Ofertas de crédito fácil, investimentos com retornos elevados e serviços financeiros divulgados em nome de instituições conhecidas passarão por um controle reforçado na plataforma de publicidade do Google.
Um acordo com o Ministério da Justiça e Segurança Pública prevê a utilização de informações oficiais para verificar quem está por trás dessas campanhas antes de sua exibição aos consumidores brasileiros.
A cooperação foi firmada pelo Google Brasil com a Secretaria Nacional do Consumidor, a Senacon, e a Secretaria de Direitos Digitais, a Sedigi. O objetivo é reduzir a circulação de anúncios relacionados a investimentos inexistentes, empréstimos fraudulentos, corretoras falsas, fintechs sem autorização e páginas criadas para imitar instituições legítimas.
A iniciativa não elimina os procedimentos gerais de identificação que já fazem parte das políticas do Google Ads. A empresa já mantém um programa de verificação de anunciantes e exige controles adicionais para determinados serviços financeiros divulgados no Brasil. O acordo amplia esse processo ao prever acesso a um cadastro oficial construído com informações de autoridades reguladoras.
Para anunciar produtos financeiros regulados, a empresa deverá comprovar sua identidade, existência jurídica e autorização para atuar no mercado brasileiro.
Também será necessário demonstrar que a pessoa responsável pela campanha possui legitimidade para utilizar o nome da instituição divulgada. A medida pretende dificultar a ação de fraudadores que criam contas publicitárias em nome de bancos, seguradoras, financeiras ou corretoras com as quais não mantêm qualquer vínculo.
A conferência poderá envolver registros de diferentes órgãos, conforme o produto ou serviço anunciado. Entre as entidades mencionadas no acordo estão o Banco Central, a Comissão de Valores Mobiliários e a Superintendência de Seguros Privados.
O Banco Central acompanha instituições bancárias, cooperativas de crédito, financeiras e outras empresas submetidas à sua supervisão. A CVM fiscaliza atividades relacionadas ao mercado de valores mobiliários, enquanto a Susep atua nos segmentos de seguros, capitalização, previdência complementar aberta e resseguros.
As políticas de publicidade financeira do Google também reconhecem outros órgãos e registros brasileiros, como a Superintendência Nacional de Previdência Complementar, a Agência Nacional de Saúde Suplementar e entidades profissionais ligadas a atividades que podem envolver serviços financeiros.
Depois da análise, a empresa poderá receber a condição de anunciante financeiro verificado. Esse reconhecimento será exigido para a divulgação dos produtos e serviços incluídos no sistema previsto pela parceria.
A aprovação não terá caráter permanente. O Google poderá solicitar uma nova conferência das informações, especialmente quando houver mudanças no cadastro, nos dados de pagamento, na propriedade da empresa ou na forma de operação da conta publicitária.
A verificação também poderá ser suspensa ou cancelada quando forem identificados documentos falsos, dados inconsistentes, perda da autorização regulatória ou indícios de fraude.
Nessas situações, além de perder a classificação, o anunciante poderá ter as campanhas restringidas e a conta suspensa. As regras do Google consideram irregular a apresentação de informações falsas e a oferta de produtos financeiros sob condições enganosas.
Um dos principais pontos do acordo é a elaboração de um cadastro oficial com informações sobre empresas autorizadas a atuar no mercado financeiro.
A base deverá ser construída pelo Ministério da Justiça em conjunto com os órgãos reguladores. Com acesso aos registros, o Google poderá comparar os documentos apresentados pelo anunciante com as informações mantidas pelo poder público.
A consulta permitirá verificar se a instituição realmente existe, se possui autorização para oferecer o serviço anunciado e se o responsável pela campanha está habilitado a representá-la.
A intenção é impedir que uma publicidade seja aprovada apenas porque apresenta documentos aparentemente regulares ou utiliza uma identidade visual semelhante à de uma instituição conhecida.
O cruzamento de dados também poderá ajudar na identificação de páginas clonadas, falsas plataformas de investimento e empresas que perderam ou nunca receberam autorização para funcionar.
Anúncios pagos são utilizados por criminosos para alcançar consumidores que pesquisam empréstimos, investimentos, seguros e formas de recuperar valores perdidos em fraudes anteriores.
Ao selecionar a publicidade, a vítima pode ser direcionada para uma página que imita o endereço eletrônico de uma instituição verdadeira. Outra estratégia é conduzir o usuário para grupos de mensagens ou atendimentos controlados pelos fraudadores.
Em golpes de empréstimo, é comum a cobrança antecipada de supostas taxas de cadastro, seguro ou liberação do crédito. Após o pagamento, o dinheiro prometido não é depositado e os responsáveis interrompem o contato.
Nas falsas oportunidades de investimento, os criminosos podem apresentar gráficos manipulados, depoimentos inventados e promessas de rentabilidade acima do mercado. Em alguns casos, pequenos resgates são inicialmente liberados para conquistar a confiança da vítima e estimular novos depósitos.
O acordo procura atuar antes que esse tipo de propaganda alcance o público. Em vez de depender apenas de denúncias e retiradas posteriores, a proposta é reforçar a identificação de quem pretende anunciar.
O programa geral de verificação do Google exige que empresas respondam a perguntas sobre suas atividades e, em determinados casos, encaminhem documentos de identificação.
Parte das informações confirmadas pode aparecer nos avisos exibidos junto às propagandas. Os usuários também podem pesquisar dados sobre anunciantes e campanhas na Central de Transparência de Anúncios.
A ferramenta reúne peças publicitárias divulgadas em serviços como a busca do Google e o YouTube. Entre as informações que podem ser apresentadas estão o nome e a localização do anunciante, os materiais publicados e os períodos em que as campanhas foram exibidas.
Segundo as políticas da plataforma, contas podem ser selecionadas para verificação por diferentes motivos. A exigência pode estar relacionada ao setor de atuação, ao conteúdo divulgado, ao comportamento considerado suspeito ou ao uso de recursos frequentemente explorados em práticas fraudulentas.
O Ministério da Justiça informou que a parceria acompanha o decreto editado em maio de 2026 para regulamentar deveres previstos no Marco Civil da Internet.
A norma estabelece obrigações de diligência para plataformas digitais e admite a responsabilização pela circulação de publicidade fraudulenta quando não forem adotadas medidas adequadas de prevenção e retirada.
Para a Secretaria de Direitos Digitais, a verificação prévia deverá ajudar a confirmar se o anunciante possui autorização do Estado brasileiro para oferecer o produto financeiro apresentado.
A Senacon considera que o enfrentamento das fraudes exige cooperação entre o poder público e as empresas responsáveis pelas plataformas de publicidade. O foco é proteger o patrimônio dos consumidores e reduzir a presença de ofertas enganosas no ambiente digital.
A análise das empresas exigirá o tratamento de documentos societários, informações regulatórias e dados dos responsáveis pelas campanhas.
O acordo determina que o procedimento siga a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais. Somente poderão ser utilizadas as informações necessárias para confirmar a identidade, a regularidade da empresa e a autorização do representante.
Cada participante responderá pelos dados mantidos sob sua administração. Também deverão ser aplicadas medidas destinadas a evitar acessos indevidos, vazamentos, alterações não autorizadas e utilização para objetivos diferentes daqueles previstos na cooperação.
A identificação prévia cria uma camada adicional de segurança, mas não garante que todos os anúncios exibidos sejam legítimos ou que o produto oferecido seja adequado ao consumidor.
O próprio Google informa que utiliza os dados disponíveis para revisar os anunciantes, mas que a aprovação não representa uma garantia sobre todo o conteúdo ou sobre todas as atividades realizadas pela empresa verificada.
Antes de transferir recursos ou contratar um serviço, o consumidor deve procurar os canais oficiais da instituição e conferir sua situação no órgão regulador responsável.
Promessas de lucro garantido, pressão para uma decisão imediata, cobrança antecipada para liberar empréstimos e pedidos de transferência para contas de pessoas físicas devem ser tratados como sinais de alerta.
Também é recomendável evitar o envio de senhas, códigos de segurança e fotografias de documentos por aplicativos de mensagens sem a confirmação da identidade do atendente.
A efetividade do novo modelo dependerá da atualização constante dos cadastros públicos, da qualidade da análise documental e da rapidez para interromper campanhas quando surgirem evidências de irregularidades.
Ao aproximar os registros dos órgãos reguladores do sistema de publicidade, governo e Google pretendem tornar mais difícil o uso de anúncios patrocinados como porta de entrada para golpes financeiros.
*Da Agência Fonte Exclusiva
