Depois de uma reunião do seu Comitê de Segurança Nacional, o governo da Polônia, país-membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), confirmou que uma explosão deixou dois mortos perto da fronteira com a Ucrânia, mas não confirmou os relatos, divulgados mais cedo pela agência de notícias Associated Press, de que a região teria sido atingida por mísseis da Rússia, num dia de fortes bombardeios contra a infraestrutura ucraniana.
— As autoridades estão no local investigando o caso e continuarão a investigar por toda a noite ou o tempo que for necessário para esclarecer esse caso — disse Piotr Muller, o porta-voz do governo.
A explosão, cuja origem também não foi confirmada ainda pela Otan ou pelos EUA, teria atingido um silo de grãos em Przewodow, um vilarejo no Leste do país a cerca de seis quilômetros da fronteira ucraniana. Um vídeo de três segundos verificado pelo New York Times mostra uma única explosão perto de um local de estocagem de grãos no local.
O vídeo não deixa clara a origem da detonação. Imagens que circulam em redes sociais na Polônia e que não foram verificadas mostram uma cratera e um trailer virado, aparentemente com grãos, segundo a BBC. Outra imagem também não verificada parece mostrar o fragmento de um míssil.
Mais cedo, diante dos relatos que a Associated Press atribuía a uma fonte da Inteligência americana, o Ministério da Defesa da Rússia afirmou que tratava-se de uma “provocação” e negou que seus militares tenham atirado contra alvos próximos à fronteira polonesa. Pelo tratado da Otan, os 30 países-membros da aliança militar liderada pelos Estados Unidos se comprometem a defender conjuntamente qualquer um deles que tenha sofrido um ataque externo.
O primeiro-ministro polonês Mateusz Morawiecki e o presidente Andrzej Duda convocaram então a reunião extraordinária do Comitê de Segurança Nacional. Depois do encontro, o porta-voz Piotr Mueller anunciou também que o governo decidiu elevar o nível de alerta “de algumas unidades de combate”, mas não esclareceu a origem das explosões.
Já o Ministério da Defesa russo publicou no Telegram que “as declarações da mídia polonesa e de autoridades sobre uma suposta queda de mísseis russos perto da cidade de Przewodow são uma provocação intencional que busca agravar a situação”.
De acordo com o ministério, “nenhum ataque foi realizado a alvos perto da fronteira ucraniana-polonesa”. As imagens de “destroços publicadas pela mídia polonesa (…) da cidade de Przewodow não têm relação” com as bombas russas, acrescentou a nota.
O ministro do Exterior da Ucrânia, Dmytro Kuleba, também disse numa postagem no Twitter que a explosão na Polônia não foi causada por um míssil da defesa antiaérea do país.
Mais cedo nesta terça-feira, a Rússia bombardeou infraestruturas de energia em várias cidades da Ucrânia, inclusive a capital Kiev, que ficou parcialmente sem eletricidade. Alguns dos ataques atingiram a cidade de Lviv, a cerca de 100 quilômetros da fronteira com a Polônia.
De acordo com a Força Aérea ucraniana, a Rússia lançou 90 mísseis, dos quais 70 teriam sido derrubados por sua defesa aérea. Em Kiev, dois prédios residenciais foram atingidos, um deles por destroços de um míssil russo derrubado.
Um alto funcionário da Otan informou, sob anonimato, que a aliança já investiga o caso em “estreita coordenação com nossa aliada Polônia”. O secretário-geral da aliança, Jens Stoltenberg, escreveu no Twitter que “monitora a situação” e que “é importante que todos os fatos sejam esclarecidos”. Por sua vez, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos informou que não pode confirmar as informações, mas que também conduz uma investigação.
— Estamos cientes dos relatos da imprensa de que dois mísseis russos atingiram o interior da Polônia, na fronteira com a Ucrânia — disse o porta-voz do Pentágono, Patrick Ryder, ressaltando que ainda não há “informações corroborantes” de que realmente houve um ataque com mísseis ou de que projéteis russos tenham se desviado de sua trajetória.
Apenas o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e o governo da Letônia, antiga república soviética hoje membro da Otan, acusaram diretamente a Rússia. Zelensky disse que Moscou promoveu uma “escalada muito significativa” do conflito e sugeriu uma intervenção direta dos países da aliança militar ocidental— algo que os Estados Unidos e seus aliados têm evitado, pelo risco de uma guerra que engolfaria toda a Europa.
— Mísseis russos atingiram a Polônia hoje, o território de um país aliado. Pessoas foram mortas. Por favor, aceite nossas condolências — disse Zelensky. — Disparar mísseis contra o território da Otan é um ataque russo à segurança coletiva. É uma escalada muito significativa. Devemos agir.
Já o vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa da Letônia, Artis Pabriks, afirmou em uma postagem no Twitter que mísseis russos “caíram no território da Otan na Polônia”. “A Letônia apoia totalmente os amigos poloneses e condena este crime”, acrescentou. A Hungria, por sua vez, também convocou o Conselho de Defesa após os relatos, informou a AFP.
Nas primeiras semanas após a invasão russa da Ucrânia, Jens Stoltenberg, o secretário-geral da Otan, já havia alertado para a possibilidade de incidentes do tipo se espalharem para o território de países da aliança, enfatizando a importância dos canais de comunicação militar com a Rússia para evitar que possíveis mal-entendidos saíssem do controle.
— Quando vemos mais atividades militares, quando vemos combates acontecendo perto das fronteiras da Otan, sempre há um risco — disse Stoltenberg em março.
