Pastor pede bênção à campanha de Flávio Bolsonaro durante culto em Maceió

Candidato à Presidência participou da celebração dos 111 anos da Assembleia de Deus em Alagoas; episódio ocorre em meio ao debate sobre manifestações eleitorais dentro de templos religiosos.

Flávio Bolsonaro recebe oração por sua campanha durante culto da Assembleia de Deus em Maceió. Episódio reacende debate sobre propaganda eleitoral em templos religiosos.

Imagem: Reprodução/ Redes sociais

A passagem do senador Flávio Bolsonaro (PL) por Alagoas ganhou destaque na noite desta terça-feira (25) durante uma celebração da Assembleia de Deus em Maceió.

Candidato à Presidência da República nas eleições de 2026, ele foi chamado ao altar e recebeu uma oração que fez referência direta à sua campanha eleitoral.

A manifestação foi conduzida pelo pastor José Wellington Costa Junior, presidente da Convenção Geral dos Ministros das Igrejas Evangélicas Assembleias de Deus do Brasil (CGADB).

Durante a oração, o líder religioso pediu bênçãos para Flávio e também para outros políticos presentes que disputam cargos nas eleições de outubro. Em outro trecho, fez uma súplica pelo país e pediu que o Brasil fosse libertado das “garras de Satanás”.

A cerimônia integrou as comemorações pelos 111 anos da Assembleia de Deus em Alagoas e reuniu milhares de pessoas no templo-sede da denominação. O evento também foi transmitido pela internet. Cerca de 8 mil pessoas acompanhavam a transmissão oficial no momento da oração, segundo relato publicado pela Folha de S.Paulo.

Flávio participa da oração e não faz discurso

Flávio Bolsonaro permaneceu no altar durante a manifestação dos líderes religiosos, mas não discursou para os fiéis.

Segundo relatos sobre o evento, o candidato chegou para participar da oração e deixou o local pouco depois da fala de José Wellington. Ao ser questionado por jornalistas sobre a menção à sua campanha durante o culto, não respondeu antes de sair.

A participação na celebração encerrou os principais compromissos públicos cumpridos pelo candidato em Maceió naquele dia.

Antes do culto, Flávio havia participado de carreata, concedido entrevistas e se reunido com representantes do setor produtivo. A passagem por Alagoas marcou a primeira viagem de sua chapa ao Nordeste desde o início oficial da campanha presidencial.

O estado também possui importância estratégica para a candidatura porque o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), escolhido como vice na chapa de Flávio, é alagoano.

Arthur Lira também comparece à celebração

Outras lideranças políticas participaram do evento religioso.

Entre elas estavam Alfredo Gaspar e o ex-presidente da Câmara dos Deputados Arthur Lira (PP-AL), candidato ao Senado nas eleições deste ano.

Lira não participou dos primeiros compromissos realizados por Flávio durante o dia em Maceió, mas apareceu ao lado do candidato presidencial durante a celebração da Assembleia de Deus.

Também foram chamados ao altar outros políticos e candidatos presentes na igreja.

O pastor José Orisvaldo Nunes de Lima apresentou alguns deles nominalmente aos fiéis e pediu orações pelas autoridades e pelos participantes das eleições.

Na sequência, José Wellington Costa Junior fez a oração pelas campanhas, mencionando especificamente Flávio Bolsonaro e os candidatos aos demais cargos que estavam no local.

Templos têm restrições para propaganda eleitoral

A presença de candidatos em cerimônias religiosas não é, por si só, proibida. A legislação e a jurisprudência eleitoral, porém, estabelecem limites para a utilização dos templos durante campanhas.

A Lei das Eleições considera templos religiosos como bens de uso comum para fins eleitorais, mesmo quando são propriedades privadas. Por essa razão, há restrições à realização de propaganda nesses espaços.

O Tribunal Superior Eleitoral possui precedentes segundo os quais manifestações de apoio a candidaturas dentro de templos podem caracterizar propaganda eleitoral irregular mesmo quando não existe pedido explícito de voto.

Em decisão citada pela própria Corte, o TSE considerou irregular um discurso realizado em igreja que apresentava candidatos e associava o sucesso eleitoral à vontade religiosa, ainda que não houvesse solicitação direta de votos.

Isso não significa, entretanto, que qualquer oração, presença de candidato ou referência política em uma celebração religiosa produza automaticamente uma punição.

Cada situação precisa ser analisada individualmente pela Justiça Eleitoral, considerando o conteúdo das manifestações, o contexto, a participação dos candidatos e a eventual utilização da estrutura religiosa em benefício de uma campanha.

TSE não reconhece abuso religioso como categoria autônoma

Outro ponto importante envolve o chamado abuso de poder religioso.

A jurisprudência do TSE estabelece que não existe na legislação eleitoral uma modalidade autônoma de ilícito denominada “abuso de poder religioso”.

Condutas praticadas em ambientes religiosos, no entanto, podem ser investigadas quando estiverem associadas a modalidades previstas em lei, como abuso de poder político, abuso de poder econômico ou uso indevido dos meios de comunicação.

Em maio de 2026, por exemplo, o TSE manteve a improcedência de uma ação envolvendo suposto abuso de poder político com viés religioso durante um evento realizado em Maragogipe, na Bahia. Os ministros entenderam que não havia provas suficientes para caracterizar a irregularidade naquele caso.

No episódio ocorrido nesta terça-feira em Maceió, não há, até o momento, decisão da Justiça Eleitoral declarando que a oração ou a participação de Flávio Bolsonaro no culto configuraram irregularidade.

Aproximação com eleitorado evangélico

A agenda também evidencia a importância atribuída ao segmento evangélico na estratégia eleitoral do candidato do PL.

Flávio vem participando de encontros com lideranças religiosas e eventos ligados a denominações evangélicas. Em abril deste ano, ele esteve em uma reunião da Assembleia de Deus Ministério do Belém, em São Paulo, ocasião em que também recebeu uma oração de José Wellington Costa Junior.

A presença em Maceió ocorreu em meio à tentativa da campanha de ampliar a atuação no Nordeste, região onde o campo político ligado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mantém forte presença eleitoral.

Durante sua agenda em Alagoas, Flávio combinou atividades de rua, reuniões com empresários, entrevistas e compromissos religiosos.

A oração realizada na Assembleia de Deus colocou novamente em evidência um tema recorrente nas eleições brasileiras: até onde podem ir as manifestações de líderes religiosos em favor de candidatos dentro dos templos.

A resposta depende das características de cada episódio e, quando há questionamento formal, cabe à Justiça Eleitoral determinar se os limites definidos pela legislação foram ou não ultrapassados.

*Da Agência Fonte Exclusiva

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