Estudo citado pelo ministro Alexandre Padilha estima em R$ 38,8 bilhões por ano o custo social associado às apostas no Brasil; saúde concentra quase 79% do valor.
As consequências das apostas e dos jogos de azar podem representar um custo social de pelo menos R$ 38,8 bilhões por ano no Brasil. A estimativa foi destacada pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, nesta sexta-feira (25), durante uma cerimônia do governo federal em São Paulo.
O número, porém, não representa um gasto direto de R$ 38,8 bilhões nos cofres públicos. Ele foi calculado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e reúne custos diretos e indiretos associados ao jogo problemático, como problemas de saúde, perda de qualidade de vida, desemprego, perda de moradia e encarceramento.
O levantamento faz parte do dossiê “A Saúde dos Brasileiros em Jogo”, publicado em dezembro de 2025 pelo IEPS em parceria com a Frente Parlamentar Mista para Promoção da Saúde Mental e a Umane.
Saúde responde por quase 79% do impacto estimado
Do total calculado pelo estudo, R$ 30,6 bilhões estão ligados a danos relacionados à saúde, o equivalente a aproximadamente 79% dos R$ 38,8 bilhões estimados.
A maior parcela está associada aos impactos relacionados ao suicídio, avaliados em R$ 17 bilhões por ano.
Outros R$ 13,4 bilhões correspondem aos efeitos associados à depressão. Desse montante, R$ 10,4 bilhões são relacionados à perda de qualidade de vida e R$ 3 bilhões a tratamentos médicos. O dossiê ainda estima R$ 86 milhões em custos associados ao alcoolismo e R$ 45 milhões ao uso de drogas ilícitas.
Esses valores incluem não apenas despesas realizadas pelo poder público, mas também perdas sociais calculadas a partir da redução da qualidade e da duração da vida.
Como o cálculo foi realizado
Para estimar o impacto brasileiro, os pesquisadores utilizaram dados do terceiro Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira e projeções populacionais do IBGE.
O estudo também adaptou para a realidade brasileira estimativas de custos produzidas pelo Office for Health Improvement and Disparities, órgão do governo britânico, aplicando uma conversão baseada na paridade do poder de compra entre os dois países.
O dossiê estimou em aproximadamente 12,8 milhões o contingente considerado na análise dos diferentes níveis de risco relacionados ao jogo. Desse universo, cerca de 1,4 milhão estaria em situação classificada como jogo problemático, enquanto 11,4 milhões estariam nas categorias de risco baixo ou moderado.
Estudo faz ressalva sobre causa e efeito
Os próprios responsáveis pelo levantamento alertam para uma diferença importante: associação não significa necessariamente que as apostas sejam a causa direta de todos os casos de depressão ou suicídio considerados na estimativa.
O IEPS afirma que, diante das limitações das evidências disponíveis, não é possível atribuir diretamente ao jogo problemático cada caso utilizado no cálculo. Por isso, o estudo trabalha com danos associados ao problema, e não com uma relação automática de causa e efeito.
Essa ressalva é importante para a interpretação dos R$ 38,8 bilhões. Trata-se de uma estimativa econômica e epidemiológica sobre os impactos sociais relacionados às apostas, e não de uma soma de despesas individualmente comprovadas.
Atendimentos relacionados ao jogo aumentaram
Ao apresentar os dados, o Ministério da Saúde afirmou que os atendimentos relacionados a jogo patológico e problemas com apostas cresceram cerca de 140% entre 2018 e 2025. A pasta também projeta novo crescimento da demanda até 2028.
Segundo o governo, o transtorno do jogo pode estar relacionado a ansiedade, depressão, alterações do sono e do humor, perda de controle, isolamento, conflitos familiares e problemas profissionais.
Padilha também informou que mais de 1,3 milhão de brasileiros já utilizaram mecanismos de autoexclusão das plataformas de apostas. Entre os usuários que recorreram à ferramenta, 51% relataram relação da decisão com problemas de saúde, segundo dados apresentados pelo governo.
Diante do aumento da procura por ajuda, o Ministério da Saúde ampliou a oferta de atendimento relacionado a problemas com jogos e apostas.
O Meu SUS Digital passou a disponibilizar ferramentas de avaliação e teleatendimento, com capacidade anunciada de até 100 mil consultas mensais com profissionais como psicólogos e psiquiatras.
O governo também informou que mais de 170 mil pessoas já haviam utilizado um autoteste disponibilizado na plataforma para avaliar o impacto das apostas sobre a própria vida.
Dados entram no debate sobre as bets
A divulgação dos números ocorreu no mesmo dia em que o governo federal anunciou medidas para interromper a exploração de apostas de quota fixa no país por meio de Medida Provisória. A medida estabeleceu um cronograma para encerramento das operações autorizadas e retirada de recursos pelos apostadores.
Independentemente da discussão regulatória, o levantamento do IEPS coloca a saúde mental no centro do debate sobre o crescimento das apostas no país.
O instituto afirma que seu dossiê foi elaborado para medir não apenas quanto o mercado movimenta ou arrecada em impostos, mas também os impactos econômicos e sociais associados ao jogo problemático sobre famílias, trabalhadores e serviços públicos.
*Da Agência Fonte Exclusiva
