Uma aula sobre regimes autoritários terminou em investigação e no afastamento de uma professora da rede municipal de Potirendaba, no interior de São Paulo. A docente teria relacionado uma eventual chegada do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República à instalação de um regime fascista e afirmado que alguns estudantes poderiam morrer nesse cenário. As declarações foram registradas por câmeras de segurança da escola e ganharam repercussão após a divulgação de trechos nas redes sociais.
Segundo reportagens do UOL, do Poder360 e do Diário da Região, o episódio aconteceu em 8 de outubro de 2026, durante uma aula para crianças. Conforme os relatos divulgados, a professora teria apontado estudantes da turma e utilizado a cor da pele e características físicas para indicar quem morreria ou sobreviveria em uma possível sociedade autoritária.
O caso chegou à administração municipal depois que a mãe de uma aluna de 11 anos procurou a prefeita de Potirendaba, Gislaine Franzotti. De acordo com o relato apresentado pela gestora, a menina voltou para casa chorando e assustada com o conteúdo da aula.
Mãe denunciou o episódio à prefeitura
Em um vídeo publicado nas redes sociais em 21 de outubro, a prefeita afirmou que tomou conhecimento da situação por meio da família da estudante. Segundo Gislaine Franzotti, a professora teria apontado crianças da sala ao falar sobre quem sobreviveria em um eventual regime fascista.
Durante a aula, a docente teria mencionado figuras históricas como Benito Mussolini e Adolf Hitler e associado um possível governo de Flávio Bolsonaro e de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, a um cenário de predominância de pessoas brancas e ricas.
De acordo com as reportagens, a professora teria dito a uma estudante que ela morreria por ser parda. Em outro momento, ao ser questionada por uma criança sobre seu próprio destino naquele cenário, teria utilizado a expressão “um pezinho na senzala”.
As declarações atribuídas à docente provocaram preocupação pelo uso de características raciais para identificar possíveis vítimas de violência e pelo impacto emocional que esse tipo de abordagem pode provocar em crianças.
Prefeitura afasta docente e abre procedimento
Após tomar conhecimento da denúncia e analisar as gravações disponíveis, a Prefeitura de Potirendaba determinou o afastamento da professora e instaurou um procedimento administrativo para apurar sua conduta.
Em nota, a administração municipal afirmou que recebeu relatos de declarações que teriam causado medo e abalo emocional aos estudantes. Também destacou que não tolera discriminação, intimidação ou comportamentos que provoquem constrangimento no ambiente escolar.
A prefeitura informou ainda que encaminhou o caso às autoridades competentes, incluindo o Ministério Público do Trabalho e a Justiça da Infância e da Juventude. O acionamento de outros órgãos de proteção e investigação também foi mencionado nas informações divulgadas sobre o episódio.
A administração ressaltou que temas como o nazismo e o Holocausto são importantes para a formação dos estudantes, mas precisam ser abordados com responsabilidade pedagógica, respeito às diferenças e cuidado com a segurança emocional das crianças.
Polícia Civil investiga possíveis crimes
Conforme informações publicadas pelo UOL, a Polícia Civil instaurou um inquérito para apurar se as declarações atribuídas à professora configuram alguma infração penal. Entre as hipóteses mencionadas nas reportagens estão racismo, injúria racial, constrangimento de crianças e adolescentes e difamação eleitoral.
A investigação deverá considerar as gravações, o contexto da aula e os demais elementos reunidos pelas autoridades para esclarecer as circunstâncias do episódio e avaliar eventuais responsabilidades.
O afastamento da professora é uma medida administrativa e não representa, por si só, uma condenação criminal. A eventual responsabilização dependerá do resultado das apurações e dos procedimentos legais aplicáveis.
Até a divulgação das reportagens citadas, a identidade da docente não havia sido publicada, e não havia manifestação de sua defesa. A prefeitura também informou que preservará os dados que possam identificar os estudantes envolvidos, por se tratar de menores de idade.
Caso levanta debate sobre racismo e ensino de política nas escolas
A ocorrência em Potirendaba reacendeu a discussão sobre os limites e as responsabilidades no tratamento de assuntos políticos, raciais e históricos dentro das salas de aula.
O estudo de regimes autoritários faz parte da abordagem de temas históricos e sociais. No entanto, as declarações atribuídas à professora levantam questionamentos sobre a utilização de crianças como exemplos diretos de possíveis vítimas de violência em um cenário político hipotético.
As autoridades deverão esclarecer os fatos e avaliar as consequências administrativas e legais cabíveis. Enquanto a investigação estiver em andamento, as acusações precisam ser tratadas com cautela, sem antecipar conclusões sobre a responsabilidade da profissional.
*Da Agência Fonte Exclusiva.
