Pela primeira vez desde a criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma proposta formal que defende a saída da França da aliança foi apresentada à Assembleia Nacional. A iniciativa reacende um debate sensível sobre a política de defesa francesa em um momento de forte tensão nas relações entre Europa e Estados Unidos.
A resolução foi protocolada no dia 9 de janeiro por Clémence Guetté, vice-presidente da Assembleia Nacional e integrante do partido de esquerda La France Insoumise. O texto propõe uma retirada progressiva da França da OTAN, começando pelo abandono da estrutura de comando militar integrado.
Segundo Guetté, a permanência na aliança deixou de atender aos interesses estratégicos do país diante do que ela classifica como um retorno dos Estados Unidos a práticas de caráter imperial. Entre os argumentos citados estão recentes ações militares norte-americanas, pressões econômicas sobre aliados europeus, sanções envolvendo o setor de tecnologia e exigências de aumento significativo dos gastos militares dos membros da OTAN.
Em declarações ao jornal Berliner Zeitung, a parlamentar afirmou que seguir vinculada a uma aliança liderada por uma potência que, segundo ela, desrespeita o direito internacional pode expor a França a conflitos contrários aos seus interesses nacionais. Defensores da proposta sustentam que a saída permitiria ao país recuperar maior autonomia diplomática e militar, fortalecendo sua atuação em organismos multilaterais como a ONU e a OSCE.
Apesar do impacto simbólico, o caminho político da resolução é incerto. O La France Insoumise ocupa cerca de 71 das 577 cadeiras da Assembleia Nacional e integra uma coalizão de centro-esquerda que forma o maior bloco parlamentar. Outros partidos críticos à OTAN, como a Reunião Nacional, liderada por Marine Le Pen, adotam atualmente uma postura mais cautelosa, sobretudo em razão da guerra na Ucrânia.
Analistas avaliam que a proposta tem poucas chances de resultar em uma retirada efetiva no curto prazo. O Robert Lansing Institute observa que, embora resoluções parlamentares tenham peso político, elas não alteram automaticamente a política externa francesa, que segue fortemente ancorada na OTAN como pilar de segurança.
O debate ocorre em um contexto de pressão crescente sobre a aliança atlântica. Declarações recentes do presidente americano sobre a Groenlândia levaram países europeus a reforçar sua presença militar na região. O presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou inclusive o fortalecimento do contingente francês no território ártico e voltou a defender uma maior autonomia estratégica da Europa, acompanhada de um robusto plano de rearmamento.
A iniciativa parlamentar também remete a um precedente histórico: em 1966, sob o comando do então presidente Charles de Gaulle, a França deixou o comando militar integrado da OTAN, decisão revertida apenas em 2009. A possibilidade de um novo afastamento, porém, dependerá menos do simbolismo legislativo e mais da evolução das relações entre Washington e seus aliados europeus.
*Da Agência Fonte Exclusiva
