O Rio de Janeiro tornou-se o centro das discussões mundiais sobre HIV, aids, prevenção e acesso a medicamentos com a realização da 26ª Conferência Internacional de Aids, a AIDS 2026. O encontro ocorre no Riocentro, entre os dias 26 e 31 de julho, e reúne pesquisadores, profissionais de saúde, autoridades, ativistas e pessoas que vivem com HIV. Esta é a primeira edição do evento realizada na América do Sul.
Entre os principais anúncios científicos da programação estão dois novos casos de remissão sustentada do HIV. Os pacientes permanecem sem o uso de medicamentos antirretrovirais e sem sinais detectáveis de retomada da infecção durante o período acompanhado pelas equipes médicas. Com os novos registros, chegou a 13 o número de pessoas consideradas curadas ou em remissão prolongada no mundo.
Um dos estudos apresentados acompanha um homem de 21 anos após a interrupção controlada do tratamento. Outro trabalho descreve o chamado “paciente de Kansas City”, que alcançou remissão depois de um transplante de células-tronco de um doador com uma rara alteração genética associada à resistência ao HIV.
Apesar de representarem um avanço importante, os resultados ainda não significam que exista uma cura disponível para todas as pessoas que vivem com o vírus. Os pesquisadores adotam cautela ao classificar os casos porque o HIV pode permanecer escondido em reservatórios celulares e voltar a se multiplicar após a interrupção dos medicamentos.
Parte dos casos de remissão registrados até hoje ocorreu após transplantes de células-tronco realizados para tratar doenças graves, como cânceres hematológicos. O procedimento apresenta riscos elevados e não é indicado como tratamento convencional contra o HIV. O objetivo dos estudos é entender os mecanismos que impediram o retorno do vírus e utilizar esse conhecimento no desenvolvimento de alternativas mais seguras e acessíveis.
Queda nas infecções e nas mortes
Os dados globais apresentados durante o evento também mostram avanços expressivos. Em 2025, aproximadamente 41 milhões de pessoas viviam com HIV em todo o mundo. No mesmo período, 1,2 milhão adquiriu o vírus e 570 mil morreram em decorrência de doenças relacionadas à aids.
Desde 2010, o número de novas infecções caiu aproximadamente 42%, enquanto as mortes relacionadas à aids recuaram 57%. Em comparação com o pico registrado em 2004, a redução das mortes chega a 73%. Os indicadores atuais estão entre os menores observados desde o início da década de 1990.
A ampliação do tratamento antirretroviral foi determinante para essa mudança. Cerca de 32,1 milhões de pessoas tinham acesso aos medicamentos em 2025, o equivalente a 78% da população mundial que vive com HIV. O tratamento reduz a quantidade do vírus no organismo, evita o desenvolvimento da aids e permite que as pessoas tenham maior qualidade e expectativa de vida.
Quase 9 milhões ainda estão sem tratamento
Mesmo com os avanços, aproximadamente 9 milhões de pessoas ainda não recebem tratamento. Outras 5 milhões vivem com o vírus sem conhecer o diagnóstico, situação que dificulta o início precoce da terapia e amplia o risco de transmissão.
A Unaids alerta que os cortes de recursos podem comprometer décadas de progresso. O financiamento internacional destinado à resposta ao HIV caiu 18% em 2025. Os recursos disponíveis para países de baixa e média renda somaram US$ 17,6 bilhões, cerca de 20% abaixo dos US$ 21,9 bilhões considerados necessários anualmente para atingir as metas estabelecidas para 2030.
A redução do financiamento já afeta programas de testagem, distribuição de preservativos, prevenção e atendimento realizado por organizações comunitárias. Em países mais dependentes de recursos externos, a interrupção dos investimentos pode provocar falta de medicamentos e aumento de novas infecções e mortes.
Brasil anuncia novas estratégias de prevenção
Durante a conferência, o Ministério da Saúde apresentou iniciativas destinadas a ampliar as opções de prevenção disponíveis no Sistema Único de Saúde. Uma das tecnologias em análise é a PrEP injetável de longa duração, aplicada a cada dois meses. A incorporação será avaliada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS.
A Fundação Oswaldo Cruz e a MSD Brasil também firmaram um acordo para acompanhar o desenvolvimento do MK-8527, medicamento oral investigacional de uso mensal para prevenção do HIV. O produto está na fase 3 de estudos clínicos e ainda não foi aprovado para utilização regular.
Atualmente, o SUS oferece gratuitamente medicamentos antirretrovirais, testes rápidos, autotestes, preservativos, Profilaxia Pré-Exposição, a PrEP, e Profilaxia Pós-Exposição, conhecida como PEP. O sistema também garante acompanhamento clínico e laboratorial às pessoas que vivem com HIV.
Ciência e mobilização social
Os resultados apresentados no Rio demonstram a transformação ocorrida desde as primeiras décadas da epidemia, quando o diagnóstico era frequentemente associado à rápida evolução da doença e à morte. A terapia antirretroviral mudou esse cenário e tornou o HIV uma condição crônica controlável para quem recebe diagnóstico, acompanhamento e tratamento adequados.
Organizações comunitárias, casas de apoio e entidades da sociedade civil também continuam desempenhando papel fundamental no acolhimento, no combate ao preconceito e na orientação de pessoas que vivem com HIV. Para especialistas, os avanços científicos precisam ser acompanhados pela ampliação do acesso aos serviços e pelo enfrentamento da discriminação.
A chegada a 13 registros de possível cura ou remissão prolongada confirma que a eliminação do vírus é cientificamente possível em circunstâncias específicas. O desafio agora é transformar o conhecimento obtido nesses casos raros em terapias seguras, acessíveis e aplicáveis em larga escala.
*Da Agência Fonte Exclusiva