Uma pequena população de células, equivalente a aproximadamente 1% da massa de um osteossarcoma, pode ajudar a explicar por que algumas crianças e adolescentes respondem à quimioterapia, enquanto outros pacientes apresentam resistência aos medicamentos.
Conhecidas como células-tronco tumorais, essas estruturas são o foco de uma pesquisa conduzida pelo Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia Jamil Haddad, o Into, em parceria com o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva, o INCA.
O estudo investiga um dos cânceres ósseos mais agressivos da infância e da adolescência. Apesar dos avanços no tratamento, aproximadamente 30% dos pacientes ainda precisam passar pela amputação do membro atingido.
A pesquisa acompanha oito pacientes atendidos pelo INCA. O objetivo é verificar se a quantidade de células-tronco presente no tumor está relacionada à resposta à quimioterapia aplicada antes da cirurgia.
Os pesquisadores também procuram identificar se uma concentração elevada dessas células pode indicar maior agressividade, resistência aos medicamentos ou risco de disseminação da doença para outras partes do organismo.
O trabalho é desenvolvido no Centro de Pesquisa em Terapia Celular e Bioengenharia Ortopédica, o CTCel, ligado ao Into. Criado em 2006, o laboratório foi pioneiro no Brasil em pesquisas de terapia celular e medicina regenerativa direcionadas às doenças do aparelho locomotor.
Células são comparadas antes e depois da quimioterapia
As amostras utilizadas no estudo são retiradas dos pacientes em dois momentos. A primeira coleta ocorre durante a biópsia que confirma o diagnóstico. A segunda é feita após aproximadamente 12 semanas de quimioterapia neoadjuvante.
Esse tipo de quimioterapia é realizado antes da cirurgia com o objetivo de reduzir o tamanho do tumor e criar melhores condições para sua retirada.
Depois da coleta, as células-tronco tumorais são isoladas e multiplicadas em laboratório. A equipe compara a proporção encontrada no início do tratamento com a quantidade observada após a aplicação dos medicamentos.
Segundo a biomédica Suzana Kahn, do CTCel, a análise permitirá verificar se essa população celular sofre alterações durante o tratamento e se a mudança está relacionada à evolução do osteossarcoma.
Uma das hipóteses é que essas células consigam sobreviver à quimioterapia e continuem produzindo novas estruturas cancerígenas. Dessa forma, mesmo com a redução aparente da massa tumoral, um núcleo resistente poderia permanecer ativo.
Paralelamente, os pesquisadores realizam experimentos com camundongos. Células retiradas dos tumores são implantadas nos animais, que também recebem quimioterapia.
O modelo permite observar o crescimento da doença, a invasão de outros tecidos e a ocorrência de metástases em condições controladas. A combinação dos testes em laboratório com o acompanhamento dos pacientes deverá ampliar o conhecimento sobre os mecanismos de resistência do câncer.
Embora correspondam a uma pequena fração do tumor, as células-tronco cancerígenas conseguem gerar outras células que formam a lesão. Por isso, são consideradas uma espécie de reservatório da doença.
A quimioterapia pode destruir grande parte das células tumorais e diminuir a extensão da lesão, mas nem sempre elimina completamente esse grupo mais resistente.
A chefe da Divisão de Pesquisa do Into, Maria Eugênia Duarte, explica que a quantidade dessas células pode estar relacionada à agressividade do osteossarcoma, à resposta aos medicamentos e ao risco de disseminação.
A expectativa é que os resultados sejam utilizados futuramente como uma ferramenta de prognóstico. Os médicos poderiam avaliar, ainda durante o tratamento, se o tumor está reagindo de maneira satisfatória à quimioterapia.
Com informações mais precisas, as próximas etapas poderiam ser definidas de acordo com as características individuais da doença, reduzindo a dependência de critérios gerais aplicados a todos os pacientes.
Pesquisa pode ajudar a preservar braços e pernas
Até a década de 1970, a amputação era praticamente a única alternativa para pacientes diagnosticados com osteossarcoma. A retirada do membro comprometido era realizada na maioria dos casos.
O tratamento começou a mudar nos anos 1980, com a introdução da quimioterapia antes da operação. O uso dos medicamentos permitiu reduzir parte dos tumores e aumentou as possibilidades de cirurgias conservadoras.
Quando há uma boa resposta, os médicos podem retirar a lesão e reconstruir a área afetada com uma endoprótese ou um enxerto ósseo.
A endoprótese substitui uma articulação ou parte do osso removido. O enxerto utiliza tecido ósseo para recuperar a região comprometida.
Apesar dos avanços, alguns pacientes não apresentam uma redução suficiente do tumor. Dependendo da extensão da doença e do comprometimento dos tecidos próximos, a amputação continua sendo necessária.
O ortopedista Walter Meohas, cirurgião do INCA e do Into especializado no tratamento do osteossarcoma, avalia que a pesquisa poderá contribuir para diminuir o número desses procedimentos.
O estudo permitirá observar como as células-tronco tumorais se comportam ao longo do tratamento, algo que ainda não pode ser avaliado de forma satisfatória pelos métodos atualmente utilizados.
No laboratório, a equipe analisa a capacidade de multiplicação, sobrevivência e invasão dessas células. Também procura estimar a participação delas no risco de metástase.
A identificação precoce de sinais de resistência poderá ajudar os médicos a avaliar os efeitos da quimioterapia antes da operação e a escolher estratégias mais adequadas para cada paciente.
O objetivo é aumentar as possibilidades de preservar o membro atingido e reduzir os impactos físicos, emocionais e sociais do tratamento, principalmente entre crianças e adolescentes.
Sintomas podem ser confundidos com dores do crescimento
O osteossarcoma aparece com maior frequência entre os 10 e os 20 anos, fase marcada pelo crescimento acelerado dos ossos.
Aproximadamente metade dos tumores surge na região do joelho. A doença também pode atingir ossos dos braços, das pernas e da coluna. Quando há disseminação, os pulmões estão entre os órgãos mais frequentemente afetados.
Em adultos, o osteossarcoma pode surgir como uma condição secundária, associada a efeitos tardios da radioterapia ou à doença de Paget, que altera o processo de renovação dos ossos.
Entre os sintomas iniciais estão dor persistente e aumento progressivo de volume no local atingido. Esses sinais podem ser confundidos com lesões esportivas, pancadas, dores musculares ou desconfortos relacionados ao crescimento.
Essa semelhança com problemas comuns pode atrasar a procura por atendimento. Dores contínuas, inchaço crescente e alterações ósseas sem causa aparente devem ser avaliados por um profissional de saúde.
O diagnóstico é realizado por meio de exame clínico, radiografia e biópsia. Outros exames de imagem podem ser solicitados para determinar a extensão da lesão e verificar se a doença atingiu outras áreas.
A identificação precoce aumenta as possibilidades de uma cirurgia conservadora. Quanto menor for o tumor no momento do diagnóstico, melhores tendem a ser as condições para sua retirada com preservação do membro.
A taxa de sobrevida em cinco anos é estimada em aproximadamente 64%. Nos casos com metástase, o índice cai para cerca de 50%. Após uma cirurgia conservadora, a possibilidade de retorno do tumor no mesmo local é calculada em aproximadamente 7%.
Os dados reforçam a necessidade de reduzir o intervalo entre os primeiros sintomas, a investigação médica e o início do tratamento.
A pesquisa não deverá substituir imediatamente os protocolos existentes, mas poderá criar uma base científica para terapias mais individualizadas.
Caso a relação entre células-tronco tumorais e resistência à quimioterapia seja confirmada, a quantidade dessas estruturas poderá ser utilizada como indicador do comportamento da doença.
Os resultados também poderão orientar o desenvolvimento de medicamentos capazes de atingir diretamente as células mais resistentes. A eliminação desse reservatório poderia aumentar a eficácia da quimioterapia e diminuir os riscos de recidiva e metástase.
Ao investigar um dos principais mecanismos de resistência do osteossarcoma, os pesquisadores esperam transformar os resultados laboratoriais em tratamentos mais precisos, maior preservação dos membros e melhor qualidade de vida para crianças e adolescentes.
*Da Agência Fonte Exclusiva