Um incêndio de grandes proporções atingiu a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), na noite de quarta-feira (7), no Recife, e deixou um prejuízo estimado em R$ 100 milhões. As chamas destruíram laboratórios que abrigavam pesquisas sobre câncer, obesidade, Covid-19, autismo e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Alguns desses trabalhos reuniam dados acumulados ao longo de duas décadas.
O fogo começou por volta das 20h no prédio da antiga Diretoria de Inovação e Empreendedorismo, localizado na Cidade Universitária, Zona Oeste da capital pernambucana. O Corpo de Bombeiros mobilizou cinco viaturas para combater as chamas, que se espalharam rapidamente pelo imóvel. Apesar da gravidade da ocorrência, ninguém ficou ferido.
Além dos equipamentos, o incêndio atingiu amostras biológicas, materiais de laboratório e informações armazenadas em computadores. Segundo a universidade, aproximadamente 80 dissertações de mestrado e teses de doutorado foram afetadas.
Pesquisas sobre câncer, Covid-19, autismo e TDAH foram atingidas
Entre os trabalhos desenvolvidos no prédio estavam estudos voltados à identificação de doenças, desenvolvimento de tratamentos e investigação de condições que afetam a saúde da população.
Os laboratórios também guardavam amostras e dados de pesquisas relacionadas à obesidade, doenças respiratórias, transtornos neuropsiquiátricos e doenças raras.
Um dos espaços atingidos era o Núcleo de Pesquisa em Inovação Terapêutica (Nupit), que reunia diferentes grupos de pesquisadores e equipamentos utilizados em experimentos científicos.
Parte dos projetos acompanhava pacientes e analisava materiais coletados durante anos. A perda dessas amostras pode impedir a continuidade de determinados estudos ou obrigar as equipes a recomeçar etapas importantes.
O biólogo José Rafael Soares, doutorando em inovação terapêutica, relatou à Folha de S.Paulo que mantinha no local amostras coletadas no Sertão do Araripe para uma pesquisa sobre biomarcadores de câncer de pulmão e doenças respiratórias.
A dimensão dos prejuízos científicos ainda está sendo calculada, mas a universidade já considera que parte do material perdido não poderá ser recuperada.
Pesquisadores choram ao encontrar laboratórios destruídos
A chegada de estudantes e pesquisadores à universidade, na manhã de quinta-feira (8), foi marcada pela tristeza.
Equipes do Sistema Jornal do Commercio acompanharam a movimentação no campus e ouviram relatos de profissionais que perderam materiais de estudos desenvolvidos durante anos.
A estudante de Odontologia Bruna Vilela, que participa de uma pesquisa sobre desenvolvimento craniofacial e transtornos neuropsiquiátricos, contou ao Diário de Pernambuco que as amostras utilizadas em seu projeto estavam guardadas no prédio.
“A gente só conseguia chorar, lamentar mesmo”, relatou a estudante.
Ela também destacou que o incêndio comprometeu diferentes linhas de pesquisa, incluindo trabalhos relacionados à Covid-19, câncer, obesidade, TDAH e autismo.
Para muitos estudantes, a perda representa mais do que equipamentos destruídos. São meses ou anos de experimentos, coleta de informações e dedicação acadêmica que podem não ser recuperados.
Prejuízo de R$ 100 milhões pode aumentar
A estimativa inicial de R$ 100 milhões foi apresentada pelo reitor Alfredo Gomes durante entrevista coletiva nesta quinta-feira.
O cálculo considera equipamentos, insumos e materiais científicos existentes nos laboratórios do andar superior. Os danos no térreo ainda precisam ser avaliados.
O prédio também abrigava dois laboratórios de nível de biossegurança 3, utilizados em pesquisas que exigem medidas especiais de contenção.
Segundo o reitor, a universidade já trabalhava na transferência de parte das instalações para outro edifício, mas equipamentos essenciais ainda permaneciam no imóvel atingido.
A UFPE deverá avaliar alternativas para acomodar as equipes e permitir a retomada dos projetos que ainda puderem continuar.
Polícia Federal suspende perícia por risco na estrutura
A Polícia Federal iniciou os procedimentos para investigar a origem do incêndio, mas a perícia precisou ser interrompida nesta quinta-feira (8).
Durante a avaliação inicial, técnicos identificaram a necessidade de reforçar a estrutura do prédio, especialmente na região superior, que sofreu os maiores danos.
A universidade deverá providenciar o escoramento antes que os peritos possam retornar ao interior do imóvel.
Até o momento, não há conclusão sobre o que provocou o fogo.
O incêndio de quarta-feira foi o terceiro registrado na UFPE desde o fim de setembro.
O primeiro ocorreu em 30 de setembro, em um laboratório do Departamento de Física. Em 4 de outubro, outro episódio atingiu o Laboratório de Citogenética e Evolução Vegetal, no Centro de Biociências.
Nenhuma das três ocorrências deixou feridos. As causas ainda são investigadas e não há evidências de ligação entre os episódios.
O Ministério da Educação informou que acompanha a situação e colocou a pasta à disposição para auxiliar a universidade.
Enquanto as investigações avançam, professores, estudantes e pesquisadores tentam dimensionar as perdas e encontrar caminhos para reconstruir parte do trabalho científico interrompido pelo incêndio.
*Da Agência Fonte Exclusiva.
