Canadá rompe confiança em órgãos de saúde dos EUA e alerta para riscos na vacinação

Governo canadense teme que posições antivacina do governo Trump influenciem decisões de saúde no país

Especialistas e autoridades do Canadá alertam que a desinformação do governo Trump afeta a credibilidade de instituições de saúde dos EUA.

Reprodução | Agência Brasil

Autoridades de saúde do Canadá passaram a alertar que instituições científicas e sanitárias dos Estados Unidos já não podem ser consideradas fontes plenamente confiáveis de informação, especialmente no que diz respeito às vacinas. O receio é que a disseminação de desinformação pelo governo de Donald Trump impacte negativamente a confiança dos canadenses na saúde pública.

Especialistas afirmam que mensagens equivocadas vindas de órgãos norte-americanos podem atravessar a fronteira e influenciar decisões no Canadá. Para a imunologista Dawn Bowdish, professora da Universidade McMaster, em Ontário, é inevitável que esse conteúdo alcance a população. Segundo ela, a circulação de informações falsas tende a gerar dúvidas e insegurança, sobretudo entre pais que decidem sobre a vacinação infantil.

As preocupações aumentaram após o secretário de Saúde dos Estados Unidos, Robert F. Kennedy Jr., adotar posições alinhadas ao movimento antivacina. Em dezembro, um comitê indicado por ele retirou a recomendação histórica dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) para a vacinação de recém-nascidos contra hepatite B. Além disso, o site do CDC foi alterado para afirmar que estudos não teriam descartado a relação entre vacinas e autismo — uma tese rejeitada pela comunidade científica internacional.

Para Bowdish, esse tipo de posicionamento enfraquece o combate à desinformação e dificulta a preservação da confiança nas campanhas de imunização no Canadá. Ela avalia que o afastamento das instituições norte-americanas dos princípios da saúde pública cria um vácuo perigoso de credibilidade.

Em dezembro, a ministra da Saúde do Canadá, Marjorie Michel, reforçou essa avaliação ao declarar que os órgãos de saúde e ciência dos Estados Unidos deixaram de ser parceiros confiáveis. Em entrevistas à imprensa canadense, a ministra afirmou não poder mais depender dessas instituições e reconheceu que parte da população pode ser influenciada pelas posições defendidas por Kennedy.

O alerta ocorre em um momento delicado para a saúde pública canadense. Em novembro, o país perdeu o status de eliminação do sarampo após registrar mais de 5 mil casos ao longo do ano. Autoridades de saúde associam o avanço da doença à queda nas taxas de vacinação infantil, ao acesso limitado a médicos de família e à ampliação da desinformação desde a pandemia de Covid-19.

Outro fator citado por especialistas é a restrição ao compartilhamento de notícias no Canadá por plataformas da Meta, consequência de disputas regulatórias com o governo. Segundo Bowdish, essa limitação dificulta a disseminação de informações confiáveis de saúde pública.

Dados oficiais mostram que, em 2021, 2,1% das crianças canadenses de dois anos não haviam recebido nenhuma vacina, índice superior ao registrado em 2019. À época, muitos pais apontaram preocupações com segurança ou eficácia das vacinas. Embora essas razões estivessem frequentemente ligadas à falta de acesso a médicos, especialistas acreditam que o peso da desinformação aumentou nos últimos anos.

Uma pesquisa recente da Leger Healthcare indicou que, embora a maioria dos canadenses ainda confie nas vacinas, a hesitação cresce impulsionada por conteúdos circulando nas redes sociais e pela desconfiança em relação a governos. O levantamento mostrou ainda que parte dos entrevistados que desconfiam da vacinação busca informações em sites do governo dos Estados Unidos.

Para o médico Kumanan Wilson, professor da Universidade de Ottawa, o Canadá precisa fortalecer seus próprios sistemas de vigilância em saúde e ampliar a cooperação com outros países, reduzindo a dependência das instituições norte-americanas. Ele avalia que isso pode transformar o país em referência global na produção de dados confiáveis.

Já o economista da saúde Michel Grignon, também da Universidade McMaster, pondera que a desconfiança nas vacinas tem raízes internas. Segundo ele, o enfraquecimento das redes de proteção social e a polarização intensificada durante a pandemia contribuíram para a erosão da confiança nas autoridades, como ficou evidente nos protestos contra medidas sanitárias em 2022.

Para Grignon, o Canadá precisa olhar para seus próprios desafios estruturais se quiser enfrentar a hesitação vacinal. “Somos, em grande parte, responsáveis pelo problema que enfrentamos hoje”, afirma.

*Da Agência Fonte Exclusiva

Sair da versão mobile