Empresas investem em detector de mentiras para inteligência artificial

FakeCatcher, da Intel, analisa pixels para identificar se rosto tem fluxo sanguíneo e é humano

Detector de mentiras para inteligência artificial vira filão

A Optic, ferramenta criada para identificar conteúdo 'fake', sinaliza imagem criada por inteligência artificial (Optic via New York Times)

No ano passado, Andrey Doronichev se assustou ao encontrar um vídeo nas redes sociais no qual o presidente da Ucrânia se rendia à Rússia. As imagens logo foram reconhecidas como geradas artificialmente (deep fake), mas Doronichev as viu como um presságio.

Em 2023, seus medos se aproximaram da realidade: empresas de tecnologia passaram a competir para aprimorar ferramentas de inteligência artificial. A chamada IA Generativa agora está ao alcance de todos, sendo cada vez mais capaz de enganar com textos, áudios, imagens e vídeos que parecem ser concebidos por humanos.

Para empresários como Doronichev, isso se tornou uma oportunidade de negócio. Ele fundou a empresa Optic para ajudar a identificar material sintético ou falsificado — ou para ser, em suas palavras, “uma máquina de raio-X de aeroporto para conteúdo digital”.

Em março, ele lançou um site onde os usuários podem checar se imagens foram feitas por câmeras reais e diz estar trabalhando em outros serviços para verificar vídeo e áudio.

Mercado de IA generativa vai superar US$ 109 bi

De acordo com a empresa de pesquisa de mercado Grand View Research, o mercado de IA generativa deve ultrapassar os US$ 109 bilhões até 2030, com um crescimento anual médio em 35,6%.

Empresas focadas na detecção de IA têm crescido em participação na indústria. Meses depois de ser criado por um estudante da Universidade de Princeton, o GPTZero afirma que mais de 1 milhão de pessoas usaram seu programa para analisar textos gerados por computador.

Já a Reality Defender foi uma das 414 empresas escolhidas entre 17 mil aplicativos para serem financiadas pelo acelerador de startups Y Combinator neste inverno. A Copyleaks levantou US$ 7,75 milhões no ano passado para expandir seus serviços antiplágio para escolas e universidades.

OpenAI, criadora do ChatGPT, lança detector

O Sentinel fechou uma rodada inicial de US$ 1,5 milhão em 2020 para ajudar a proteger as democracias contra deepfakes e outras mídias sintéticas maliciosas.

Grandes empresas de tecnologia também estão envolvidas: o FakeCatcher, da Intel, afirma ser capaz de identificar deepfakes com 96% de precisão, analisando pixels em busca de sinais sutis de fluxo sanguíneo em rostos humanos.

Dentro do governo federal, a Defense Advanced Research Projects Agency planeja gastar quase US$ 30 milhões este ano para executar o Semantic Forensics, um programa que desenvolve algoritmos para detectar deepfakes e determinar se eles são maliciosos.

Até a OpenAI, que impulsionou o boom da IA ​​quando lançou sua ferramenta ChatGPT no ano passado, está trabalhando em serviços de detecção. A empresa lançou uma ferramenta gratuita em janeiro para ajudar a diferenciar textos escritos por seres humanos e por inteligência artificial.

A OpenAI enfatizou que a nova ferramenta ainda “não é totalmente confiável”. Enquanto ela identificou corretamente 26% do texto gerado artificialmente, erroneamente sinalizou 9% do texto de humanos como gerados por computador.

Segundo especialistas, as ferramentas de detecção estão sempre atrasadas em relação à tecnologia generativa que estão tentando detectar.

No momento em que um sistema de defesa é capaz de reconhecer o trabalho de um chatbot ou gerador de imagens, os desenvolvedores já estão criando uma outra versão, que pode escapar dessa defesa.

Sempre correndo atrás da mais nova tecnologia

A situação foi descrita como uma corrida armamentista ou uma relação vírus-antivírus em que um gera o outro, repetidamente.

– Quando o Midjourney lança o Midjourney 5, minha arma inicial dispara e começo a trabalhar — e enquanto faço isso, eles estão trabalhando no Midjourney 6 – disse Hany Farid, professor de ciência da computação na Universidade da Califórnia, Berkeley, especializado em ciência forense digital. – É um jogo inerentemente contraditório em que, enquanto trabalho no detector, alguém está construindo uma ratoeira melhor, um sintetizador melhor – concluiu o especialista.

Especialistas explicam que vídeos gerados por IA ainda são desajeitados e fáceis de identificar. Mas a clonagem de áudio e a criação de imagens estáticas estão em estágio muito avançado. Separar o real do falso exigirá táticas forenses digitais, como pesquisas reversas de imagens e rastreamento de endereço IP.

Outro problema é que os programas de detecção disponíveis estão sendo testados com exemplos que são muito diferentes dos conteúdos que circulam on-line, com “imagens que foram modificadas, cortadas, reduzidas, transcodificação e anotadas e Deus sabe o que mais aconteceu com elas”, explica Farid.

– Há uma verdadeira “lavagem” de informações falsas, o que torna tudo mais difícil – explica Farid.

Adobe promete rótulo de identificação

Um consórcio de mil empresas e organizações criou recentemente o Content Authenticity Initative (Iniciativa de Conteúdo Autêntico, numa tradução livre), liderado pela Adobe (fabricante de software que criou o PDF) e que tem entre seus participantes o The New York Times. O objetivo do grupo é identificar padrões que tornem mais fácil o rastreio do que é autêntico ou falso.

No início deste mês, a Adobe afirmou que a sua tecnologia de IA generativa Firefly seria incorporada ao Google Bard, que é a ferramenta de textos gerados por inteligência artificial da gigante de tecnologia. Mas a Firefly terá rótulos de identificação, sinalizando a data em que foi criada cada imagem e a partir de quais ferramentas digitais foi gerada.

Para Jeff Sakasegawa, criador da Persona, empresa que ajuda a verificar identidades de consumidores, os desafios criados pela IA apenas começaram.

– A onda (de IA) está se formando, não chegou ao auge e ainda está longe de estourar – resumiu.

Com informações do Jornal O GLOBO.

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