Bolsonaro ‘tentou dar golpe e contribuir para o meu assassinato’, diz Lula

bolsonaro assassinato de lula

(Ricardo Stuckert/PR)

Horas após o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) virar réu, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou no Japão que Bolsonaro “tentou dar um golpe no país” e “contribuir” para seu assassinato e de outras autoridades.

Essa foi a primeira declaração de Lula sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de acatar a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Bolsonaro e mais sete pessoas.

“É visível que o ex-presidente tentou dar um golpe no país, é visível por todas as provas que ele tentou contribuir para o meu assassinato, para o assassinato do vice-presidente, para o assassinato do ex-presidente da Justiça Eleitoral brasileira”, disse Lula em entrevista coletiva na manhã de quinta-feira (27/3, horário local; noite de quarta-feira 26/3 no horário de Brasília)

“Todo mundo sabe o que aconteceu nesse país. Não adianta agora ele ficar fazendo bravata, dizendo que está sendo perseguido. Ele sabe o que ele cometeu”, completou.

Segundo a PGR, Bolsonaro teria conhecimento e acompanhou a “evolução” do plano “Punhal Verde Amarelo”, que teria como objetivo matar o vice-presidente Geraldo Alckmin e o presidente Lula, além de matar ou restringir a liberdade do ministro Alexandre de Moraes — na época, também presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

“Não adianta ficar pedindo anistia antes do julgamento. Quando ele pede anistia antes do julgamento, significa que ele está dizendo que foi o culpado”, afirmou o presidente em Tóquio.

Entretanto, Lula disse que Bolsonaro deve receber um tratamento justo no processo.

“Defendo que ele tenha a presunção de inocência que eu não tive”, disse o petista, referindo-se a processos judiciais do qual foi alvo e à sua prisão por 580 dias, entre 2018 e 2019, devido a uma condenação em segunda instância que acabou anulada pelo STF.

Nesta quarta, a Primeira Turma do STF decidiu por unanimidade aceitar denúncia da PGR contra Bolsonaro, que agora é réu por acusações de tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito; tentativa de golpe de Estado; envolvimento em organização criminosa armada; dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado.

Outros sete denunciados cujos casos também foram avaliados pela Primeira Turma entre terça e quarta-feira também se tornaram réus.

Entre eles, estão três generais do Exército e ex-ministros durante o governo Bolsonaro: Augusto Heleno (ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional), Paulo Sérgio Nogueira (ex-ministro da Defesa) e Braga Netto (ex-ministro da Casa Civil).

Os oito réus fariam parte do que a PGR chamou de “núcleo crucial” de uma trama golpista contra a vitória de Lula nas eleições de 2022. Todos negam as acusações.

Após o encerramento do julgamento da denúncia, Bolsonaro reuniu a imprensa na saída do Senado e fez um longo discurso.

O ex-presidente afirmou que a acusação contra ele é “infundada” e destacou que não estava no Brasil no dia dos ataques de 8 de janeiro de 2023.

A acusação da PGR aponta que Bolsonaro teria liderado uma tentativa de golpe de Estado que culminou nos ataques.

“Espero colocar um ponto final nisso. A acusação contra mim é muito grave, infundada, e não é algo que eu diga da boca para fora. Parece que há algo pessoal contra mim”, disse a jornalistas.

O ex-presidente também voltou, na tarde desta quarta-feira, a colocar em dúvida a credibilidade do sistema eleitoral brasileiro.

Ele está inelegível até 2030 após ter sido punido pelo TSE por abuso de poder e uso indevido dos meios de comunicação ao colocar em dúvida a lisura das eleições de 2022.

Afago a Lira e Pacheco: ‘Rei morto não é rei posto’

Depois de levar em sua comitiva ao Japão os ex-presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), Lula fez afagos aos dois.

Questionado sobre o que o levou a decidir convidá-los — além dos dez ministros e dos atuais presidentes das duas casas legislativas, Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) —, Lula afirmou que “rei morto não é rei posto”.

“Rei é sempre rei”, disse.

A viagem à Ásia acontece num momento em que Lula lida com pressões de partidos de sua base diante de uma reforma ministerial a ser concluída.

“Eu não seria louco de trazer os companheiros dentro do avião, um espaço muito limitado pra gente fazer as discussões que a gente pode fazer o território brasileiro e lá em Brasília. Não seria louco. E não seria prudente. Imagina viajar todo mundo de cara feia no avião, sem se cumprimentar, sabe? Ir no banheiro e ficar esperando um na porta do banheiro já chutando a porta? Não”, brincou o presidente.

Lula disse ainda que o Congresso e o Executivo vão viver “o melhor momento da relação” e que “o presidente da República não é dono da razão”.

Antes das perguntas dos jornalistas, na abertura de sua fala, Lula já havia citado não só os atuais presidentes da Câmara e do Senado, mas também Lira e Pacheco.

O presidente disse, ainda, que fará questão de “toda vez que viajar convidar o presidente da Câmara, o presidente do Senado”.

“Já convidei muitas vezes o presidente da Suprema Corte, para a gente viajar junto, para gente retomar a normalidade democrática do país”.

Trump ‘não é xerife do mundo’

Respondendo à pergunta de uma jornalista japonesa sobre o anúncio de que os EUA vão tarifar em 25% importações de carros, Lula disse não ver benefício nesse tipo de medida — apontando que isso vai encarecer produtos para os americanos, o que pode gerar uma cadeia de aumento da inflação, dos juros e contenção da economia.

“Sinceramente, estou muito preocupado com o comportamento do governo americano, com essa taxação de todos os produtos de todos os países”, respondeu o presidente brasileiro, acrescentando que o livre comércio e o multilateralismo estão sendo derrotados.

“Estou preocupado porque o presidente americano não é xerife do mundo. Ele é apenas presidente dos Estados Unidos”, disse, sugerindo que Trump converse com os “políticos de outros países para tomar suas decisões”.

Segundo Lula, o Brasil vai recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC) contra esse tipo de medida e, caso não haja resultado nessa instância, o país vai impor taxas recíprocas.

Da Agência Fonte Exclusiva, com informações da BBC News.

Sair da versão mobile