O cartão de crédito costuma aparecer no centro das discussões sobre o endividamento dos brasileiros. Uma pesquisa, porém, aponta que ele nem sempre é o ponto de partida do problema. Para muitas famílias, recorrer ao crédito acontece quando o orçamento já está apertado e outras tentativas de equilibrar as contas não deram resultado.
O levantamento foi realizado pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar), em parceria com a FIA Business School. Os pesquisadores analisaram durante cinco anos buscas feitas na internet relacionadas a redução de despesas, renda extra, dificuldades financeiras e procura por crédito emergencial.
O comportamento observado mostra uma espécie de sequência até a dívida. Antes de buscar empréstimos, aumentar o uso do cartão ou tentar uma renegociação, as famílias normalmente começam reduzindo despesas.
Corte de gastos aparece primeiro
O primeiro movimento costuma atingir aquilo que pode ser retirado do orçamento com mais facilidade.
Academia, assinaturas de plataformas de streaming, serviços por assinatura e outras despesas consideradas menos urgentes estão entre os gastos que tendem a ser revistos quando o dinheiro começa a faltar.
A tentativa é abrir espaço no orçamento sem comprometer imediatamente despesas essenciais, como alimentação, moradia, energia, água e transporte.
O problema é que, dependendo da situação financeira da família, cortar esse tipo de gasto pode não ser suficiente.
Quando a economia nas despesas não resolve, outro comportamento começa a ganhar força: a procura por novas formas de ganhar dinheiro.
Trabalho informal, serviços realizados fora do horário habitual, vendas pela internet e pequenos negócios aparecem como alternativas para complementar a renda.
Esse movimento mostra que parte dos brasileiros tenta aumentar o dinheiro disponível antes de assumir novas dívidas.
Somente depois dessas tentativas o crédito passa a ocupar um papel maior na organização das contas.
Crédito pode estar financiando despesas do dia a dia
Uma das principais conclusões do estudo é que o endividamento não pode ser explicado apenas por compras por impulso ou falta de planejamento.
Em muitos casos, cartão de crédito, empréstimos e outras modalidades acabam sendo usados para manter despesas que já fazem parte da rotina da família.
Quando a renda deixa de acompanhar o custo de vida, o crédito pode funcionar como uma ponte para pagar contas, comprar alimentos ou enfrentar despesas inesperadas.
A dívida, nesse cenário, aparece mais como consequência da perda de capacidade financeira do que como o primeiro problema do orçamento.
Oito em cada dez famílias têm dívidas
O quadro ganha ainda mais importância diante do elevado nível de endividamento no país.
Dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostram que cerca de oito em cada dez famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida.
Nesse grupo entram compromissos como cartão de crédito, financiamentos, carnês, empréstimos pessoais e outras modalidades.
Aproximadamente uma em cada três famílias também enfrenta contas ou parcelas em atraso.
Isso não significa que toda pessoa com dívida esteja inadimplente. Uma compra parcelada no cartão, por exemplo, já entra nas estatísticas de endividamento, mesmo que todas as parcelas estejam sendo pagas dentro do prazo.
Prevenção pode começar antes da inadimplência
Para os pesquisadores, um dos caminhos para enfrentar o problema está justamente em identificar os primeiros sinais de dificuldade financeira.
O alerta não deveria começar apenas quando as contas deixam de ser pagas.
O cancelamento de serviços, a redução brusca do consumo, o aumento das buscas por renda extra e a procura frequente por alternativas para conseguir dinheiro podem indicar que o orçamento doméstico já está entrando em uma situação delicada.
A educação financeira, nesse sentido, teria mais efeito se chegasse antes da inadimplência.
Também ganha importância o acesso a informações sobre renegociação, organização do orçamento e uso consciente das diferentes modalidades de crédito.
Cartão é ferramenta, mas exige cuidado
O cartão de crédito continua exigindo atenção, principalmente quando a fatura não é paga integralmente e o consumidor entra em modalidades com juros elevados.
Mas a pesquisa acrescenta uma nova perspectiva ao debate.
Em vez de olhar apenas para o momento em que a dívida aparece, o estudo tenta entender o que aconteceu com aquela família nos meses anteriores.
A conclusão é que, muitas vezes, o brasileiro não começa a enfrentar dificuldades porque buscou crédito. Ele busca crédito justamente porque as dificuldades já chegaram.
*Da Agência Fonte Exclusiva