A política local no Rio de Janeiro tornou-se terreno fértil para a violência motivada por ódio. Um estudo divulgado nesta terça-feira (14) pelo Observatório das Favelas aponta que 33% dos 267 casos de violência política registrados na Região Metropolitana entre janeiro de 2022 e junho de 2025 tiveram motivações ligadas a preconceitos como racismo, misoginia, homofobia e transfobia.
Esse tipo de violência, embora espalhado ao longo dos anos, se intensifica durante os períodos eleitorais — especialmente entre os meses de junho e outubro. Na Baixada Fluminense, por exemplo, as execuções políticas chegam a triplicar nos meses de campanha: fora do ciclo eleitoral, há uma morte a cada 75 dias. No período eleitoral, esse intervalo cai para apenas 22 dias.
A cor da política e o peso do preconceito
O número de ataques a políticos e ativistas negros praticamente dobrou em dois anos: de 17 casos em 2022 para 30 em 2024. Para o pesquisador Leandro Marinho, isso está diretamente relacionado ao crescimento da presença negra nas disputas eleitorais. Em 2024, 52,7% das candidaturas no estado do Rio foram de pessoas negras, segundo dados da Justiça Eleitoral.
“O crescimento das candidaturas negras vem acompanhado de maior exposição à violência. Isso revela um padrão estrutural de silenciamento histórico dessas lideranças”, destaca Marinho. Em contraste, os ataques contra pessoas brancas recuaram de 33 para 30 casos no mesmo período.
Quando o ódio vira ação: formas de violência
O levantamento identificou diferentes expressões da violência política:
- Agressões verbais (15%)
- Repressão a protestos políticos (13%)
- Tentativas de homicídio (12%)
- Execuções (12%)
- Ameaças (10%)
- Agressões físicas (9%)
- Ameaças de morte (8%)
- Ataques a manifestações (4%)
- Outros (16%)
Em 30% dos casos, o meio utilizado foi arma de fogo. Ao todo, foram 33 atentados contra a vida e 31 execuções políticas em pouco mais de três anos.
Políticos, policiais e milícias: quem ataca?
O estudo também analisou os perfis dos agressores. Entre os autores dos ataques, estão:
- Políticos: 59 casos
- Policiais: 58
- Grupos armados: 29
Os atos mais comuns cometidos por políticos foram agressão verbal, física e ameaças. Já os policiais apareceram principalmente em contextos de repressão a manifestações: 35 registros diretos de repressão, cinco ataques a protestos e quatro prisões arbitrárias durante atos políticos.
“Os dados evidenciam o despreparo das instituições de segurança para lidar com o exercício democrático do protesto”, avalia Marinho.
Além dos candidatos: quem mais é alvo
A violência política não atinge apenas os que ocupam cargos eletivos ou disputam eleições. Também são vítimas militantes, ativistas, cabos eleitorais e lideranças comunitárias. O levantamento se baseou em dados de reportagens da imprensa e abrange tanto a Baixada Fluminense quanto regiões do litoral sul fluminense, como a Baía de Ilha Grande, influenciada por milícias.
Segundo João Trajano, pesquisador da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a pesquisa acende um alerta para a democracia local. “A junção desses atos revela uma lógica política antidemocrática, muitas vezes distante das instituições federais, mas muito presente na política do cotidiano.”
Justiça fraca, democracia em risco
Para o professor André Rodrigues, também integrante do Observatório das Favelas e da UFF, a Justiça Eleitoral precisa agir com mais firmeza no combate à violência política. Ele defende regras mais rígidas para candidaturas de agentes de segurança pública e propõe uma quarentena antes da entrada desses profissionais na política.
“O agente armado do Estado não pode usar sua posição para capitalizar politicamente. É preciso impedir que o poder da farda vire poder nas urnas”, defende.
Resposta do governo
Procurada, a Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro informou que não vai comentar o estudo, alegando não ter conhecimento da metodologia utilizada.
Da Agência Fonte Exclusiva.
