A França voltou a endurecer o cerco contra a Shein e aplicou duas novas multas à gigante chinesa do fast fashion. As penalidades, anunciadas na quarta-feira, 3 de junho, somam mais de 22 milhões de euros e fazem parte de uma ofensiva mais ampla do governo francês contra plataformas internacionais de moda ultrarrápida.
As sanções foram aplicadas pela autoridade francesa de defesa do consumidor e repressão a fraudes, a DGCCRF. O órgão apontou falhas relacionadas a informações obrigatórias em confirmações de pedidos, regras de devolução, direito de arrependimento e transparência ambiental sobre os produtos vendidos na plataforma.
A maior multa, de 16,7 milhões de euros, foi aplicada porque e-mails de confirmação de compra enviados pela plataforma não traziam informações consideradas essenciais pelas regras francesas, como preço, identificação do vendedor e prazo de entrega. Segundo as autoridades, esses dados até podiam aparecer em outras áreas acessadas pelo cliente, mas deveriam constar de forma clara também nas mensagens de confirmação do pedido.
A segunda penalidade, de 5,7 milhões de euros, está relacionada ao descumprimento de normas sobre o direito de arrependimento e à falta de informações ambientais. Na França, consumidores de e-commerce têm direito a um prazo de 14 dias para desistir de determinadas compras. A investigação também apontou ausência de dados exigidos sobre rastreabilidade, origem e impacto ambiental de produtos têxteis.
A Shein contestou as multas e classificou as sanções como desproporcionais e discriminatórias. A empresa afirma que as irregularidades apontadas seriam questões técnicas, que não teriam causado prejuízo direto aos consumidores, e informou que pretende recorrer da decisão.
As novas punições ampliam o histórico de pressão regulatória contra a varejista na França. Segundo o Le Monde, as multas aplicadas à Shein no país já somam mais de 210 milhões de euros no período recente, incluindo sanções anteriores por violações relacionadas a cookies e práticas comerciais consideradas enganosas.
O caso reforça a resistência francesa ao modelo de negócio do fast fashion, marcado por grande volume de peças, preços baixos, produção acelerada e forte dependência de plataformas digitais. Autoridades francesas e representantes do setor de moda local afirmam que empresas como Shein e Temu exercem concorrência desleal contra marcas nacionais e pequenos varejistas, além de aumentarem a pressão ambiental sobre a cadeia têxtil.
A disputa ganhou força em 2025, quando a França passou a discutir medidas mais rígidas contra a moda ultrarrápida. Entre as propostas em debate estão regras de transparência ambiental, restrições a publicidade de marcas de fast fashion e mecanismos de cobrança sobre encomendas de baixo valor vindas de plataformas estrangeiras.
Além das questões ambientais e comerciais, a Shein também enfrentou desgaste na França após casos envolvendo produtos proibidos vendidos em sua plataforma. Em 2025, o governo francês chegou a buscar a suspensão temporária da operação da empresa no país após a identificação de itens ilegais em seu marketplace, como bonecas sexuais com aparência infantil e armas proibidas.
A ofensiva francesa ocorre em meio a uma discussão global sobre os impactos do consumo acelerado de roupas. Críticos do fast fashion apontam problemas como descarte excessivo de peças, uso intenso de materiais sintéticos, emissão de gases de efeito estufa, pressão sobre fornecedores e dificuldade de fiscalização em cadeias produtivas internacionais.
Para o governo francês, a regulação mais dura busca proteger consumidores, reduzir danos ambientais e garantir condições mais equilibradas de concorrência. Para a Shein, porém, as punições fazem parte de um ambiente regulatório excessivamente severo e direcionado contra plataformas estrangeiras.
A disputa ainda deve continuar nos próximos meses. Enquanto a França tenta se posicionar como uma das principais vozes europeias contra o fast fashion, a Shein busca preservar seu espaço no mercado francês, um dos mais simbólicos do mundo para a indústria da moda.
*Da Agência Fonte Exclusiva
