A tentativa de Washington de endurecer a cobrança sobre produtos brasileiros encontrou oposição entre grandes empresas dos próprios Estados Unidos. Multinacionais com forte presença no mercado norte-americano passaram a pressionar o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, para que itens importados do Brasil sejam excluídos das novas tarifas em análise pelo governo.
Entre as companhias que apresentaram manifestações estão Tesla, Coca-Cola, Nestlé e eBay. As empresas afirmam que a aplicação de tarifas adicionais pode desorganizar cadeias de suprimentos, elevar custos de produção, encarecer produtos para consumidores e reduzir a competitividade de negócios norte-americanos que dependem de insumos brasileiros.
A proposta faz parte de uma investigação comercial conduzida com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos. Esse instrumento permite que o governo norte-americano adote medidas contra práticas consideradas prejudiciais ao comércio do país. No caso brasileiro, Washington avalia a imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos.
O governo dos Estados Unidos afirma que a investigação envolve temas como comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas consideradas preferenciais, proteção de propriedade intelectual, combate à corrupção, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.
As empresas, porém, argumentam que uma cobrança ampla pode atingir produtos que não têm relação direta com os pontos levantados pela investigação. Para elas, a medida poderia punir cadeias comerciais legítimas e transferir parte dos custos para consumidores e companhias instaladas nos Estados Unidos.
As manifestações foram encaminhadas individualmente ao USTR no dia 1º de julho. Cada empresa apresentou pedidos específicos de exclusão, de acordo com os produtos brasileiros considerados essenciais para suas operações.
A Tesla pediu que insumos industriais usados na produção de veículos elétricos, robôs, baterias e outros componentes tecnológicos fiquem fora da tarifa adicional. A montadora afirma que busca ampliar e diversificar fornecedores, mas destaca que alguns materiais vindos do Brasil ainda não contam com substitutos disponíveis nos Estados Unidos em volume, qualidade ou regularidade suficientes.
Para a empresa, a aplicação de barreiras comerciais nesse momento poderia elevar custos, dificultar a reorganização da cadeia produtiva e afetar setores considerados estratégicos para inovação, mobilidade elétrica e automação.
A Nestlé também solicitou exceções para produtos usados em sua linha de produção. A companhia destacou o café solúvel não aromatizado e o colágeno bovino brasileiro. Segundo a empresa, não há produção comercial de café nos Estados Unidos em escala capaz de substituir o fornecimento externo.
No caso do colágeno bovino, a Nestlé sustenta que o Brasil tem papel relevante no abastecimento global. A cobrança de tarifas, segundo a companhia, poderia afetar a fabricação de alimentos, bebidas e suplementos destinados ao mercado norte-americano.
A Coca-Cola concentrou sua preocupação nos derivados cítricos. A empresa pediu que produtos ligados à laranja brasileira continuem isentos e que itens derivados de limão também sejam excluídos da cobrança ou recebam regras de transição.
A justificativa está relacionada à queda da produção de frutas cítricas nos Estados Unidos, especialmente na Flórida. Doenças, pragas, perdas de produtividade e eventos climáticos reduziram a oferta local, aumentando a dependência de insumos importados para a indústria de bebidas.
O eBay defendeu tratamento diferenciado para produtos usados e seminovos vendidos por meio da plataforma. A empresa argumenta que esses itens não concorrem diretamente com mercadorias novas fabricadas nos Estados Unidos e que seria difícil identificar a origem de cada produto revendido.
Segundo a plataforma, muitos artigos de segunda mão circulam sem etiquetas, documentos ou registros claros de fabricação. Por isso, aplicar tarifas sobre esse tipo de mercadoria poderia criar custos operacionais elevados, prejudicar pequenos vendedores e afetar consumidores que utilizam o comércio eletrônico para comprar ou revender produtos usados.
A reação das empresas mostra que os efeitos de uma tarifa contra o Brasil podem ultrapassar a relação bilateral entre os dois países. Mesmo tendo como alvo produtos brasileiros, a medida pode atingir diretamente companhias norte-americanas que utilizam esses insumos em suas cadeias produtivas.
No setor de alimentos e bebidas, o Brasil é fornecedor relevante de café, derivados cítricos, ingredientes agrícolas e matérias-primas industriais. Já em áreas como tecnologia, energia e indústria automotiva, determinados materiais fazem parte de cadeias globais complexas, nas quais a substituição de fornecedores exige tempo, testes, certificações e adaptação logística.
Para as multinacionais, uma tarifa generalizada poderia gerar efeito contrário ao pretendido. Em vez de proteger empresas norte-americanas, a medida poderia encarecer insumos, reduzir margens, atrasar investimentos e pressionar preços ao consumidor final.
A proposta tarifária também preocupa o setor produtivo brasileiro. Uma cobrança adicional sobre produtos nacionais pode reduzir a competitividade das exportações, encarecer mercadorias brasileiras no mercado norte-americano e afetar empresas que dependem dos Estados Unidos como destino comercial.
A discussão ocorre em um momento de tensão nas relações entre Brasília e Washington. Além das divergências comerciais, os dois países enfrentam atritos em temas diplomáticos, de segurança e de cooperação internacional.
As audiências públicas sobre a proposta começaram nos Estados Unidos. O USTR deverá analisar as contribuições enviadas por empresas, associações setoriais, representantes políticos e demais interessados antes de definir a lista final de produtos atingidos ou excluídos das tarifas.
Para o Brasil, a mobilização de empresas norte-americanas pode reforçar a defesa de uma solução negociada. Ao mostrar que companhias dos próprios Estados Unidos temem prejuízos com a medida, o governo brasileiro ganha argumento adicional para tentar reduzir o alcance das tarifas.
A decisão final ainda depende da avaliação do governo norte-americano. Enquanto Washington afirma buscar correções para práticas comerciais consideradas problemáticas, grandes empresas alertam que uma sobretaxa ampla pode desorganizar cadeias produtivas e gerar custos dentro da própria economia dos Estados Unidos.
O caso evidencia a interdependência do comércio global. Em cadeias produtivas cada vez mais conectadas, uma medida criada para pressionar outro país pode acabar afetando empresas, trabalhadores e consumidores da própria nação que impõe a tarifa.
*Da Agência Fonte Exclusiva
