Municípios brasileiros mais expostos a enchentes e enxurradas receberam menos recursos por habitante para financiar obras de prevenção de desastres do que cidades com menor vulnerabilidade. Um levantamento publicado pelo Poder360 neste domingo (11), com base em operações de crédito realizadas em 2025, identificou diferenças expressivas no acesso aos financiamentos voltados à infraestrutura e à resiliência ambiental.
Segundo o estudo, 17 municípios classificados como suscetíveis a inundações e enxurradas receberam R$ 406,3 milhões em financiamentos. Em outras 28 cidades, consideradas menos expostas aos riscos analisados, o volume chegou a R$ 292,2 milhões.
Apesar de terem recebido mais recursos no total, as localidades vulneráveis registraram uma média de apenas R$ 64 por habitante nas categorias de infraestrutura verde e resiliência ambiental. Nas demais cidades, o valor foi de R$ 197 por pessoa.
A análise utilizou dados da Associação Brasileira dos Bancos de Desenvolvimento (Abde) e informações sobre áreas de risco reunidas pela Casa Civil. Os resultados indicam que o volume total de crédito não se traduz necessariamente em maior disponibilidade de recursos por morador nos municípios que mais precisam de medidas preventivas.
Diferenças também aparecem no saneamento e na Defesa Civil
A desigualdade se mantém quando outros investimentos relacionados à prevenção de desastres são considerados. No saneamento básico, setor importante para a drenagem urbana e a redução dos impactos das chuvas intensas, os municípios mais vulneráveis registraram R$ 122 por habitante, enquanto as demais localidades chegaram a R$ 265.
A diferença também foi observada nos financiamentos associados à Defesa Civil. Nas cidades mais expostas a desastres, a média foi de R$ 11,88 por pessoa. Nos outros municípios analisados, o valor alcançou R$ 20,89 por habitante.
Os números reforçam a importância de investimentos em sistemas de drenagem, saneamento e infraestrutura urbana capazes de reduzir os danos provocados por enchentes e enxurradas.
Falta de estrutura técnica dificulta acesso ao crédito
A diferença no volume de financiamentos não significa necessariamente que os recursos disponíveis sejam insuficientes. Um dos obstáculos está na capacidade das prefeituras de elaborar projetos e cumprir as exigências necessárias para contratar empréstimos.
Segundo Eduardo Djanikian, gerente de Sustentabilidade, Economia e Inovação da Abde, muitos municípios não dispõem de equipes técnicas especializadas para preparar estudos, estruturar propostas e atender aos requisitos exigidos pelas instituições financeiras.
Mesmo quando existem linhas de crédito disponíveis, a falta de planejamento e de pessoal qualificado pode impedir que as administrações municipais transformem essas oportunidades em obras efetivas.
Outro entrave é a situação fiscal das prefeituras. Para contratar determinadas operações de crédito, os municípios precisam demonstrar capacidade de pagamento, avaliada pelo Tesouro Nacional. Quando as contas públicas apresentam limitações, a contratação de novos empréstimos pode se tornar mais difícil, mesmo diante da necessidade de investimentos em prevenção.
Unaí consegue financiamento para obra de drenagem
O município de Unaí, em Minas Gerais, é um exemplo das dificuldades enfrentadas pelas cidades que precisam reduzir os impactos das chuvas. A população convive há cerca de duas décadas com problemas de alagamento, o que levou a prefeitura a buscar recursos para melhorar a drenagem urbana.
Após melhorar sua situação fiscal, a administração conseguiu aprovar um financiamento de R$ 1,1 milhão para construir um quilômetro de rede de drenagem na região da Chácara Rio Preto.
A obra tem como objetivo reduzir as inundações enfrentadas pelos moradores e diminuir os danos provocados pelas chuvas. O caso demonstra como a capacidade financeira e a organização administrativa podem influenciar o acesso dos municípios aos recursos destinados à prevenção.
Para cidades que registram alagamentos recorrentes, obras de drenagem podem ajudar a proteger moradias, vias públicas e outros equipamentos urbanos, desde que sejam planejadas de acordo com as características locais.
Desastres relacionados à água provocaram bilhões em prejuízos
A necessidade de ampliar os investimentos preventivos ganha dimensão diante do histórico de ocorrências registradas no país. Entre 1991 e 2024, 5.097 municípios brasileiros enfrentaram pelo menos um desastre relacionado à água, segundo levantamento desenvolvido por pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
No período, foram contabilizados aproximadamente 60 mil eventos, que provocaram 4.774 mortes e prejuízos econômicos superiores a R$ 740 bilhões. Mais de 129 milhões de pessoas foram diretamente afetadas.
Os dados evidenciam os impactos das inundações, enxurradas e de outros eventos relacionados à água sobre a população, a infraestrutura urbana e a atividade econômica. A ausência de sistemas adequados de drenagem e de medidas de adaptação pode ampliar os prejuízos quando ocorrem episódios de chuva intensa.
De acordo com Djanikian, adiar investimentos preventivos pode aumentar os gastos futuros do poder público. Sem obras capazes de reduzir os riscos, os municípios podem precisar destinar mais recursos à reconstrução de áreas atingidas, à recuperação de estruturas danificadas e à assistência às famílias afetadas.
O levantamento aponta, portanto, para a necessidade de ampliar o acesso dos municípios vulneráveis ao financiamento, fortalecer as equipes técnicas das prefeituras e melhorar a capacidade de planejamento. A prevenção de desastres depende tanto da disponibilidade de recursos quanto das condições financeiras e administrativas para transformar o crédito em obras de proteção à população.
*Da Agência Fonte Exclusiva.
