comando do país.
*Da Agência Fonte Exclusiva
