O governo brasileiro negou os pedidos de visto de dois representantes do Departamento de Estado dos Estados Unidos que pretendiam viajar a Brasília para tratar de temas relacionados às eleições de 2026.
A decisão atingiu Riley M. Barnes, secretário-assistente do Escritório de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, e Samuel Samson, secretário-assistente adjunto do mesmo órgão.
Segundo informações divulgadas pela imprensa internacional, os vistos foram recusados na sexta-feira (24). O Itamaraty confirmou a medida, mas não apresentou publicamente todos os detalhes que fundamentaram a decisão.
Suspeita sobre objetivo da viagem
Durante a solicitação dos documentos, os representantes norte-americanos informaram que pretendiam participar de reuniões com autoridades e integrantes de instituições envolvidas no processo eleitoral brasileiro.
O governo brasileiro, no entanto, teria recebido indicações de que a visita poderia ser utilizada para levantar questionamentos sobre a segurança das urnas eletrônicas e a legitimidade do processo de votação.
Diante dessa avaliação, a entrada da delegação foi considerada incompatível com a preservação da soberania nacional e com o funcionamento independente das instituições eleitorais.
O Departamento de Estado confirmou que Barnes e Samson planejavam viajar ao Brasil, mas não informou quais autoridades, organizações ou representantes políticos fariam parte da agenda.
Também não houve esclarecimento detalhado sobre os temas que seriam discutidos durante os encontros.
Urnas voltam ao centro do debate
O episódio ocorre em um momento de intensificação do debate político sobre o sistema eletrônico de votação utilizado no Brasil.
O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro defendeu recentemente a presença de observadores internacionais nas eleições e mencionou uma suposta relação entre as urnas brasileiras e a empresa Smartmatic.
O Tribunal Superior Eleitoral esclareceu novamente que a companhia não fornece as urnas nem os programas utilizados nas eleições brasileiras.
Segundo o tribunal, todo o projeto do equipamento e do sistema eletrônico de votação foi desenvolvido e é administrado pela própria Justiça Eleitoral.
A Smartmatic teve participação limitada em atividades de suporte técnico no passado, sem atuar na fabricação dos equipamentos, no desenvolvimento dos programas ou na totalização dos votos.
O esclarecimento já havia sido divulgado pelo TSE em outras ocasiões, após a circulação de mensagens falsas que relacionavam a empresa ao sistema brasileiro.
TSE destaca fiscalização e auditoria
A Justiça Eleitoral afirma que os programas utilizados nas eleições passam por diferentes etapas de fiscalização.
Partidos políticos, Ministério Público, Ordem dos Advogados do Brasil, universidades e entidades técnicas autorizadas podem inspecionar os códigos-fonte e acompanhar procedimentos de segurança.
As urnas eletrônicas também não ficam conectadas à internet durante a votação. Os resultados de cada seção são registrados nos boletins de urna, disponibilizados para fiscalização e conferência pública.
Entre as medidas de controle estão os testes públicos de segurança, a cerimônia de lacração dos sistemas, os testes de integridade realizados no dia da eleição e o acompanhamento das entidades fiscalizadoras.
Em junho, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, apresentou esses mecanismos a embaixadores e representantes de missões diplomáticas.
O encontro também abordou o combate à desinformação, a proteção cibernética e os riscos do uso irregular de inteligência artificial durante a campanha eleitoral.
Relação entre Brasil e Estados Unidos enfrenta desgaste
A negativa dos vistos amplia o ambiente de tensão diplomática entre Brasília e Washington.
Os dois governos acumulam divergências relacionadas a questões comerciais, decisões judiciais envolvendo integrantes do grupo político de Jair Bolsonaro e críticas norte-americanas dirigidas às instituições brasileiras.
Para representantes do governo brasileiro, a possível atuação de agentes estrangeiros no debate sobre as urnas poderia influenciar o ambiente político antes da votação de outubro.
O governo dos Estados Unidos, por outro lado, costuma incluir liberdade de expressão, democracia e integridade eleitoral entre os temas tratados por sua política externa.
Até o momento, não foi divulgada uma reação formal detalhada do Departamento de Estado à negativa dos documentos.
Também não há informações sobre uma nova solicitação de vistos, substituição dos integrantes da delegação ou tentativa de realização das reuniões por outros canais.
Observadores internacionais poderão acompanhar eleição
A decisão brasileira não impede a atuação de missões internacionais oficialmente credenciadas para acompanhar o processo eleitoral.
Instituições convidadas ou autorizadas pela Justiça Eleitoral poderão observar a votação dentro das regras estabelecidas pelo TSE.
A restrição atinge especificamente uma missão que, na avaliação do governo, poderia ter finalidade político-partidária ou ser usada para ampliar dúvidas sobre a legitimidade da eleição.
O episódio aumenta a atenção internacional sobre a disputa presidencial brasileira e indica que o sistema eletrônico de votação continuará ocupando espaço central no debate político.
Até outubro, temas como segurança das urnas, fiscalização, observação internacional, inteligência artificial e combate à desinformação deverão permanecer entre os principais assuntos da campanha.
*Da Agência Fonte Exclusiva
