Inteligência Artificial reduz tráfego de notícias e amplia pressão sobre jornalismo digital

Resumos produzidos por sistemas de IA nos buscadores diminuem os acessos aos portais, afetam receitas publicitárias e levantam debates sobre direitos autorais e regulamentação no Brasil.

Resumos de IA reduzem o tráfego de sites de notícias e pressionam receitas do jornalismo, enquanto Brasil debate regras para uso de conteúdos.

Imagem: Ilustração/ Agência Fonte Exclusiva

A expansão das ferramentas de Inteligência Artificial está provocando mudanças significativas na maneira como o público encontra e consome notícias na internet.

Ao apresentar respostas prontas e resumos diretamente nos mecanismos de busca, essas tecnologias reduzem a necessidade de o usuário acessar o site responsável pela produção da reportagem.

O movimento começa a afetar a audiência dos veículos e, consequentemente, uma das principais fontes de receita do jornalismo digital: a publicidade vinculada ao número de acessos.

Um dos exemplos mais conhecidos é o AI Overviews, recurso lançado pelo Google em 2024 que utiliza Inteligência Artificial para apresentar sínteses de informações diretamente na página de resultados.

Na prática, o usuário pode obter uma resposta sem necessariamente visitar os links das reportagens utilizadas como referência.

Para representantes do setor jornalístico, a transformação vai além da questão financeira. A redução dos acessos pode diminuir a exposição do conteúdo produzido pelas redações, enquanto a síntese automática de assuntos complexos também pode retirar informações importantes do contexto original.

Especialistas ainda apontam preocupações relacionadas à circulação de informações incorretas ou incompletas.

No Brasil, a discussão sobre o uso de conteúdos protegidos por direitos autorais em sistemas de Inteligência Artificial também chegou ao Congresso.

O Projeto de Lei 2338/2023, que trata do marco regulatório da tecnologia, estabelece mecanismos para que autores e produtores sejam remunerados pelo uso de suas obras em determinadas circunstâncias, incluindo conteúdos jornalísticos utilizados por sistemas de IA.

O texto, entretanto, ainda enfrenta dificuldades para avançar na Câmara dos Deputados.

Queda no tráfego afeta veículos digitais

A preocupação com a perda de audiência já aparece em levantamentos realizados pelo setor. Segundo dados da Associação de Jornalismo Digital (Ajor), que reúne 152 veículos de comunicação online, 25% dos portais registraram redução superior a 20% na audiência durante 2025.

O principal impacto foi observado no tráfego originado nos mecanismos de busca, justamente um dos canais que passaram por mudanças com a expansão dos recursos de Inteligência Artificial.

Para a diretora de Relações Institucionais da Ajor, Carla Egydio, a queda no número de visitantes pode comprometer a estrutura financeira dos veículos, uma vez que parte significativa da publicidade digital está relacionada ao volume de audiência alcançado pelas páginas.

O setor já vinha enfrentando dificuldades com a transferência de investimentos publicitários para grandes plataformas digitais. A chegada dos resumos gerados por IA acrescenta uma nova camada ao problema, pois permite que o usuário tenha acesso a informações sem precisar entrar diretamente no portal que produziu o conteúdo.

Resumos automáticos levantam preocupação sobre qualidade

Os efeitos da Inteligência Artificial sobre o jornalismo não se limitam à receita das empresas. A forma como os sistemas apresentam informações também passou a ser alvo de questionamentos.

Ao transformar reportagens e conteúdos extensos em respostas curtas, os sistemas automatizados podem eliminar detalhes, reduzir nuances e deixar de apresentar elementos importantes para a compreensão de determinado assunto. A preocupação aumenta principalmente em temas que exigem contexto, análise e diferentes perspectivas.

Também existe uma discussão sobre a utilização de trechos de reportagens pelas plataformas de tecnologia. Quando conteúdos produzidos por jornalistas são reproduzidos sem autorização ou remuneração, surgem questionamentos sobre direitos autorais e sobre a valorização econômica do trabalho das redações.

O impacto sobre empresas internacionais também já foi percebido. Em 2025, o Business Insider anunciou a redução de aproximadamente 21% de sua equipe em meio a uma queda expressiva no tráfego, situação que foi relacionada, entre outros fatores, ao crescimento dos resumos produzidos por Inteligência Artificial nos mecanismos de busca.

Marco regulatório divide empresas e setor jornalístico

A regulamentação da Inteligência Artificial no Brasil tornou-se um dos principais pontos de disputa entre empresas de tecnologia e representantes dos produtores de conteúdo.

Entidades como a Brasscom manifestam preocupação com regras que determinem pagamentos pelo uso de materiais protegidos por direitos autorais. Na avaliação do setor tecnológico, determinadas exigências poderiam aumentar os custos de desenvolvimento de modelos de IA e prejudicar a capacidade de empresas brasileiras competirem internacionalmente.

As organizações ligadas ao jornalismo, por outro lado, defendem a criação de regras que garantam maior proteção aos conteúdos produzidos pelas redações. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) considera importante estabelecer mecanismos que assegurem remuneração pelo uso das obras, além de maior transparência sobre os materiais utilizados pelas plataformas.

O debate envolve, portanto, dois interesses centrais: garantir condições para o desenvolvimento da Inteligência Artificial e, ao mesmo tempo, preservar a sustentabilidade econômica da produção jornalística profissional.

Projeto aguarda avanço na Câmara

Apesar de ter sido tratado como uma das prioridades legislativas, o projeto que regulamenta a Inteligência Artificial ainda não avançou de maneira significativa na Câmara dos Deputados.

A proposta aguarda a apresentação do parecer do relator, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB). A expectativa mencionada no debate legislativo é de que a análise possa ocorrer somente depois das eleições de outubro, em razão do calendário eleitoral.

A comissão especial encarregada de discutir o texto não realiza reuniões desde novembro de 2025. O cenário demonstra a dificuldade de estabelecer regras para um setor que evolui rapidamente e que passou a interferir diretamente na relação entre plataformas digitais, produtores de conteúdo e consumidores de informação.

Cade investiga uso de conteúdos jornalísticos

Enquanto o Congresso ainda discute a regulamentação, outras instituições passaram a analisar a relação entre empresas de tecnologia e veículos de comunicação.

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) abriu uma investigação para verificar se o Google teria utilizado conteúdos jornalísticos em ferramentas de Inteligência Artificial sem oferecer remuneração aos veículos responsáveis pela produção das informações.

Ao mesmo tempo, empresas de comunicação começaram a buscar acordos diretamente com companhias de tecnologia. A Folha de S.Paulo firmou um acordo com a OpenAI depois de recorrer à Justiça em uma disputa relacionada ao uso de seus conteúdos. O Estado de S. Paulo, por sua vez, estabeleceu uma parceria com o Google.

A transformação provocada pela Inteligência Artificial coloca o jornalismo diante de uma nova realidade econômica e tecnológica. A forma como as pessoas chegam às notícias está mudando, enquanto veículos precisam lidar com possíveis perdas de audiência e novas discussões sobre remuneração e direitos autorais.

Com os mecanismos de busca assumindo um papel cada vez maior na apresentação direta das informações, o debate sobre como financiar a produção jornalística profissional e como proteger os conteúdos utilizados pelos sistemas de IA tende a permanecer entre os principais desafios do setor.

*Da Agência Fonte Exclusiva.

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