A ocorrência de eventos climáticos extremos tem ampliado a preocupação do setor elétrico brasileiro com a capacidade de manter redes e estruturas em funcionamento diante de condições cada vez mais severas.
O tema foi discutido nesta quinta-feira (20), em Brasília, durante um encontro promovido pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), com a participação de empresas e instituições do segmento.
Durante o debate, representantes do setor destacaram que o enfrentamento dos novos desafios climáticos dependerá não apenas da expansão e modernização da infraestrutura, mas também do desenvolvimento de tecnologias capazes de identificar riscos antecipadamente e melhorar a resposta do sistema.
Pesquisa e inovação ganham espaço
A presidente da Associação Brasileira das Empresas de Transmissão de Energia Elétrica (Abrate), Talita Porto, afirmou que as empresas já realizam investimentos em infraestrutura, modernização e medidas de resiliência, mas defendeu a ampliação dos esforços em inovação.
Segundo ela, o Instituto Abrate deverá destinar R$ 5 bilhões a projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação. A previsão é que, ao longo dos próximos 17 meses, sejam desenvolvidas ferramentas para analisar riscos e aumentar a capacidade de reação do sistema aos efeitos das mudanças climáticas.
Talita também ressaltou que o setor elétrico está diretamente sujeito aos impactos físicos e financeiros provocados por eventos extremos. Problemas em estruturas de transmissão, por exemplo, podem provocar consequências que se espalham pela geração, distribuição e consumo de energia.
Infraestrutura precisa acompanhar novos padrões climáticos
A presidente da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), Patricia Audi, destacou que parte da infraestrutura existente foi planejada considerando condições climáticas diferentes das observadas em alguns episódios recentes.
Durante o encontro, ela mencionou ocorrências de ventos intensos registradas no Rio de Janeiro e em Ribeirão Preto, no interior paulista.
De acordo com o relato apresentado por Patricia Audi, os ventos no Rio de Janeiro chegaram a aproximadamente 140 km/h, enquanto os parâmetros utilizados no planejamento de determinadas estruturas consideravam ventos de até 80 km/h. Em Ribeirão Preto, os registros citados no evento alcançaram 160 km/h.
Os episódios aconteceram no fim de julho, no período de início da atuação do El Niño previsto para o ciclo 2026/2027. O fenômeno ocorre associado ao aquecimento das águas superficiais do Pacífico Tropical e pode provocar alterações na circulação atmosférica e na distribuição das chuvas.
Estruturas de transmissão sofreram danos
O diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Marcio Rea, destacou a necessidade de aperfeiçoar os mecanismos de prevenção e resposta a situações extremas.
Segundo ele, avaliações técnicas realizadas após o episódio registrado em Ribeirão Preto apontaram características de redemoinho nos ventos. A intensidade do fenômeno teria causado a queda de torres de transmissão e provocado deformações nas estruturas.
Na avaliação apresentada durante o encontro, situações desse tipo desafiam os parâmetros tradicionais utilizados pela engenharia para dimensionar estruturas do sistema elétrico.
Setor defende atuação integrada
Com a possibilidade de eventos climáticos mais intensos, representantes do setor defenderam uma atuação conjunta entre os diferentes segmentos da cadeia elétrica.
A proposta envolve melhorar o monitoramento, antecipar riscos e aperfeiçoar o planejamento para reduzir possíveis impactos sobre estruturas consideradas essenciais para o funcionamento do sistema nacional.
Para Marcio Rea, o cenário climático previsto para 2026 também reforça a necessidade de preparação diante de condições capazes de afetar diretamente a infraestrutura e a operação do setor.
O encontro promovido pela Aneel colocou em destaque a necessidade de combinar investimentos em infraestrutura com pesquisa, desenvolvimento tecnológico e sistemas de monitoramento para ampliar a capacidade de adaptação do sistema elétrico brasileiro aos eventos climáticos extremos.
*Da Agência Fonte Exclusiva
