A relação entre Brasil e Israel ganhou um novo capítulo de tensão após o governo brasileiro não autorizar a nomeação de Vivian Aisen para comandar o consulado-geral israelense em São Paulo. A diplomata, que nasceu no Brasil e também possui cidadania israelense, teve sua indicação barrada pelo Itamaraty, segundo informações divulgadas pela Folha de S.Paulo.
O governo brasileiro apontou a dupla nacionalidade como impedimento para a concessão do chamado exequatur, autorização necessária para que um agente consular estrangeiro exerça oficialmente suas funções no país. O Itamaraty afirmou que processos desse tipo são rotineiros e sigilosos e, por isso, não comentou detalhes do caso.
Vivian Aisen nasceu no Brasil e se mudou ainda jovem para Israel, onde construiu carreira diplomática. Segundo pessoas familiarizadas com o episódio ouvidas pela Folha, ela teria sinalizado disposição para abrir mão da cidadania brasileira para tentar viabilizar sua nomeação em São Paulo. A medida, porém, não foi suficiente para resolver o impasse.
Com a indicação frustrada, o consulado-geral de Israel em São Paulo deverá ficar sem um novo titular após o término da missão de Rafael Erdreich. O posto é considerado estratégico para a representação israelense no Brasil.
Vivian Aisen assume novo posto na Colômbia
A diplomata acabou sendo direcionada para outra missão. Israel confirmou Vivian Aisen como sua nova embaixadora na Colômbia, em um movimento relacionado à tentativa de reconstrução das relações entre os dois países latino-americanos.
A escolha ocorre durante a transição para o governo do presidente eleito Abelardo de la Espriella, que assumirá o cargo em agosto. O novo governo colombiano sinalizou intenção de retomar os vínculos com Israel e de transferir a embaixada colombiana para Jerusalém.
Aisen já possui experiência na região e anteriormente ocupou o cargo de embaixadora de Israel na Macedônia. A nova missão também coloca a diplomata em uma posição relevante diante da tentativa de aproximação entre Israel e a Colômbia.
Brasil e Israel já enfrentavam impasse diplomático
O episódio envolvendo o consulado paulista não é isolado. Brasil e Israel atravessam uma fase de forte desgaste diplomático desde 2024, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou duramente a atuação militar israelense na Faixa de Gaza.
Em fevereiro daquele ano, durante uma viagem à Etiópia, Lula comparou a ofensiva israelense em Gaza à perseguição promovida pela Alemanha nazista contra os judeus durante a Segunda Guerra Mundial. A declaração provocou uma reação do governo de Benjamin Netanyahu e elevou significativamente a tensão entre Brasília e Tel Aviv.
Após o episódio, o então embaixador brasileiro em Israel, Frederico Meyer, foi convocado para uma reprimenda no memorial Yad Vashem. Posteriormente, o governo brasileiro retirou o diplomata de Tel Aviv e não nomeou um substituto para o cargo.
Israel também está sem embaixador no Brasil
A representação diplomática israelense em Brasília enfrenta situação semelhante. Em 2025, Israel indicou Gali Dagan para ocupar o posto de embaixador no Brasil, mas o governo brasileiro não concedeu o aval necessário para a nomeação.
O impasse levou Israel a retirar formalmente a indicação. Desde então, o país permanece sem um embaixador efetivo em Brasília, mantendo a relação diplomática em nível inferior.
A ausência de representantes titulares em postos diplomáticos importantes evidencia a dimensão do desgaste entre os dois governos. O novo episódio envolvendo a indicação de Vivian Aisen para São Paulo ocorre, portanto, em um cenário no qual as relações bilaterais já estavam fragilizadas.
Netanyahu manifesta apoio a Flávio Bolsonaro
A tensão diplomática também passou a se relacionar com a política brasileira. Durante a convenção nacional do PL que lançou a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República, Benjamin Netanyahu enviou uma mensagem de apoio ao senador.
No vídeo apresentado no evento, o primeiro-ministro israelense chamou Flávio de amigo e destacou a defesa da relação entre Brasil e Israel. A manifestação ocorreu enquanto os governos brasileiro e israelense permanecem em lados opostos em relação a diversos aspectos da política externa e da guerra em Gaza.
Novo capítulo de uma relação fragilizada
A negativa à nomeação de Vivian Aisen para o consulado em São Paulo acrescenta mais um ponto de atrito à relação entre Brasil e Israel. Embora o Itamaraty tenha apresentado a dupla nacionalidade como justificativa para o impedimento, pessoas próximas às negociações avaliam que o momento delicado da relação bilateral também contribuiu para o desfecho.
Enquanto Israel segue sem embaixador efetivo em Brasília, o consulado-geral em São Paulo deverá passar por uma mudança de comando. A diplomata que havia sido indicada para o posto, por sua vez, seguirá para a Colômbia, onde terá a missão de representar Israel em um momento de reaproximação entre os dois países.
O caso reforça como a crise diplomática entre Brasília e Tel Aviv continua produzindo consequências práticas para a representação dos dois países, mesmo sem que tenha ocorrido um rompimento formal das relações.
*Da Agência Fonte Exclusiva
