A decisão da Rússia de suspender o transporte de petróleo do Cazaquistão para a Alemanha por meio do Oleoduto Druzhba marca um novo momento de pressão sobre o abastecimento energético europeu.
A medida amplia as incertezas em um cenário global já tensionado no setor.
O anúncio foi feito pelo vice-primeiro-ministro russo, Alexander Novak, que informou que o fluxo será redirecionado para outras rotas a partir de 1º de maio.
Desde 2023, o petróleo cazaque vinha sendo utilizado como alternativa ao fornecimento direto russo, especialmente após sanções e mudanças geopolíticas no mercado europeu.
Um dos principais pontos de preocupação é a refinaria de Schwedt, responsável por grande parte do abastecimento da região de Berlim. A unidade depende desse fluxo para cerca de 17% de sua demanda.
Sem o volume transportado pelo Druzhba, a capacidade operacional pode cair para menos de 60%, nível considerado insuficiente para a viabilidade econômica da planta.
Nos últimos anos, a Alemanha ampliou significativamente a importação de petróleo do Cazaquistão. O volume passou de 993 mil toneladas em 2023 para 2,1 milhões em 2025, com previsão de atingir 2,5 milhões em 2026.
Apenas no primeiro trimestre deste ano, cerca de 730 mil toneladas já haviam sido entregues, indicando maior dependência dessa fonte.
Apesar do impacto potencial, o governo alemão afirma que não há risco imediato de desabastecimento.
A ministra da Economia, Katherina Reiche, destacou rotas alternativas, como o uso de portos em Gdansk e Rostock. No entanto, essas vias têm capacidade menor: enquanto o Druzhba operava com até 240 mil barris por dia, o sistema alternativo via Polônia alcança cerca de 150 mil barris diários.
Especialistas apontam dificuldades na substituição rápida desse fornecimento. O cientista político Frank Umbach avalia que o ritmo dessa transição é incerto, enquanto o economista Andreas Löschel defende a busca imediata por novas alternativas.
A crise também começa a afetar o setor aéreo. A Associação Internacional de Transporte Aéreo alertou para o risco de cancelamentos de voos na Europa a partir do fim de maio, caso persistam falhas no abastecimento.
A Lufthansa já anunciou a redução de 20 mil voos de curta distância até outubro, como forma de economizar cerca de 40 mil toneladas de combustível.
O aumento do preço do querosene, que dobrou desde o início das tensões no Oriente Médio, agrava o cenário.
A Alemanha consome cerca de 9 milhões de toneladas desse combustível por ano, mas produziu recentemente 4,8 milhões, sendo parte destinada à exportação, o que amplia a dependência de importações.
As reservas estratégicas somam aproximadamente 1 milhão de toneladas, volume suficiente para cerca de seis semanas sem reposição.
O alerta foi reforçado pelo diretor da Agência Internacional de Energia, Fatih Birol, que classificou o momento como uma das maiores crises energéticas recentes, com possíveis impactos globais, como a elevação dos preços de combustíveis e energia.
Mesmo com as garantias do governo alemão, a combinação de restrições no fornecimento de petróleo e a pressão sobre o mercado energético mantém elevado o risco de instabilidade no curto prazo, com possíveis reflexos além da Europa.
*Da Agência Fonte Exclusiva
