O apagão que deixou os 26 estados brasileiros e o Distrito Federal sem energia na última terça-feira (14) levantou uma dúvida entre consumidores e autoridades: o Brasil corre o risco de enfrentar apagões recorrentes?
Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a falha foi causada por um incêndio em um reator da subestação de Bateias, em Curitiba (PR), responsável por manter a estabilidade e a qualidade da energia transmitida pelos quatro subsistemas do país — Sul, Sudeste/Centro-Oeste, Nordeste e Norte.
O engenheiro eletricista Jorge Miguel Ordacgi Filho explica que apagões como o registrado são “perturbações sistêmicas”, eventos raros e imprevisíveis que resultam de uma sequência de falhas técnicas. “São contingências múltiplas, geralmente iniciadas por um curto-circuito. Não há padrão que permita prever quando ocorrerão”, afirmou.
De acordo com dados do ONS, a Rede Básica do Sistema Interligado Nacional (SIN) registrou 3.491 perturbações em 2023, mas apenas uma teve caráter sistêmico — ou seja, de grande escala. Em 2024, nenhuma ocorrência desse tipo foi registrada até agora, o que, segundo o especialista, demonstra a robustez do sistema.
“Esses eventos são raros e aleatórios. A análise de 2023 e 2024 mostra que o SIN tem mecanismos eficientes de proteção e isolamento de falhas”, destacou Ordacgi. Ele acrescenta que o operador nacional monitora constantemente a evolução da rede, com novas linhas de transmissão, transformadores e sistemas automáticos para evitar que pequenas falhas se tornem apagões nacionais.
Sistema interconectado e desafios técnicos
O engenheiro Neilton Fidelis também reforça que o SIN, por ser altamente interligado, está sujeito a efeitos em cascata. “Uma falha localizada pode sobrecarregar outras regiões, gerando desligamentos sucessivos. Mas, no caso recente, tratou-se de um acidente pontual, sem relação com falta de oferta de energia”, explicou.
Fidelis acrescenta que a diversificação da matriz energética brasileira, com o avanço das fontes eólica e solar, é positiva para o meio ambiente e o abastecimento, mas torna a operação mais complexa. “A presença crescente de fontes intermitentes exige novos padrões de controle e estabilidade, o que aumenta o desafio técnico do ONS”, afirmou.
Para reduzir riscos, ele defende investimentos contínuos na modernização da rede elétrica, ampliação da redundância dos sistemas de proteção e manutenção rigorosa das estruturas de transmissão.
Como o consumidor pode se proteger
Os especialistas alertam que, durante perturbações sistêmicas, podem ocorrer oscilações de tensão capazes de danificar aparelhos domésticos. Ordacgi recomenda que os consumidores instalem dispositivos de proteção contra surtos elétricos e desconectem equipamentos sensíveis durante quedas de energia.
Após o restabelecimento do fornecimento, é prudente aguardar alguns minutos antes de religar os aparelhos, garantindo que a rede tenha se estabilizado. “Esses cuidados simples reduzem prejuízos e ajudam a proteger os equipamentos durante perturbações elétricas”, orienta Fidelis.
*Da Agência Fonte Exclusiva.
